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1883 - Sombra De Butte

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Capa do livro

Os primos Fenrir Nechestnyy e Cody Martin se veem encurralados em uma situação de desconfiança extrema entre ambos, em um mundo onde a presença de lobos, vampiros, orcs e magia negra é constante desde sempre. Os dois primos se encontram em meio ao caos criminoso local e corporativo dos Estados Unidos, enquanto precisam lidar com os problemas que suas próprias ações trazem, durante a guerra que estão começando em Butte, Montana. Eles tentam sobreviver à recompensa colocada sobre suas cabeças pelo submundo corporativo-criminoso, imposta pela Agência Internacional de Combate ao Narcotráfico e Narcoterrorismo (AICNN), que começa a notar a bagunça que eles estão causando no tranquilo estado de Montana, ligado à maior rede de distribuição de drogas e armas dos Estados Unidos. Este não é um conto sobre herois.

CAPÍTULO 1: R.I.P 2013 - 2021

Butte, Montana - 2021

É sete da manhã em uma casa da Silver Creek Hollow Drive. Fenrir acorda com o primo batendo em sua porta com algo que parecia pesado. Ele joga o que parece ser um livro velho com a capa feita de pele que estava em cima dele - "A arte de dominar o básico da magia negra" - se levanta sonolento e abre a porta, para ver seu primo Cody com a boca e os dentes sujos de sangue, os olhos totalmente negros e "mortos", e um taco de beisebol que ele deixa do lado de fora do quarto do primo para bater na porta. Cody, com sua fala arrastada e cansada de ter ficado a noite toda "curtindo"

- Eae, veja se o Aleksei mandou os contatos dos novos caras lá de Los Angeles.

Fenrir responde ao Cody ainda com olhos fechados e bocejando

- É, eu tô ligado, eles vêm hoje. Já já eu olho se mandaram alguma coisa.

Cody para e olha o Fenrir quase dormindo enquanto fala, ele sopra o ar de sua boca com aquele hálito de sangue que acorda o Fenrir imediatamente

- Aproveita que você vai ficar o dia na pista. Vai cobrar lá aquela dívida daquele moleque que estudou com você, Arthur não sei o quê. Ele pegou uma grana comigo e era pra ter pago semana passada. Mora perto daquela casa que a gente comprou em Williamsburg no nome daquele laranja.

- Só isso? - Fenrir, balbuciava com os olhos cansados e ainda fechados

Cody, largando o taco de beisebol do lado de fora do quarto, antes de se virar pra ir pro banheiro.

- Na verdade não. No caminho voltando pra casa compra duas pizzas e aquele jogo novo de tiro que lançou.

Antes de bater a porta com força, Fenrir responde com mais sono do que quando foi acordado

- Demoro.

Cody se vira e vai para o banheiro tomar um banho. Fenrir, por outro lado, se senta em sua cama, limpa os olhos, olha pro celular jogado no lençol, vê que chegaram algumas mensagens de sua mãe e irmã, mas ignora. Ele pega uma seda na gaveta, um pouco de flor da melhor qualidade do estado, e fecha um baseado perfeito de "café da manhã". Arruma o travesseiro para se encostar bem na cama, pega o isqueiro e acende o baseado, se estica para pegar o celular do outro lado da cama, desbloqueia e vai direto nas conversas do contato mais recente: DeShawn "Grave" Lamar Holloway, o chefe da gangue com quem eles estavam "fazendo negócios". Já tinha uma mensagem dele lá das seis e quarenta e sete da manhã.

- Oia, bom dia com Deus, cria.

Fenrir imediatamente responde de volta dando mais um trago no baseado.

- Bom dia com Deus pra nóis, azedo.

E manda uma foto sua no quarto com o baseado nos dedos para DeShawn, que responde quase no mesmo momento com uma foto de volta dentro do carro mostrando a estrada e o baseado que ele estava fumando.

- De tarde já tô por aí. Quando tiver mais perto dou um toque.

Fenrir responde de volta.

- Demoro cria. Qualquer coisa eu não tiver por aqui, você da um salve no meu primo.

Fenrir coloca o celular no bolso da calça, veste uma camisa, põe a bota, sai do quarto e desce as escadas para a sala, onde pega uma xícara de café ainda com o baseado em uma das mãos. Ele não se preocupa em trancar a porta numa situação em que alguém invadisse a casa - a maior preocupação de qualquer invasor seria em como sair de lá, com vida.

Fenrir abre a porta da frente de sua casa e raios de sol fortes batem no seu rosto, o que lhe traz uma sensação reconfortante, junto do café quente e da onda que o baseado estava trazendo. Ele entra na sua caminhonete preta que estava estacionada na frente de casa, dá mais um gole no café antes de ligar e começa a dirigir até Williamsburg, o som alto dentro do carro, o café em uma das mãos e o baseado na que estava entre os dedos no volante, começando a criar uma neblina dentro do carro que parecia quase mágica de tão densa, o trap alto tocava no som dentro da caminhonete.

Olhando pela janela do seu lado, Fenrir avista uma mercearia aberta às oito e meia da manhã. Ele para e estaciona, deixa o café e traz o baseado - parou para comprar alguns Crimson Daily, sucos de sangue falso para o primo. Tinham esquecido nas semanas passadas.

Sangue falso fresco à base de porco. Evite sua caçada semanal e mude seu cardápio com o nosso suco, que além de gostoso é nutritivo.

Fenrir lê no rótulo de uma das nove garrafas que pega. Vai até o caixa para pagar.

- Crédito, por favor. - Fenrir disse com o baseado preso nos lábios, colocando as garrafas no balcão e abrindo a carteira.

- Achei que lobisomens não podiam abrir contas em bancos. - A caixa comentava com uma voz familiar para os ouvidos de Fenrir, que então levanta a cabeça para ver que era Chloe, uma amiga que ele não via há um ano e meio.

- Se fosse uma cobra tinha te picado. Aliás, é proibido fumar aqui. - Chloe disse com um sorriso de canto meio sem graça. Era uma das únicas humanas mulher que Fenrir já fez amizade.

- É o cartão da minha irmã. Esqueci meu dinheiro em casa. - Ele percebeu que não havia sentido o cheiro dela por estar fumando, aquele cheiro delicioso que escapava de seu nariz. Era quase triste - Me dá três carteiras de cigarro Lunar Black. - Fenrir falou enquanto dava um último trago para matar o baseado.

- Então como você está, lobo mau? Sabia que você tinha mudado seu gosto, mas não a ponto de beber esse "veneno vermelho". Não era essa sua opinião sobre o Crimson Daily? - Chloe dizia olhando para o Fen com um sorriso, enquanto ele se inclinava para pegar as carteiras de cigarro de trás da bancada e ela colocava os Crimson Dailys em sacolas.

- É, tô bem, valeu. Resolvi dar uma nova chance. Esses novos estão até que com um gostinho legal. Tomei um pouco semana passada na casa de um amigo e... - Ele faz uma pausa de um segundo, que é mais que suficiente para sentir o cheiro da pele dela inundar seus pulmões. - Até que tá legalzinho. E você sabe, a maioria é para o Cody. - Ele terminou enquanto tirava um cigarro de uma das carteiras, aquele cheiro parecia mecher com quimica da sua mente. Guardou as outras carteiras e colocou o cigarro nos lábios. Antes de acender, para e pega as sacolas enquanto a Chloe pegava o cartão de crédito que ele havia deixado em cima da bancada e passa somente as carteiras de cigarro.

- Valeu, mas você esqueceu de passar o principal, né?

Chloe devolve o cartão a ele.

- Tudo bem, só uma carteira dessas que você fuma é trezentos e trinta dólares mesmo. Quarenta e nove não vai fazer tanta diferença.

Ela termina de falar com um pequeno sorriso olhando para o Fenrir, que por um momento fica lá, parecendo perdido naqueles olhos verdes e fios de cabelos louros. Tão dourados quanto seu sangue quente. Tão dourados quanto o mar de sangue de 2012. E por um breve momento é levado de volta ao Front de Licans, - uma nevasca na Rússia, um raso mar dourado de sangue espesso na neve, corpos de homens licanos de diferentes idades espalhados em trincheiras e no campo aberto, alguns congelados em permafrost soterrados na neve, centenas de fuzis russos Mosin-Nagant M1891. Em meio a tiros, uivos, rugidos e gritos de ambos os lados, alguns licanos ainda vivos. Um garoto de cento e vinte e nove anos que tinha aparência de uma criança de nove anos, e ainda não havia passado pela "Maldição de Prata" que fazia um licano envelhecer igual a um humano. - Aquele cheiro, aquele ar com os gases que saiam do sangue dourado, deixa o mais forte licano tonto. E lá estava ele na trincheira russa atirando nos inimigos turcos. Um deles é atingido no ar pelo Fenrir, que com um reflexo rápido atira na cara daquele lobisomem que tinha dado um pulo tão alto do outro lado da trincheira inimiga para chegar até ele, o inimigo caio com so um tiro do fuzil que o rasgou no meio. - Até que ele é atingido por um turco que conseguiu ver o flash do disparo de seu fuzil revelando sua posição no meio daquela nevasca. Ambos, de lugares e situações completamente diferentes, são trazidos de volta para o mundo real por uma buzina alta. Era Arthur, apertando a buzina da caminhonete dele que estava com a janela abaixada.

- Tá tudo bem? - Chloe pergunta com aquele olhar... aquele olhar que parecia uma armadilha. Uma armadilha que, assim que ele se deixasse cair, ela - mesmo sendo humana - estaria pronta para devorá-lo vivo.

- Tô sim, valeu pelo suco... a gente... - Fazendo uma pausa, dando uma última olhada naqueles olhos verdes esmeralda. - A gente se vê por aí.

Fenrir sai acendendo o cigarro, para disfarça o cheiro dela de seu nariz. Esse não o incentivo que ele estava procurando pra começar aquele tipo de manhã.

- Ei, você vai à festa que vai ter amanhã à noite? - Chloe saindo de trás do caixa, mas ainda distante, segurando o pingente de seu colar de ouro.

- Tô sabendo. Acho que vou sim. Fazia um tempo massa que não rolava nada interessante por lá. - Fenrir estava parado na porta antes de sair, olhando para os dedos dela naquele pingente de cruz cravejado em diamante.

- É aquela cabana velha que a gente ia quando éramos mais novos. Saudade daquele tempo. - Ela faz uma pausa olhando pra ele, como estivesse memorizando cada momento do passado, fenrir poderia dizer quais lembranças eram essas atrasves de seus olhos. - Já que é caminho, por que não passa lá em casa? A gente pode ir junto - eu, você e minha irmã - assim a gente... - Antes que Chloe pudesse terminar o que estava falando, Arthur buzina de novo, interrompendo-a e fazendo ela soltar o pingente.

Fenrir, olha para arthur lá fora, olha de voltá nos olhos dela, e balança a cabeça devagar, concordando.

- Demorou... - É, demorou. Vou colar por lá sim. Onze horas, quando tiver saindo de casa, ligo pra você pra avisar que tô colando

Antes que Fenrir pudesse sair, Chloe continuou por cima dele com um sorriso que não conseguia disfarçar por mais que tentasse.

- Legal! Eu já peguei seu número novo com a Lila, tudo bem?

Quando Fenrir ia abrir a boca pra responder ela, Arthur buzina novamente. Fenrir olha pro lado de fora e vê ele com os braços abertos, se queixando da demora.

- Meu Deus, tô parecendo uma adolescente. Vai logo antes que ele entre com a caminhonete na mercearia do meu pai. - Ela havia dito com uma voz sem graça enquanto olhava fundo na íris âmbar e castanha fraca do Fenrir. Por um momento ele se esquecia de tudo que havia acontecido, e se lembrava somente dos sentimentos que sentia na época que comprou aquele colar pra ela e que ela era oito anos mais velha que ele. Não que nenhuma dessas coisas importasse muito para ele hoje em dia.

Do lado de fora da mercearia de esquina, Arthur, encostado na caminhonete, já estava impaciente, até que finalmente vê Fenrir passando pela porta de vidro. Vai em direção à caminhonete, mudando completamente sua feição.

- Porra, mano, achei que vocês iam ficar lá se paquerando pra sempre.

Arthur fala antes de Fenrir empurrá-lo pra longe da porta da caminhonete. Eles não eram muito proximos, nem tinha muita intimidade, mas fenrir nunca se importou de expressar sua aversão a ele.

- Eae, filha da puta, cadê meu dinheiro?

Fenrir perguntou enquanto abria a porta do motorista pra colocar as sacolas no banco de trás. E se incomodava com o cheiro que exalava de arthur, se assemelhava ao cheiro de um viciado em pedra morta. Se ele não tivesse acostumado com aquilo a alguns anos estaria vomitando agora.

- Então, tava passando por aqui, vi sua carroça e vim pedir uma carona. - As batidas do coração dele ecoavam na mente do Fenrir com um eco grave. - A moeda do seu primo tá lá em casa. Tu já aproveita pra pegar ela e livrar minha careta também. Minha massa acabou, vei.

Arthur fala entrando pela porta do banco do passageiro e pegando um dos cigarros. Fenrir olha aquilo e não pode deixar de se sentir incomado pela presença de arthur. Antes que ele possa acender, Fenrir segura o pulso de Arthur que estava segurando o isqueiro, com força suficiente para deixar um hematoma.

- A moeda toda? Por que minha paciência já tá se esgotando com você tem um tempo massa. Pega a porra da droga fiado, usa mais do que vende, ainda vai pegar com meu primo pra me pagar, nem me paga, e começa a pegar as paradas com os nojentos dos espectros. - Ele faz uma pausa olhando fundo na iris azul de Arthur, vendo sua pupila dilatar de medo e o ritimo de seu coração acelerar. - Quando você olha pra mim, você vê o quê em?

Fenrir termina de falar mas não solta o punho de Arthur, que responde com voz nervosa.

- Precisa disso não, Fen, sem violência, mano. Você não é esse bichão todo. Tá lá em casa os oitenta e três mil, mano.

Fenrir continua o observando por alguns segundo ate que solta o punho dele e deixa ele acender o cigarro. - E dá um tapa de mão cheia na cara dele, fazendo Arthur derrubar o cigarro.

- Oitenta mil é o caralho. Tu tá devendo é cento e vinte.

Fenrir termina de falar e levanta a mão para dar outro tapa, até que olha para dentro da mercearia, onde estava estacionado na frente, e vê Chloe olhando para eles, balançando a cabeça como se desaprovasse aquilo. Ele abaixa a mão, liga a caminhonete e começa a sair com ela.

- Nóis vai na sua casa. Eu só volto de lá com meu dinheiro todo.

Fenrir fala enquanto volta a dirigir e olha para Arthur tentando pegar o cigarro de volta do assoalho. Então, com sua atenção dividida, Ele dá um murro nas costas de Arthur.

- Tá escutando, né, viadinho? Diga logo, que se lá não tiver meu valor, eu pelo menos não perco meu tempo e tomo logo a sua alma, seu nojento!

No momento que Fenrir fala isso, Arthur fica branco e se endireita no banco com o cigarro que ele pegou na mão.

- Não, mano, faz isso não, Fen. Nóis praticamente cresceu junto, mano. Sua moeda tá lá, eu juro por Satã. Você tá ligado, né?

Arthur termina de falar completamente em branco, assustado o suficiente para que qualquer um que o visse naquele momento não dissesse que ele era um vampiro.

- Demorou então, sugador de rola. Mas se você tiver mentindo pra mim, faço você conhecer esse outro viado vermelho de chifres que você tanto adora.

Fenrir fala e segue a estrada para a casa de Arthur em Williamsburg.

Eles chegam lá às nove e meia da manhã, Fenrir e Arthur descem da caminhonete. Fenrir acende outro cigarro, antes de da um forte respirada no ar puro do lugar.

- O que aconteceu com sua casa?

Fenrir, estranhava não estar sentindo nenhum tipo de cheiro vindo de dentro. Normalmente o cheiro daquele lugar era tão ruim quanto o dono.

- Como assim? Tá normal. - Arthur dizia procurando a chave em dos bolsos, enquanto ia em direção à porta de sua casa, um pouco rápido na frente do Fenrir.

- Sei lá, ela não tá fedendo mais. - Fenrir parava por um momento e observava seu relógio no pulso direito, seguindo logo atrás de Arthur enquanto ele destrava a porta da casa.

Arthur abre a porta e vai direto pro quarto.

- Espera aí. Vou pegar uma seda e sua moeda. Senta aí no sofá.

Fenrir ouvia arthur antes dele entrar no quarto e fechar a porta. Era uma casa pequena, mas aconchegante. Era a segunda vez que Fenrir ia lá e, apesar do sentimento, ele não estava achando aquilo naquele dia. A falta de odor, a ausencia dele era incômodo. Ele sentou no sofá e tirou um pequeno ziplock do bolso com um pouco da sua maconha. O silêncio da casa parecia ensurdecedor - nunca tinha sido assim antes. Ele conseguia escutar os ratos embaixo da casa, as tábuas rangerem. Algo não tava certo.

Ele tratava a maconha de cabeça baixa no sofá, distraído. Olha para o chão ao lado, procurando algo para fazer de piteira, e vê um vaso de flor - estranha, já que nunca tinha visto nenhuma ali antes. Nunca achou que o Arthur fosse do tipo que tem plantas em casa. Uma flor delicada, quase etérea. As pétalas são de um cinza-prateado bem claro, quase translúcidas, com veios finos azulados que parecem pulsar de leve quando a luz bate nelas. Ele finalmente percebe o porquê não havia sentido cheiro nenhum no local: a flor era um Lírio do Véu. Fenrir não sabia muito sobre elas - era a primeira vez dele vendo uma em muito tempo. Um tipo de flor específico, mágico, que impede que um licano sinta o cheiro de um lugar fechado.

Fenrir finalmente escuta a porta do quarto abrindo e Arthur voltando.

- Eae, cadê a seda? Tá tratado já?

Fenrir murmurou de cabeça baixa tentando tocar a pistola em sua cintura, antes de levantar a cabeça e vê Arthur na sua frente com mais três vampiros atrás dele. Aquela casa era pequena demais para tanta gente. Antes que Fenrir pudesse reagir à situação, Arthur aponta e atira com uma espingarda na cara dele, que abre um rombo que deixa o rosto do Fenrir irreconhecível. Seu corpo fica lá sentado no sofá com a frente do rosto aberta por tiro a queima-roupa. O cerebro dele pintava e se prendia as frestas da parede de madeira velha, alguns dentes cairam quebrados juntos de sangue no sofá e no resto de seu corpo. A maconha do baseado que tratava, estava agora molhada com seu sangue dourado e com alguns pedaços que ninguem sabia dizer ao certo que parte eram do rosto dele. - Aquela cena poderia ser quadro, a monalisa dos espectros. - Um dos vampiros que estava com Arthur: Logan Miller parecia liderar eles.

- Bora enterrar ele logo antes que se recupere. Brody vai pegar as pás. Tyler fica com esse 38 apontado pra ele. Se esse bicho acorda, nóis tá fudido. Arthur, vem comigo, larga essa doze e me ajuda a levar ele pros fundos. - Logan ia em direção ao corpo do Fenrir enquanto Arthur vai ajudá-lo, e Tyler fica perto, pronto pra atirar com aquele 38 velho - mas carregado com quatro balas de prata - a qualquer movimento mínimo que Fenrir fizer.

Eles carregam o Fenrir até o quintal, onde o Brody já estava cavando uma cova funda para ele. O sangue arrastado do corpo começar a soltar um pouco de fumaça em contato com a madeira, Até que no quintal o rosto do Fenrir começa a voltar em partes pro lugar, deitado la no chão, formando um rosto desfigurado, já que uma parte dele ainda estava grudada no sofá e nas paredes da sala. Os poucos gases que sairam do corpo dele e foram inalados pelos Tyler que estava proximo foi o suficiente para causar uma leve náusea no rapaz. - Pessoal, eu acho que eu não to bem não. - Tyler começar a querer regurgitar algo. E então sua mão que estava com o 38 apontado é agarrada pelo Fenrir. Tyler dá um disparo que pega na costela esquerda do Fenrir e assusta os outros que estavam ajudando a cavar a cova. Arthur assustado acaba cainda dentro da cova. Fenrir arranca a mão do Tyler fora com seus dentes totalmente tortos e desorganizados. - Ela foi jogada pro lado ainda segurando aquele 38 enferrujado que poderia ser confundido com um estilingue para derrubar passarinhos. - E pula do chão em direção ao Tyler e devora seu rosto.

Brody começa a bater em Fenrir com uma pá enquanto Logan correu em direção à mão arrancada do Tyler, que estava segurando forte o 38 e, mesmo no chão, tinha efetuado mais um disparo. Logan puxa o 38 da mão do Tyler, que ainda repetia o movimento de puxar o gatilho. Ele apontou para o Fenrir - que agora estava totalmente transformado em um lobisomem monstruoso de dois metros e nove. - Ele deu mais dois disparos nas costas daquela criatura, que com uma de suas mão rasga a garganta do Brody, que tentou escapar virando fumaça, mas as garras do Fenrir não permitiram.

Fenrir se vira de pé para o Logan, que estava segurando um 38 sem balas, revelando um rosto animalesco completamente deformado, com dezenas de longos e tortos dentes amarelos, um rosto todo sujo das vísceras do Tyler, o seu sangue dourado pingava junto do sangue vermelho do Tyler, e cada gota que pingava no chão soltava mais daquele gás com um odor quase impossivel de resistir sem fazer alguem vomitar. Pelado pela transformação, que havia rasgado suas roupas. Aos poucos ia regenerando o rosto e lentamente dava passos em direção ao Logan, que ficou paralisado de medo - até que Arthur atinge um dos braços do Fenrir com um longo e afiado facão de prata, fazendo ele dar um rugido alto e carregado de dor em resposta, dando uma pequena brecha para o Logan fugir como uma fumaça escura e densa em sua forma espectral vampira, que rapidamente sumia no céu.

Sorte que o Arthur não teve. Fenrir conseguiu se virar a tempo e agarra o Arthur pelo pescoço e o levanta do chão com seu braço direito - no qual estava seu relógio feito de platina com esmeraldas e diamantes, que não havia quebrado com a transformação. Na verdade, a parte de dentro dele possuía um desenho de um licano que brilhava leve em verde, um feitiço que ajudava o Fenrir a não perder o controle da transformação.

Arthur continuava golpeando Fenrir agora no ombro com aquele facão de prata, que sempre que ele puxava de volta para desferir o próximo ataque, o sol das dez horas batia na prata e refletia forte nos olhos âmbar do Fenrir, que estava completamente transformado. Mesmo em seu rosto desfigurado, Arthur tinha a visão da face de um lobisomem - um focinho acompanhado de longos dentes. Fenrir transformado era extrremamente magro. Sua pele, que agora de parda estava totalmente negra, era fina como a de um viciado em crack. Por baixo dela podia se ver cada músculo e osso, que pareciam lutar para manter a transformação. Alguns pelos cinzas espalhados pelo corpo. Olhos negros com a íris brilhando em um âmbar que refletia nos olhos do Arthur como se estivesse se alimentando do medo dele.

Fenrir segura o braço dele que estava com o facão e o quebra no meio, expondo o osso. O facão cai no chão. Fenrir continuou segurando Arthur pelo pescoço enquanto se destransformava e gritava de dor - gritos tão altos que todos em Williamsburg poderiam escutar. Pelado, seu corpo de pele parda revelava as marcas fundas de prata que ferviam em sua pele soltando uma fumaça que ardia os olhos. Marcas que nunca se regenerarão por completo e se tornarão cicatrizes permanentes: quinze cortes profundos no ombro, um no antebraço, um disparo na costela e mais dois nas costas.

- Seu desgraçado. Você por acaso tem ideia da merda que você fez?

Fenrir estava irado e quase chorando de dor, com uma boa parte do rosto ainda faltando. Ele apertava o pescoço do Arthur tão forte que ele não conseguia falar. Segurando Arthur, ele vai de volta até a sala, joga ele na TV da parede, e começa a fazer um desenho com o próprio sangue dourado no chão no chão. Arthur tossindo e com muita dificuldade para falar. - Aquela sala já estava com uma fina névoa, que fazia os olhos de Arthur arderem e lacrimejarem. Era difícil dizer o que era efeito dos gases e o que era choro real.

- Qual é, cara? Não faz isso comigo não, por favor. Eu falei pra eles que só tinha pegado com eles uma vez e traficava pra você e seu primo, mas eles não gostaram. Eles vieram aqui em casa e me obrigaram.

Era um pouco difícil entender o que Arthur dizia em meio ao choro. Ele se contorcia no chão pela dor nas costas ao ser jogado na parede. Fenrir, com o rosto completamente regenerado, grita com raiva.

- Vai se fuder. E a droga dessa planta do lado do seu sofá, seu desgraçado. - Foi eles que te obrigaram a ficar 5 meses plantando essa merda?

Arthur começa a chorar mais intensamente, começando a rezar por seu deus, Satã!

- Eles também botaram uma arma na sua cabeça e te obrigaram a atirar na minha? E como eles sabiam que eu vinha aqui? Eles devem ter adivinhado, não é?

Fenrir terminava de gritar ao mesmo tempo que termina de fazer o desenho de sangue no chão da sala: um pentagrama gigante com o nome dele e o nome de Arthur em uma das partes.

- A partir de hoje e para toda a eternidade, sua vida e sua alma me pertencem. Você não terá vontades ou desejos, não poderá me ferir ou tramar contra minha pessoa. Será uma marionete, até que chegue o dia que você sucumbirá ao seu maldito Deus, envergonhado por ter um crente tão fraco e vazio, sem vontade nenhuma. Você viverá apenas para servir. Terá tanta importância para esse mundo e as pessoas dele quanto uma mísera formiga.

Fenrir termina de recitar o feitiço com suas próprias palavras. Se aproxima de Arthur, que começa a flutuar na sala até sua direção. Fenrir, usa sua mão direita com o relógio de platina e esmeralda com diamantes, e enfia no peito do Arthur, que grita e geme de dor. - A casa tremia um pouco fazendo a Tv quebrada, cair do suporte do parede. - Fenrir puxa de dentro do Arthur sua alma, que ao ser retirada de seu corpo aparece agora brilhando em uma das esmeraldas do relógio. Então tudo para, o pentagrama some do chão e o Arthur cai.

Fenrir, desesperado pela dor que começava a se intensificar agora que o sangue quente passou, tira a calça do Arthur, a veste, deixa ele só de cueca no chão da sala com o braço quebrado. - Os gases naquela casa o fizeram desmaiar. Ainda havia muito sangue e partes do Fen espalhadas pela sala. - Fenrir abre a porta da frente e sai correndo até uma casa tão pequena quanto a do Arthur que ficava duas ruas na frente.

Até lá, Fenrir não vê mais ninguém fora de casa. Todas as casas estão com as portas trancadas e as janelas cobertas. Um tiro é comum em Williamsburg, mas o uivo de um lobo certamente assustou todos o suficiente para não quererem saber o que estava acontecendo.

Ele chega à porta da casa que se diferenciava das outras: tinhas vários filtros de sonhos na varanda e alguns feitos de dentes - dentes de lobisomens, vampiros e orcs. Ele bate na porta sem parar, todo sujo de sangue, enquanto seu corpo vazava mais pelas feridas abertas, parecendo um galão d'água.

- Vovó, vovó, abre a porra da porta por favor. Eu preciso de ajuda... - Ele espera impacietimente uma resposta - Vovó, droga, abre essa merda!

Fenrir grita enquanto bate na porta.

- EU NÃO VOU ABRIR PORRA NENHUMA, SEU MERDINHA. PASSAM ANOS E VOCÊ NUNCA VEM ME VER. VOCÊ VEM AQUI, FAZ SUAS MERDAS INTOXICANDO A CIDADE E MESMO ASSIM NÃO PENSOU UMA VEZ SE QUER EM VIR ME VER! - gritou velha de dentro da casa, enquanto o Fenrir conseguia escutá-la carregando uma espingarda.

- Eu te mato, sua velha maldita... - Me ajuda, por favor. Tô sangrando muito. Só preciso que você tire umas balas de mim e eu vou embora. - Ele novamente, para e espera uma resposta. - Sua velha caduca do caralho, deveria ter te jogado em um asilo! - Fenrir gritava, batendo cada vez mais forte na porta da casa.

- VAI SE FUDER COM SUA PRATA EM OUTRO LUGAR E MORRE LOGO. AÍ PELO MENOS ASSIM VOCÊ DÁ MENOS TRABALHO, SEU INGRATO! - A velha gritou de volta de dentro da casa.

Fenrir então se afasta da porta, segura o fôlego e pula em direção a ela com toda sua força, derrubando-a. Revelando uma velha senhora que parecia ter seus setenta anos, com uma espingarda apontada pra ele. Ela se afastou pelo susto e atirou bem no meio dos olhos do Fenrir na hora em que ele cai no chão dentro de sua casa, fazendo-o desmaiar ali mesmo.

CAPÍTULO 2: NA SUA MENTE

Fenrir, acorda, deitado no sofá velho, porém mutio confortável da casa da sua vó, seus machucados que antes doíam e quiemavam de dentro pra fora, estão costurados e enfaixados.

- Não se mexe, garoto.- A velha murmurou enquanto se sentava numa poltrona do lado do sofá.- Se não vai acabar abrindo os pontos. - Ela entrega uma xícara de chá para o Fenrir, que lutava para ficar acordado.

- Depois, eu acho bom você botar minha porta no lugar. Tá escutando? - A velha senhora exigiu enquanto pegava um controle para ligar a TV e assistir confortável de sua poltrona.

Fenrir terminou de tomar o chá enquanto assistia ao programa que estava passando naquele momento. Era um desenho animado que costumava assistir durante sua infância na Rússia, um episódio que sempre achava engraçado.

A raposa perseguia aquela ave novamente, de forma implacável, mesmo carregando um histórico de fracassos. O sonho que alimentava suas esperanças todas as noites, de um dia roer até os ossos daquela maldita ave, não a deixava desistir. Naquele dia ensolarado, um amigo da raposa aparecia para ajudá-la: um lobo selvagem de outro desenho invadia o episódio.
O lobo não era mais inteligente, mas era muito mais agressivo em suas investidas. Em um dos planos mirabolantes da raposa, juntos eles finalmente conseguiam capturar a ave, mas o lobo a traía, jogando-a de um penhasco, onde ela explodia ao atingir o chão.
Aquele lobo assustador soltava uma risada maléfica enquanto abria os dentes, preparando-se para devorar a ave, até que ela explodia em suas mãos, reduzindo-o a cinzas. A ave havia colocado uma bomba dentro de outra ave, uma personagem recorrente em alguns outros episódios.
Enquanto as cinzas do lobo eram levadas pelo vento, a câmera se afastava e mostrava a ave rindo ao lado de uma caixa de dinamite e de um balde de tinta azul.
E então ele apagou.
Deitado no sofá, todo enfaixado, com os olhos caindo e o som do programa da TV se afastando cada vez mais de seus ouvidos. Ele se vê levado de volta ao orfanato na Rússia, em 2013 - quando ele foi comprado por uma mulher, uma vampira, ruiva, 31 anos, americana, que ia visitá-lo uma vez por semana. Uma mulher gostosa, doce e gentil, a única que ele tinha conhecido até o momento que o tratou daquela maneira, como se ele não fosse uma arma - ou um monstro. Aquela era a mulher que ele viria a chamar de mãe.

Ele se contorce um pouco no sofá com outras memórias mais dolorosas sendo trazidas pela mente que ele nunca conseguiu esquecer, por mais que tentasse. - Não havia droga no mundo com esse efeito colateral. - Fenrir acorda meio tonto em meio a uma cirurgia, com o peito completamente aberto enquanto o homem que parecia ser o cirurgião colocava folhas finas e maleáveis de prata em volta de todo seu coração. - Aquele lugar cheirava a remédio. Os gemidos de dor que ecoavam pelos corredores até os ouvidos de Fenrir eram irritantes. Ele, gritava de dor enquanto aquela mulher ruiva segurava sua mão, e ele apagava novamente com outra dose de anestesia.

Ao fim da cirurgia, ainda tonto com os olhos semi-abertos, olhava aquela bela mulher com cabelo ruivo que o olhava de volta com um sorriso, que quase o fazia esquecer da dor que estava sentindo, literalmente em seu coração.

- Ele vai reclamar da dor por um tempo, até o corpo dele, de uma criança de 9 anos, se acostumar a envelhecer mais rápido que o comum para um licano. Mas mesmo tomando os medicamentos certos, ele vai demorar até poder viver como uma criança comum. Se esse procedimento fosse com ele mais novo, tudo bem. Mas já tem 130 anos. Na idade de um lobisomem, ele só fica de maior aos 220. Vai ser um processo doloroso. - O médico avisou ao que parecia ser o fim da cirurgia.

Aquela mulher chegava perto dele com aquele perfume suave e doce que ficava impregnado no seu nariz, e lhe dava um pequeno beijo em seus labios. - Aquele perfume... Poderiam se passar milênios, e ele nunca conseguiria esquecer seu aroma. - Então ele acorda naquele sofá velho, com menos dor do que quando foi atingido pela senhora. Ele se senta no sofá, se acomodando naquelas almofadas velhas mas confortáveis.

- Por que você tinha que atirar em mim? - Fenrir soltou com dificuldade enquanto abria os olhos aos poucos, com a visão embaçada. O brilho da TV parecia estourado e doía em sua vista.

A senhora, que estava sentada na poltrona com um prato de sopa, então se levanta e senta agora no sofá, aumentando o volume da TV.

- Você fica uivando igual um maluco por aí - ela faz uma pausa, para comer uma colher da sopa - vem bater na minha porta igual um noiado por sangue fresco, derruba ela e eu que sou a errada? - A velha senhora resmungava

- Você deu sorte que não era prata. Achei que tivesse perdido o controle. - Você deu muita sorte que não era prata, guri.

- Já faz anos que não fico daquele jeito. Tô tomando meus remédios todas as noites e hoje nem é lua cheia, vovó. - Fenrir rebateu, enquanto lutava para manter os olhos semi-abertos e assistir à televisão. Ele se estica e pega um cigarro que estava na mesa do centro da sala.
- você tem que tomar mais cuidado. - O olhar dela pesava sobre ele.- Você sabe da sua condição. Uma das balas estava presa em uma de suas costelas, queimando o osso por dentro. Um tiro desse em algum órgão da cintura pra cima e você não volta nunca mais - pelo menos não como você mesmo. - Ela se levantou, deixava a sopa na mesa do centro e ia até a cozinha mexer em algumas gavetas.

- Nunca deveria ter feito essa porcaria de prata. Não ganhei nada de bom, - só tive a perder. - Fenrir murmurou enquanto acendia o cigarro e dava uma longa tragada.

- O nome certo é "Coração de Prata" você sabe muito bem, e não seja ingrato. Minha filha pagou caro naquela cirurgia, e eu me lembro muito bem que você concordou com tudo. - A senhora rebateu, voltando pra sala e colocando na mesa em frente ao Fenrir um martelo e uma pequena caixa de pregos.

Ela senta de volta no sofá e volta a tomar a sopa. Fenrir lança um olhar cansado para ela e se levanta com o cigarro nos lábios, ele os pega e vai consertar a porta.

- Valeu por cuidar de mim, vovó. Como é que a senhora tá? - Fenrir perguntava enquanto tentava ajustar porta da vó no lugar.

- Você ter vindo aqui assim foi o meu dia mais normal em meses. Tem semana que minha mente fica tão escura que me esqueço totalmente quem eu já fui. - Senti saudades de você vir me visitar aqui. - A velha admitiu, se levantando do sofá e voltando até a cozinha.

- Vou fazer uma marmita com essa sopa pra você levar. - Ela gritou da cozinha enquanto o Fenrir terminava de consertar a porta.

Ele termina e vai até a cozinha guardar o martelo e os pregos.

- Obrigado, vovó. Aquele livro ensinando o básico que a senhora me deu é muito interessante. Tô curtindo - me trouxe outras perspectivas sobre algumas coisas. - Fenrir concluiu antes de dar um beijo pequeno atrás do pescoço da vovó e abrir a geladeira para pegar uma cerveja.

- Não sei por que o interesse repentino em magia negra. Mas sempre que quiser saber, é melhor vir a mim do que a qualquer bruxa meia boca por aí. - Ei, por que você não tá falando com sua mãe e sua irmã?

- E quem que te disse que eu não falo com elas? - Fenrir questionou encostado na pia da cozinha, atrás da vovó, bebendo a cerveja.

- Ninguém. Sua mãe não fala comigo há três anos e mesmo assim ela manda mensagem pra mim às vezes, perguntando sobre como você está. - A senhora terminou a marmita, se vira e entrega ao neto enquanto toma a cerveja da mão dele. - Ela dá um gole, vai até a sala e se joga no sofá.

- Fale com a sua mãe. Alguma hora você sabe que ela vai acabar aparecendo. E eu espero que voce não esteja tomano aquela porcaria falsa, o filho do vizinho - O filho do ned, daquela familia de vampiro que eu te falei da outra vez - tomava essa merda, chegou uma dia desses em casa, borbulhando sangue pela boca e matou os pais. - Fenrir escutou aquilo sem acreditar, ele conhecia a mãe do garoto e ja haviam tido seus momentos.
"Que parada maluca." - Ele pensou.

O Fenrir passa pela porta e a bate, deixando ela sozinha na casa.

Do lado de fora, Fenrir consegue ver que já está no fim da tarde e que passou uma boa parte do dia lá se recuperando.Ele fez o caminho de volta a pé até a casa de Arthur. Ao abrir a porta, um cheiro podre invadiu suas narinas, e Arthur estava lá, caído no chão. O braço quebrado já havia se regenerado. Com um olhar vazio de alguém que mesmo nesse tempo ainda não conseguiu processar o que aconteceu - um olhar de uma pessoa que parecia ter sido abusada e morta, um olhar triste, completamente diferente do antigo olhar do garoto.

Fenrir pega a chave da sua caminhonete que havia ficado no sofá, olha para o Arthur e se aproxima dele.

- Toma um banho, se veste e depois cola lá em casa. A gente fuma um e bate um game. - Haja normal, como se nada tivesse acontecido. Não fale nada disso pra ninguém. Isso tudo aconteceu por consequências das suas escolhas. Essa é a vida que você merece e vai viver a partir de agora. Então quanto mais cedo você se conformar, mais cedo vai aprender a viver assim. - Fenrir se vira e vai ao quarto do Arthur e pega todo dinheiro que encontra. Quinze mil dólares. Até sobre isso o Arthur havia mentido.

Fenrir então volta à sala, dá um chute no estômago do Arthur antes de sair da casa - Arthur começava a chorar como uma criança novamente - lá no chão, na escuridão com as luzes apagadas. A única iluminação vinha de uma fresta de luz do sol se pondo que entrava por uma pequena janela alta da casa.

Fenrir bate a porta atrás dele e entra na caminhonete. Dirige até uma casa próxima à de Arthur, virando uma rua - a maior casa de Williamsburg. Não era uma mansão, mas pros padrões do lugar, parecia uma. Fenrir desce da caminhonete, entra na casa destrancando a porta, revelando um lugar simples mas arrumado. Toma um banho rápido só pra tirar o sangue, vai até um dos dois quartos e se veste com umas roupas que estavam guardadas lá. - Aquele quarto e as roupas nele so cheiravão a erva dele - Pega um pacote com duzentos e cinquenta gramas de maconha, fecha um baseado rápido, pega o pacote, acende o baseado e sai da casa apagando todas as luzes que passa pelo caminho. Entra na caminhonete, conecta o celular no som, põe um trap e dirige de volta até a casa em Butte.

No caminho, ele para novamente na mercearia do pai da Chloe. Passa pela porta de vidro com o baseado nos lábios, deixando um rastro de fumaça por onde passa. Olha para o caixa e ainda vê Chloe lá, que parece feliz em ver ele novamente. Vai direto para as prateleiras de jogos e pega três lançamentos. Os outros clientes ficam olhando - cidadãos de Butte já acostumados com a presença do garoto, mas ainda assim ele não deixava de chamar atenção mesmo sem querer. Pega quatro pizzas congeladas de sabores diferentes, um whisky e vai até o caixa.

- Quanto dá tudo? - Fenrir jogou sem muito ânimo, com uma feição diferente da que a Chloe tinha visto mais cedo. Um rosto que ela lembrava dos tempos passados com o Fenrir - um rosto que vinha de situações que geralmente eram os motivos dele se afastar das pessoas.

- Dá 319,98. Tá tudo bem? - Chloe perguntou enquanto empacotava as compras do Fenrir, que tirava do bolso quatro notas de cem, sujas de poeira da casa do Arthur.

- Tudo bem sim. Pode ficar com o troco, tá. - Fenrir pegou as compras e saindo antes que a Chloe pudesse responder.

Ele sai da mercearia e entra na caminhonete, - Ele podia sentir o olhar da Chloe pesando sobre ele - aumenta o trap, dá um trago que leva metade do baseado e acelera até a casa. Leva 7 minutos até ele chegar às nove e meia da noite. O sol tinha acabado de se pôr. Ele para na rua atrás da casa, onde alguns amigos que moram na mesma rua estão lá. Naquela rua que é quase um beco - perfeita para o trabalho - estava gerando uma sessão com altos baseados e duas garrafas de whisky. Fenrir deixa as compras no banco da caminhonete e desce somente com a bolsa de maconha e o whisky. Vai até os amigos que comemoram quando ele chega. Fica lá até onze e vinte e cinco da noite. Fenrir estava charradão e um pouco bêbado.

- Eae, cria. Vai colar naquela parada que vai gerar amanhã? - Dylan Crowe jogou com os olhos baixos e vermelhos.

- Tô querendo. Você vai? - Fenrir dava mais um trago no baseado e um gole no copo de whisky com energético.

- Tô querendo também. Se você for, me dá um tombo até lá. Meu carro tá no conserto, mano. Só vou pegar semana que vem. - Dylan devolveu, enquanto dava um trago no baseado que seu irmão passava pra ele.

- Vocês vão naquela parada que vai gerar, é? - Ryan Crowe, irmão do Dylan, atirou. Ryan era só três anos mais velho. Era difícil de escutar o que ele falava, com o som alto e as outras sete pessoas que estavam lá conversando também.

- Demorou, Dylan. Nóis cola lá. Se a mulher do seu irmão tirar ele da coleira, dá pra ele colar lá também com nóis. - Fenrir soltou rindo junto com o Dylan do Ryan.

- Tô querendo dar uma escapada pra colar nessa festa. Uma piveta que eu quero comer vai tá lá. Minha chance. - Ryan emendou dando um gole grande no copo de whisky.

- Demorou então, nóis três cola lá. Acho que o Cody não vai mesmo. Esse zé buceta - depois que começou a namorar com a Lila, ele acha que ninguém sabe. O cara só fica transando e dormindo o dia todo praticamente. - Fenrir largou, terminando o copo e agora só fumando o baseado.

- Ele fica dormindo na vida em vez de vir fazer dinheiro. Que ele vai pegar o dele. Essa nega que ele tá, Lila, é pilantra, mano. A guria tava com um cara lá do outro lado da cidade e passou dois dias tá aqui com seu primo, postando story de casalzinho. Ele não se ligue não. O cara querer vir pegar ele. - Dylan emendou com a voz rouca.

- Deixa ele. O corno quando vem atrás não quer saber de matar a mulher não, quer matar é o cara. - Ryan atirou enquanto pegava o baseado que Fenrir passou pra ele e dava um trago.

- A sorte dele é que nóis é por ele. Se esse comédia quiser vir pegar ele aqui, vai tá vindo direto pra toca dos leão sanguinário. - Dylan matava seu baseado com uma ultima tragada.

- Se liga, Dylan. Tenho um esquema certo pra nóis. Amanhã quando nóis for colar nessa parada, vou passar lá na casa da minha ex, pegar ela e a irmã dela pra ir com nóis. Aí você tá ligado, né? Já tá certo. Você fica com a irmã dela e eu marco meu ponto com a Chloe de novo. - Fenrir traçou enquanto pegava o baseado que o Ryan gerava de volta e dava mais um trago.

- Demorou, era isso que eu queria mesmo! Tinha um esqueminha já certo lá também, mas vou dispensar. Aquela irmã da sua ex é uma guria gostosa pra caralho, mano. Aí vai ser check lá então - cada um com seu esquema certo. Só o pau no cu do Cody que não vai, né? - Dylan emendou dando um trago no baseado que o Fenrir gerou para ele.

- Demorou então. Vou colar lá em casa, mano. Bater um sarro e ir deitar. - Fenrir se despediu e saiu, deixando o whisky e levando a bolsa com maconha que já estava na metade.

Ele vai até a caminhonete, pega as compras e a marmita da vovó, ainda com o baseado nos lábios. Fecha a porta da caminhonete. Antes de entrar pela porta dos fundos da casa:

- Eae! Depois me mande o número da sua cunhada lá, mano. Eu troquei de celular e perdi os contatos antigos todos. Mande lá, esqueça não. - Dylan gritou a alguns passos da casa antes de voltar para os outros.

Fenrir acena com a cabeça e entra em casa, onde o Cody tava na sala com a Lila deitados no sofá.


- Demora do caralho, mano. Tava fazendo as pizzas, foi? E o dinheiro, conseguiu? - Cody cobrou se levantando do sofá, indo até a cozinha apenas de short e mexendo nas bolsas.

- Passei na casa da vovó antes e acabei ficando lá mais tempo do que esperava. - Fenrir largou, com olhos vermelhos e baixos e a voz rouca, enquanto subia as escadas para o quarto.

- É, o meu dinheiro? - Cody gritou enquanto o primo subia as escadas e ele colocava as pizzas no forno.

Fenrir descia a escada com os cinquenta e cinco mil dólares nas mãos quando se viu de frente com o Cody, que já o esperava no último degrau.

O rosto de Fenrir era iluminado pela luz da sala, mas os olhos continuavam afogados na sombra do andar de cima, como se a escuridão tivesse descido com ele. Ele deu alguns passos lentos até o primo, o suficiente para continuar olhando para ele de cima, e entregou o dinheiro encarando o primo nos olhos, que, por mais que tentasse, não fazia a menor ideia de para onde os olhos dele vagavam.

- Tá tudo aí? - ele perguntou, passando pelo primo e indo colocar a marmita da sua vó no micro-ondas.

- Com os juros certinho. Como foi que você conseguiu essa proeza de fazer o Arthur pagar tudo que me deve? Gosto do cara, mas ele tem uns problemas sérios com pagar as dívidas. - Cody questionou antes de subir para guardar o dinheiro e mandar a Lila e olhar as pizzas.

- Acho que aprendi o idioma dos caloteiros, nenhum deles pensa em me enrolar mais. Só troquei uma ideia com ele, passei a visão certo de como o bagulho funciona.

Fenrir volta a atenção para a Lila, que se levanta do sofá vestindo apenas uma calcinha de renda e uma camisa apertada e curta, sem sutiã. Fenrir não consegue nem disfarçar o quanto não está mais acostumado com aquela visão no cotidiano de seu dia. Aquele era o visual da Lila praticamente sempre que estava na casa deles. Cody parecia não ligar para como ela se veste.

Ela olha as duas pizzas, se abaixando e colando algumas mechas do cabelo castanho para trás da orelha. Nesse momento Fenrir tava vendo cada movimento dela como um chamado sensual. Ela tira as duas pizzas do forno, colocando em pratos separados.

- Você vai querer também? - Lila provocou enquanto os olhos do Fenrir navegavam pelas curvas do seu corpo.

- Vai querer pizza também? - Ela insistiu mais uma vez, olhando nos olhos dele, que ela não deixava de perceber que estavam devorando ela.

- Não. Eu vou comer a sopa que minha vó fez pra mim. - Fenrir desviou lentamente enquanto desgrudava os olhos da namorada do primo e ia jogar os Crimson Daily que comprou no lixo. Depois de falar da vovó, lembrou o que ela havia dito sobre eles, e decide escutar. A velha pode ser maluca, mas entende das coisas. Melhor prevenir, pensa ele.

Lila então se inclina, arqueando as costas para olhar a sopa no micro-ondas, enquanto Fenrir passa por ela para jogar os nove Crimson Daily no lixo, encostando nela por um momento. Ela olha para ele de canto e avista o relógio dele no pulso direito, com aquele olhar provocativo, enquanto fica ereta novamente.

- Muito lindo seu relógio. A cor dele combina com sua pele. Você comprou no mesmo lugar que comprou aquele colar para a Chloe? Quanto foi? Deve ter sido muito caro. - Lila pegava uma das pizzas e ficava lá, olhando para o Fenrir enquanto dava uma mordida numa das fatias.

- Não lembro quanto custou o colar dela. Acho que foi alguma coisa entre 10 a 15 mil. O relógio foi quatro milhões e meio. - Fenrir soltou jogando cada um dos nove Crimson Daily, um por um.

Lila, surpresa ao ouvir o valor, volta ao sofá quando escuta Cody descendo as escadas.

- Sorte sua. Nunca consegui aprender o "idioma" desses filhos da puta. - Cody jogou quando desceu as escadas e foi pegar a pizza, até ver o Fenrir jogando os sangues falsos fora.

- Que porra é essa? Tá jogando fora por quê? - Cody questionou antes de se sentar no sofá ao lado da Lila.

- Essas merdas nunca prestaram. Não sei por que eu comprei. Amanhã eu vou caçar e trago alguma coisa. Ou então peço pra minha mãe mandar alguns daqueles caros - de pessoas que se matam ou estão morrendo e vendem ou doam seu sangue - vendem lá em Nova York. - Fenrir explicou antes de tirar a sopa que estava fervendo do micro-ondas. Sem nenhum pano ou prato embaixo, ele pega na tigela funda de porcelana quente que a vovó havia colocado de mão limpa. O que não gera nenhuma reação nele, mas sim na Lila.

- Deve ser bom ser igual a você. Queria não poder sentir dor também. - Ela atirou enquanto comia a pizza e observava Fenrir, que foi sentar na outra ponta do sofá, afastado dela, que estava mais pro meio, e afastado do Cody, que estava na outra ponta, mas mais próximo da Lila.

- Não é bem assim. Prata ainda pode me causar muita dor. - Fenrir rebateu enquanto comia a sopa assistindo ao programa da televisão.

- Mesmo assim ainda deve ser melhor do que se contorcer à imagem de uma cruz e nunca poder entrar em uma igreja, mesmo tendo fé em Deus. - Cody emendou dando uma mordida com suas presas na pizza quente.

- Ainda sim, interessante pensar como teria sido minha vida como uma loba. Tendo aversão a crucifixos ou não, nenhuma igreja jamais permitiu um lobisomem ou um vampiro entrar. Tá, um vampiro não pode mesmo que queira. Mas os lobisomens podem - só não são permitidos.

Fenrir terminava a sopa e dava um arroto, colocando a tigela na mesa à frente e apoiando os pés nela.

- Os caras de L.A colaram aqui mais cedo e você não apareceu. Eles pegaram as paradas. Nóis ficou fumando um aqui e jogando. Ainda esperei você pra participar, mas não atendeu as ligações. Eu resolvi aqui com eles, como sempre. Eles pagaram e caíram fora. - Cody cobrou enquanto terminava a pizza.

- É, foi mal. Fiquei preso lá conversando com a vovó. Não ia fazer muita diferença mesmo. Mas foi mal - era pra eu ter aparecido. - Fenrir tirava a camisa com calor e ficava só de calça com as botas em cima da mesa de centro.

- Acho tão fofo como você fala da sua "vovó". - Lila provocou sorrindo.

Fenrir ignora o comentário e tira de um dos bolsos da calça um pequeno ziplock cheio de maconha e puxa uma seda junto. Bola um baseado que é o tempo dele sentir o cheiro do arthur a uma quadra.

- O Arthur tá chegando na porta. - Fenrir murmurou terminando de passar a goma pra fechar o baseado.

Cody se levanta pra ir abrir a porta e Lila pula do sofá pro lado do Fenrir enquanto ele acende o baseado.

- Me dá um pega, vai. Tô de cara a tarde toda. - Lila sussurrou se aproximando mais do Fenrir, que dá um trago forte.

- Vamo esclarecer uma parada. - Ele parava e aproximava seu rosto do dela. - Não me confunda com meu primo, garota. Te comi só uma vez, matei minha curiosidade e já tô feliz. - Fenrir cochichou no ouvido dela, baixo o suficiente só pra ela ouvir, puxando outro ziplock pequeno cheio de maconha com uma seda pra ela.

Apesar do cheiro forte da "Flor", ela ainda podia sentir o cheiro do sangue seco em alguns fios de cabelo dele, era tentador para ela.

Arthur e Cody aparecem na sala, Fenrir imediatamente se levanta.

- Eae, nóis vai bater um game e o Craig já vai chegar. Vai pro quarto já é? - Cody propôs enquanto se sentava de volta no sofá ao lado da Lila. Arthur ia para onde Fenrir estava sentado.

- Tô cansado. Vou fumar esse e ir deitar. Já tá tarde mesmo. Se for ligar o som coloca um volume baixo. - Fenrir atirou antes de se virar para subir as escadas fumando o baseado.

- Tá fraquinho esse aí. Consegue curtir uma noite virando mais não. - Arthur caçoou rindo com o Cody enquanto o Fenrir subia as escadas e a Lila o observava enquanto bolava o baseado.

A noite estava tranquila em Butte. Craig havia chegado. Uma festa pequena rolava em mais uma das casas de uma das áreas residenciais mais perigosas do estado. - A área era distribuição de armas e drogas da máfia russa que chegava em Portland e ia para Butte, Montana, e vendia para todo o Estados Unidos. Música baixa, o cheiro de maconha forte no ar, garrafas de cerveja espalhadas pela sala e o som de tiros de videogame vindo da TV. Nada demais. Só mais uma noite de "descanso" depois de um longo e difícil dia de trabalho.

No quarto do andar de cima, o cheiro ficava mais forte e a visão de quem se atrevia a subir lá, mais embaçada. Lá estava ele, deitado na cama com o celular na mão, vendo algumas mensagens acumuladas que sua mãe havia mandado:

"Oii, tá sem crédito é? Sua irmã disse que manda mensagem e tenta ligar quase todos os dias, mas você não responde e não atende. Tá tudo bem?"
"Bom dia meu amor, Tá tudo bem, bebê?"
"Vou aí semana que vem com sua irmã. Se precisar de alguma coisa, avisa que eu levo quando for aí. Beijo. Boa noite, meu amor."

Fen começou a digitar uma resposta para a última mensagem da mãe. - Ele para, pensa em algo bonito pra mandar, e apaga tudo que tinha digitado. Apaga a tela do celular e fica um tempo encarando seu reflexo na escuridão da tela, que junto à TV e ao baseado eram as únicas fontes de iluminação do quarto. Com os olhos baixos e vermelhos, um olhar um pouco cansado. Na outra mão, um baseado que parecia mais uma vela entre os dedos.

Fenrir Nechestnyy, 17 anos. As costelas, os braços e as costas ainda doíam e manchavam seus curativos com sangue dourado espesso. Prata - um tiro machuca qualquer um, mas a prata, mesmo retirada, queimava como se ainda estivessem disparando ou desferindo golpes com aquele facão. Cada trago aliviava um pouco. Não resolvia, mas deixava a neblina grossa o suficiente pra ele parar de pensar nisso.

Com o volume da TV no mínimo, ele nem prestava tanta atenção até que uma fala da âncora do plantão de notícias urgentes do jornal local o puxa de volta das profundezas de seus pensamentos:

"Uma operação federal interceptou um comboio vindo de Butte. Quatro veículos de uma conhecida gangue de Los Angeles foram abordados na rodovia. Operação segundo alguns oficiais vinha sendo investigada há alguns meses, visando atingir o tráfico de drogas e armas da máfia russa na região. Das dezoito pessoas que estavam nos carros, nove foram presas e nove morreram em confronto armado, deixando também cinco policiais feridos e dois mortos. Entre os detidos, três estavam em condicional…"

Nesse momento a cabeça de Fenrir ficou em branco.

O baseado parou no meio do caminho até a boca.

Por um instante a mente dele dispara - três presos que estavam em condicional, e outros seis que certamente não iriam querer passar o resto das vidas presos, ou que ela acabasse em uma injeção. As costelas protestaram. Mesmo assim ele se levanta rápido da cama com o baseado nos lábios e começa a pegar algumas roupas do armário e jogar em uma bolsa. No fundo do guarda-roupa ele afasta a madeira do fundo falso que revela uma caixa de munição de bala de prata contra lobisomens e 224 mil dólares, que são jogados direto na bolsa. Veste uma camisa, pega mais três bolsas, sai do quarto - que tinha uma cruz pregada na parte de dentro em cima da porta - e desce as escadas.

Cada passo que ele dava na escada o aproximava mais da sala. Ele conseguia sentir aquele cheiro... o cheiro do suor e de todo tipo dos fluidos de um vampiro no andar de baixo. Mesmo em todos esses anos, ainda era como se jogassem água sanitária direto em seu nariz.

O único que notou os passos pesados de Fen em cada degrau foi Craig, sentado do outro lado da sala com uma tocha quase do mesmo tamanho da ponta que Fen havia deixado acesa no quarto. O primo do Fen, Cody Martin, vinte anos, estava no sofá da sala jogando contra alguns amigos um jogo de FPS - quem morre passa o controle. Estava tão imerso e charradão que custou sua atenção no mundo real.

- Acho impressionante os gráficos desse jogo. - Cody murmurou sem tirar os olhos da TV. - Ainda mais nessa TV de 80 polegadas. Me sinto em uma guerra de verdade.

Pelado, enrolado apenas em um lençol fino, com Lila ao lado enquanto ela bebia um pouco. Arthur estava sentado no chão comendo uma fatia de pizza e tinha acabado de plantar uma mina no jogo. Ele estava jogando contra Cody.

Quando Fen aparece e joga duas bolsas pesadas em cima do primo. Uma acertou o ombro, a outra quase quebrou o nariz. Cody grita de susto:

- EAE, QUE PORRA É ESSA, MOFIU? TÁ DOIDO, É?

Ele gritou assustado pela explosão da mina que tinha acontecido no mesmo momento, levantando pelado segurando uma das bolsas com raiva. Fenrir, que estava com os olhos apertados e vermelhos, com a íris brilhando em âmbar, joga outras duas bolsas abertas que segurava no chão e solta nervoso:

- A CASA CAIU, MOFIU! Os otários que vieram aqui mais cedo pegar as paradas rodaram. Certeza que os viadinhos vão falar da gente.

- Ideia Check? Diga que é mentira, mano. Qual foi? - Cody cobrou já nervoso.

Fen entrega o celular ao Cody com a matéria do jornal na internet.

- Três tavam em condicional. Vai ter acordo, certeza, véi. Nóis tem que meter o pé. - Fenrir avisou enquanto pegava 4 pistolas, vários pacotes de munição, oito quilos de maconha embaladas e 4 quilos de cocaína escondidas nas gavetas da cozinha para guardar nas bolsas. O primo vampiro, por um instante fica mais branco que o normal quando termina de ler toda a matéria do celular.

Vampiro ou não, o sangue ainda gelava quando o inferno batia na porta.

- O dinheiro! A gente precisa de uma pá. A merda do dinheiro tá enterrado no quintal em baixo da piscina vei. - Cody cobrou nervoso, segurando uma das bolsas que foi jogada nele.

- A pá tá lá na garagem. Não sei se vai dar tempo não, mano. Melhor a gente deixar pra depois. - Fenrir respondeu enquanto pegava 7 granadas e jogava sem cuidado nenhum dentro das bolsas.

- Caralho! Cortou minha lombra... Merda, tô escutando algumas sirenes bem baixo, como se estivessem vindo pra cá! Droga, vou lá em cima me vestir. - Cody avisou saindo do "transe".

- Tem algum dinheiro nessas bolsas que te joguei. - Fenrir avisou terminando de arrumar as bolsas.

Cody sai correndo até o quarto para se vestir, enquanto todo mundo na sala não entende nada do que está acontecendo. Fenrir pega uma das pistolas, bota na cintura e vai até a sala:

- Pessoal, vocês vão ter que cair fora. Os homi vão colar aqui e o bagulho vai lombrar. Se veste e...

Fenrir caminhou até a janela, moveu levemente a cortina e viu luzes azuis e vermelhas piscando a algumas quadras de distância, vindo direto para a casa. Desesperado, grita pelo primo e pega duas das bolsas, enquanto todos na sala se vestem.

- Tão viajando, vocês, né, véi? Qual foi? Não tava de boa aqui e agora vocês tão vendo bicho no teto. Era melhor nóis ter ido curtir lá em casa, mano. Lá é mais entocado. - Craig soltou enquanto se vestia e saía correndo com os outros para seus carros pela porta da frente.

- Como se a gente fosse adivinhar, né. - Fenrir gritou enquanto corria para o fundo da casa, indo em direção à caminhonete preta que estava estacionada na rua de trás. - A essa hora não tinha mais ninguem lá, Fenrir estava um pouco mais aliviado. - Ele abre a porta do motorista, joga as duas bolsas no banco de trás, liga o motor e espera o primo. O coração batia forte. A mente passava por mil pensamentos, enquanto tentava aguentar a enxaqueca da prata.

Ele olha pra casa e vê Cody, em sua forma espectral, fumaçenta e preta, vindo rápido em direção ao carro pela janela do quarto dele. Aparece rapidamente do lado de fora do passageiro, vestindo somente uma camisa e uma cueca, com mais duas bolsas que abre a porta e joga no banco de trás.

- Vai! Vai! Acelera, Fen! Tá esperando o quê? Adianta, mano! - Cody pressionou.

Fenrir, que achou que estava alucinando o visual do primo devido à dor de cabeça, engatou a marcha…

E a caminhonete morreu.

- Filho da puta… - Fenrir praguejou, rindo de nervoso, virando a chave de novo.

O motor pegou no segundo giro. Ele acelerou forte. A caminhonete deu um tranco e bateu de frente num carro estacionado a uns oito metros. O impacto foi seco. Fenrir bateu a testa no volante e viu estrelas por um instante. Tenta recuperar a consciência enquanto Cody pega uma pistola e exclama:

- Ó, seu maluco! - Ele gritou de susto, enquanto notava o sangramento embaixo da camisa do Fenrir. - Tá bem, Fen? Adiante, vai! Dá ré pra nóis cair fora logo...

Cody para por um instante para prestar mais atenção e filtrar todos os barulhos que estavam chegando até o ouvido.

- Tá escutando? - Ele parou pra prestar mais atenção no final da rua e nas distâncias dos sons das sirenes. - Acho que eles chegaram na frente da casa.

Fenrir piscou rápido, tentando recuperar o foco. Engatou a ré e pisou fundo. Enquanto isso, Cody vê que duas viaturas da polícia e um blindado Lenco BearCat da DEA apareciam no final da rua que eles estavam, atrás da casa, tentando encurralar exatamente qualquer um que tentasse escapar pelos fundos.

- Se apressa aí! Eles estão vindo, Fen! Sai logo com essa merda, filha da puta! - Cody gritou sem paciência com a aproximação das viaturas.

Fenrir segue em frente na rua, mas não sem chamar a atenção das viaturas e do blindado que estavam se aproximando da casa deles. Eles aceleram e o blindado e uma das duas viaturas aceleram junto com eles. Uma delas para na parte de trás da casa e dois policiais com coletes e bem armados descem.

- Despista eles e vai para Williamsburg! - Cody ordenou antes de se transformar novamente naquela fumaça densa e escura, que sai pela janela como se fosse um redemoinho e vai rápido em direção à viatura que estava mais próxima deles.

Fenrir tenta manter a direção perigosa, aproveitando a chance para tentar despistar os policiais antes que um helicóptero aparecesse e os seguisse até Williamsburg. Cody bate forte na janela do motorista da viatura mais próxima, desestabilizando-a um pouco. Parte de cima do corpo dele se materializa e ele ataca novamente a janela com as duas mãos tentando quebrar o vidro. Mas ao encostar no vidro com a mão aberta, as palmas queimaram.

Mas ele não recuou - pressionou mais forte. O rosto diabólico se distorcendo um pouco e se transformando próximo ao vidro: veias e olhos negros pulsando, pupila vermelha sangue, centenas de dentes que fariam qualquer pescoço parecer frágil.

O policial congelou.

Cody empurrou, fazendo os policiais baterem forte o suficiente em um carro estacionado próximo - o suficiente para o policial que estava no banco do passageiro, sem cinto, voar pelo para-brisas da viatura. Cody volta para dentro da caminhonete do Fenrir, mas ainda tinha o blindado perseguindo eles.

- Filhas da puta! Colocaram cruz nas portas e o vidro é temperado contra vampiros! - Cody cuspiu com aquele olhar assustador e irado, retornando à forma humana, examinando as palmas queimadas com as unhas compridas que mais pareciam navalhas.

- Monta ela e acaba com isso. Já estamos cheios de merda até o pescoço de qualquer jeito. - Fenrir ordenou olhando sério para o Cody, que olhava de volta com um olhar vazio.

- Não. Tenta despistar eles. Fazer isso só vai chamar mais atenção. Tá maluco! - Cody rebateu.

Fenrir agora dirigindo, fazendo curvas perigosas na rua de Butte sem olhar pra estrada, com um olhar sério e vazio para o primo:

- Mais atenção do que já temos? Um peido não é nada pra quem tá cagado. Já consigo escutar um helicóptero se aproximando.

Por um momento, até parecia que os braços do Fenrir estavam pilotando a caminhonete independente do rosto dele, que estava voltado para o Cody a todo momento.

- Monta o RPG e acaba com eles. Não temos mais muito tempo e eles estão na nossa cola. - Ou você pode tentar ir lá tirar o blindado da rua. Mas acho que as portinholas das janelas devem estar abaixadas e o passageiro com certeza deve estar com uma pistola ou talvez uma submetralhadora com balas de prata com cruzes cravadas nas pontas, prontas pra atirar em você. O cheiro do suor dele tá tão forte mesmo nessa velocidade que, com certeza, ele tá nervoso e pronto pra colocar em prática o treinamento. - Fenrir traçou antes de voltar a atenção para a rua e ir para a avenida principal, deixando o Cody tomar sua decisão.

Cody, indeciso e já conseguindo escutar os policiais pedindo reforços pelo rádio a algumas quadras próximas, se vira para o banco de trás e começa a abrir uma das bolsas que trouxe, revelando uma RPG-7. Fenrir olha pelo retrovisor e vê Cody tirando o RPG da bolsa, ele tenta estabilizar um pouco mais a direção.

Cody, um pouco nervoso, se vira pra frente e começa a montar o RPG com um pouco menos de dificuldade. - Ele aponta para fora da janela, e mira exatamente pro blindado. Puxa o ar fundo pelo nariz - que vem junto do medo e desespero dos agentes da DEA ao verem um RPG apontado para eles.

Cody, olhava para as casas que passavam, conseguia escutar todos aqueles corações acelerados das pessoas que viam a perseguição pelas janelas. Batimentos que tinham se intensificado quando o Cody apareceu com o RPG pela janela. Batimentos que ecoavam nas cabeças dos primos junto das rezas por Deus daqueles agentes treinados dentro do blindado.

Cody então dispara e fica olhando o projétil atingir a frente do blindado - como uma flecha atravessando uma folha de papel.

Uma grande explosão toma conta da rua, matando quase instantaneamente o motorista e o passageiro e deixando a frente do blindado em pedaços, janelas proximas quebraram com a explosão.

Ainda com parte do corpo pra fora janela com o RPG na mão, os olhos do Cody e do Fenrir - que olhava pelo retrovisor interno - se enchem com a bola de fogo daquela grande explosão, que pra eles acontece quase em câmera lenta.

Finalmente, a dupla criminosa, sem viaturas nenhuma na cola, podia ir em direção à residência deles em Williamsburg.

Por um momento, antes de voltar para dentro da caminhonete, Cody - com os ventos no cabelo - consegue escutar alguns dos poucos agentes que estavam na parte de trás do blindado e sobreviveram à explosão. Eles estavam queimando vivos com boa parte dos corpos dilacerados. Naquela hora, dentro daquela parte do blindado, parecia o verdadeiro inferno na terra. Um deles ainda conseguia gritar por socorro - mas por pouco tempo.

Eles tinha certeza de que agora eles vão perder a paz por um bom tempo. E que essa explosão vai ser a menor que vão enfrentar a partir desse dia.

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