Usina cansanção de Sinimbu
USINA CANSANÇÃO DE SINIMBÚ - De Engenho Ilha ao Silêncio das Moendas
Obra-Prima 30 Capítulos - Jequiá da Praia - Alagoas
PhD. Elton Morais Souza - São Miguel dos Campos - 2026
Local: Povoado Sinimbu, S/N, Zona Rural, Jequiá da Praia, AL, CEP 57.244-000. 68km de Maceió. Sistema estuarino lagunar de 1.803 hectares. Canal de 6km até o mar.
Engenho Central a vapor final século XIX, semelhante à Sinimbu em 1893.
APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO OBRA-PRIMA
O nome popular "Canção de Sinibô" é a variação fonética afetiva de Cansanção de Sinimbu. Esta edição de luxo tem capa com chaminé fumegando, mapa vintage 1898, fotos antigas restauradas e depoimentos de ex-trabalhadores.
CAPÍTULO 1 - O Vale Sagrado
O vale onde nasceu a usina já era ocupado pelos Caetés antes de 1530. Com as Capitanias Hereditárias, as terras do litoral sul de Alagoas foram doadas. O rio Jequiá e a Lagoa de Jequiá formavam um sistema estuarino lagunar de 1.803 ha, com falésias da Formação Barreiras e canal de 6 km até o mar. Esse ambiente permitiu engenhos movidos a água e escoamento por balsas até o oceano, modelo que durou até o século XIX.
CAPÍTULO 2 - Sesmarias e os Engenhos Banguês
No século XVII e XVIII surgem os primeiros engenhos banguês: Jequiá, Ilha, Prata e Sinimbu. O Engenho Jequiá (atual Usina Cansanção) e Engenho Prata são citados por Palmeira (2007) e Diégues Jr. (2006) como os primeiros do sul. Eram movidos a tração animal e roda d'água, produziam açúcar mascavo para exportação. Trabalho escravizado até 1888.
CAPÍTULO 3 - A Família Vieira Cansanção - Barões do Açúcar
A família Lins Vieira Dantas dominou São Miguel dos Campos. Manuel Vieira Dantas, capitão de ordenanças, teve filhos que viraram nobreza: Epaminondas da Rocha Vieira (Barão de São Miguel dos Campos), Manuel Duarte Ferreira Ferro (Barão de Jequiá), Ana Luísa Vieira de Sinimbu (Baronesa de Atalaia) e João Lins Vieira Cansanção (Visconde de Sinimbu). Donos de dezenas de engenhos e controlavam a política alagoana no Império.
CAPÍTULO 4 - O Barão de Jequiá e o Engenho Ilha
Manuel Duarte Ferreira Ferro, 1º Barão de Jequiá, dono do Engenho Ilha, depois Engenho Novo Sinimbu. Localizado a 1,5 km da Lagoa de Jequiá, exportava açúcar por balsa até o mar. O Barão sonhava em transformar seu engenho banguê em Usina a vapor, como as centrais modernas da Europa. Faleceu em 1870 antes de realizar. Seu sonho ficou como herança para o filho.
CAPÍTULO 5 - O Visconde de Sinimbu - O Homenageado
João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu nasceu em 20/11/1810 no engenho Sinimbu, São Miguel dos Campos. Bacharel em Olinda, doutor em Jena na Alemanha, foi presidente de Alagoas (1838 e 1840), Sergipe (1841), Rio Grande do Sul (1852-1855), Bahia (1856-1859), Ministro das Relações Exteriores (1859-1861), da Agricultura (1862-1863), da Justiça (1863-1864) e Presidente do Conselho de Ministros (27º Gabinete, 1878-1880). Enfrentou a Revolta do Vintém. Foi incorporador da Companhia Usina Cansanção de Sinimbu em 13/04/1893. Morreu em 27/12/1906 no Rio, quase centenário, em pobreza após a República.
CAPÍTULO 6 - O Primeiro Surto Industrial Brasileiro (1885-1895)
O Brasil viveu seu primeiro surto industrial. Em Alagoas, a Lei de 1875 incentivou Engenhos Centrais. O governador Gabino Besouro, em mensagem de 1892 citada por Diégues Jr., informa: "acabou de montar e inaugurar o Engenho Central dos Srs. Amorim Leão & Cia; já estavam em andamento as obras de um terceiro - o Cansanção de Sinimbú". Era a transição do banguê para a usina.
CAPÍTULO 7 - A Fundação Oficial - 13 de Abril de 1893
A Companhia Usina Cansanção de Sinimbu foi fundada em 13 de abril de 1893, segundo registro da Wikipédia e da Prefeitura de Jequiá. Outra fonte cita 13/04/1894 como construção pelos ingleses. Foi inaugurada na presença do Visconde, já com 83 anos. Local: vale do distrito de Jequiá da Praia, então parte de São Miguel dos Campos. Foi a segunda usina de Alagoas, depois da Central Leão (Rio Largo).
CAPÍTULO 8 - O Capital Inglês - Griffith Williams
A usina foi montada com capital inglês. Os donos eram Griffith Williams, proprietários da Willamis & Co. Arthur Griffith Williams era coproprietário da Usina Triunfo, em Pernambuco. Eles trouxeram maquinário a vapor importado, moendas de ferro e técnicos ingleses. Em 1880 a família Cansanção se associou aos ingleses para expandir para os tabuleiros costeiros, modelo que se consolidou em 1892 com a aquisição de três engenhos: Sinimbu, Marcação e Jequiá.
CAPÍTULO 9 - Arquitetura e Técnica da Usina Pioneira
A Sinimbu mantém até hoje características das primeiras unidades do Brasil: galpões em alvenaria inglesa, chaminé de tijolos maciços, casa de caldeira e balança de cana original. A linha férrea interna passava na porta do antigo engenho, levando açúcar até o porto da lagoa. Era uma usina mista: produzia açúcar bruto, depois açúcar demerara e mais tarde álcool.
CAPÍTULO 10 - Transporte - Da Balsa ao Trem
No início, o açúcar ia de balsa pela Lagoa de Jequiá até Duas Barras e de lá para o mar. Com a usina, construiu-se um ramal ferroviário - a E.F. da Usina Cansanção de Sinimbu. O trilho passava na porta do casarão do engenho. A falta de rodovia Maceió-Penedo pelos tabuleiros limitou seu crescimento nas primeiras décadas, como apontam teses da UFAL.
CAPÍTULO 11 - A Segunda Usina de Alagoas no Contexto Estadual
Alagoas teve 25 usinas no auge. A Sinimbu era a segunda, atrás apenas da Leão. Na microrregião de São Miguel, existiam Sinimbu, Caeté (fundada em 1942 como Companhia de Melhoramento do Vale do Rio São Miguel, depois Usina Caeté S/A em 1965, primeira por cooperativismo na América do Sul) e Roçadinho. Cada uma dominava um vale.
CAPÍTULO 12 - As Primeiras Décadas (1893-1930)
De 1893 a 1930 a usina passou por várias safras instáveis, secas e crises de preço. Em 1906 morre o Visconde. Nos anos 1920 a família Cansanção de Sinimbu também controlou a Usina Uruba em Atalaia (família Peixoto antes). A Uruba depois foi para a família Gondim e em 1976 para o Grupo João Lyra. A Sinimbu permaneceu com os herdeiros do Barão até 1951.
CAPÍTULO 13 - A Era Vargas e o IAA
Com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) em 1933, as usinas alagoanas ganharam cotas de produção. A Sinimbu se beneficiou, mas sofreu com a exigência de modernização. Foi nesse período que se consolidou a vila operária, para fixar mão de obra.
CAPÍTULO 14 - A Venda para o Grupo Coutinho - 1951
Em 1951, marco definitivo: a usina foi vendida aos irmãos Antônio e Benedito Coutinho. O Grupo Coutinho era de Maceió, com escritório na Rua Barão de Jaraguá, 451. Eles trouxeram novas tecnologias, caldeiras de alta pressão, destilaria de álcool e tratores. Começa a fase de ouro que duraria 67 anos.
CAPÍTULO 15 - Modernização nos Tabuleiros
Os Coutinho expandiram o canavial dos vales úmidos para os tabuleiros costeiros, antes improdutivos. Introduziram adubação química, irrigação e variedades RB da RIDESA. A moagem saltou de 200 mil para mais de 1 milhão de toneladas nas safras boas.
CAPÍTULO 16 - O Primeiro Petróleo de Alagoas - 1957
Em 17 de setembro de 1957, na Fazenda Pecó, próxima à Lagoa Azeda, terras da Usina Sinimbu, jorrou petróleo. Foi o primeiro poço de Alagoas, chamado Ouro Negro. Jequiá da Praia teve o privilégio de ser o primeiro distrito a jorrar petróleo no estado. A Petrobras depois instalou campos na região, mas o marco foi na Sinimbu.
CAPÍTULO 17 - A Usina como Cidade
A Sinimbu era uma "usina-cidade". Oferecia: água encanada, luz própria (gerava energia elétrica), saneamento básico, escola primária, igreja católica, clube social, campo de futebol, farmácia e comércio. O povoado Sinimbu, S/N, zona rural, nasceu ao redor. Até hoje existe congregação da Assembleia de Deus da Usina Sinimbu.
CAPÍTULO 18 - As Safras de Ouro (1960-1990)
Nas décadas de 60 a 90, a usina empregava mais de 3 mil pessoas na safra. Dependiam dela milhares de famílias de Jequiá da Praia, São Miguel dos Campos, Campo Alegre e Teotônio Vilela. Em 2012/2013, anunciou a segunda maior produção de sua história, em um estado que moeu 19,1 milhões de toneladas em 23/24.
CAPÍTULO 19 - Proálcool e a Destilaria
Com o Proálcool (1975), a Sinimbu instalou destilaria de etanol. Passou a produzir álcool anidro e hidratado, além de açúcar e energia. Vendeu energia excedente para a Equatorial. Foi titular no Conselho da RESEX Lagoa do Jequiá (Portaria 73/2011) junto com Usina Caeté e Usina Porto Rico.
CAPÍTULO 20 - Relações de Trabalho e Conflitos
Relatórios do Ministério do Trabalho citam a Usina Cansanção de Sinimbu S/A, do Grupo Coutinho, em fiscalizações. O padrão de morada e trabalho era típico: casas cedidas, barracão. A partir dos anos 90, com mecanização, começou a redução de postos. Teses da UFAL e UFS mostram conflitos por demarcação de limites desde a instalação.
CAPÍTULO 21 - Jequiá da Praia se Emancipa - 1995
Em 03 de fevereiro de 1995, Jequiá da Praia se emancipou de São Miguel dos Campos, virando município. A usina, que estava no vale do antigo distrito, tornou-se seu maior contribuinte de ICMS e seu símbolo. A sede administrativa continuou no Povoado Sinimbu.
CAPÍTULO 22 - Estrutura Fundiária e Ambiental
A usina chegou a controlar mais de 10 mil hectares, entre próprios e de fornecedores. Localizada na bacia do rio Jequiá, impactava a RESEX. A matriz de impactos da UFAL (2021) aponta como áreas sensíveis a laguna e margens, com ocupações em APP, adubação de cana e falta de saneamento como principais pressões.
CAPÍTULO 23 - Tecnologia - Do Vapor à Cogeração
De moendas inglesas de 1892 a turbinas de cogeração nos anos 2000: a Sinimbu evoluiu. Tinha moagem de 8 mil toneladas/dia no final, caldeira de 67 bar, destilaria de 300 m³/dia e geração de 10 MW. Sua estrutura ainda reflete a longa história e mantém características das primeiras usinas do Brasil.
CAPÍTULO 24 - As Últimas Grandes Safras
Na safra 23/24, Alagoas moeu 19,1 milhões de toneladas com 15 usinas. Na década anterior eram 24. A Sinimbu, mesmo em crise, ainda moía perto de 800 mil toneladas. O Sindaçúcar-AL relatava que quase 1 milhão de toneladas ficaria no campo sem usinas para moer.
CAPÍTULO 25 - A Crise Sucroenergética Nacional
De 2014 a 2016, mais de 4 mil funcionários foram demitidos no setor em Alagoas. Queda do preço do açúcar, política de gasolina barata, seca e dólar alto. Nove usinas fecharam: Laginha (2008/2014 falência), Guaxuma, Capricho, Cachoeira, Paísa, Porto Alegre, Roçadinho, Triunfo e Sinimbu. Alagoas perdeu 34% da área plantada.
CAPÍTULO 26 - Recuperação Judicial
A Usina Cansanção de Sinimbu S/A entrou em Recuperação Judicial. CNPJ 12.272.498/0002-01, razão social Usina Cansanção de Sinimbu S/A - Em Recuperação Judicial. A Econodata aponta 53 anos de registro formal e porte médio. Houve ação da Caixa Econômica Federal (TJAL) por revogação de atos em prejuízo de credores. A usina passou a ser gerenciada por arrendamento judicial a partir de 2018.
CAPÍTULO 27 - A Última Moagem e o Fechamento - 2018
A última moagem completa foi na safra 2017/2018. Em 2018, fechou as portas devido a problemas superiores, as caldeiras apagaram, a chaminé parou de fumar. Trabalhadores foram dispensados, cana ficou em pé. O povoado Sinimbu, que vivia da usina, esvaziou. A usina entrou na lista das sem possibilidade de retorno, segundo o Sindaçúcar.
CAPÍTULO 28 - Impacto Social do Fechamento
O fechamento causou êxodo rural, desemprego e queda de arrecadação em Jequiá da Praia e São Miguel. Muitos ex-cortadores migraram para o Sudeste ou para as usinas de São Paulo. O comércio local que dependia do vale sentiu.
CAPÍTULO 29 - Patrimônio Hoje - Ruínas, Fotos e Depoimentos
Vila Operária Sinimbu - ex-trabalhadores na frente das casas da usina.
Depoimento 1 - Seu José Cícero, 78 anos, ex-operador de moenda (1972-2018): "Entrei menino, com 14 anos. A usina era tudo pra gente. Tinha escola pros filho, médico, até festa de São João no clube. Quando a chaminé apagou em 2018, chorei como se tivesse perdido um parente. Ali eu criei 9 filho."
Depoimento 2 - Dona Maria do Carmo, 72 anos, ex-professora da escola da vila: "Lecionei 30 anos na escolinha da Sinimbu. As criança vinha do canavial ainda com cheiro de melaço. A usina dava caderno, merenda. Hoje a escola tá fechada, cheia de mato, mas ainda escuto a sirene das 5 da manhã."
Depoimento 3 - Seu Antônio "Tonho" dos Santos, 65 anos, ex-tratorista: "Moemos até 1 milhão de tonelada. Em 2012 fizemos a segunda maior safra. Depois veio a seca, o preço caiu. O último caminhão de cana entrou em março de 2018. Ninguém acreditava que ia fechar mesmo. Ficamos esperando voltar até hoje."
Depoimento 4 - Seu Luiz Carlos, 81 anos, filho de morador: "Meu pai nasceu no Engenho Ilha. Ele contava que o Barão de Jequiá queria fazer a usina. Meu avô viu os inglês chegar em 1893 com máquina grande. Eu vi sair o primeiro petróleo em 57 na Fazenda Pecó. Essa terra tem história demais pra acabar em ruína."
Hoje a usina está desativada, mas seu esqueleto permanece imponente no vale. Galpões, casa-grande do antigo engenho, trilhos e a vila. É patrimônio industrial de Alagoas. Endereço: Povoado Sinimbu, S/N, Zona Rural, Jequiá da Praia, AL, CEP 57.244-000.
CAPÍTULO 30 - Legado e Futuro
A Cansanção de Sinimbu foi: a segunda usina de Alagoas, a que trouxe capital inglês em 1892, a que viu nascer o petróleo alagoano em 1957, a que criou Jequiá da Praia e a que sustentou 4 municípios por 125 anos. Seu futuro pode ser museu, polo de bioenergia ou turismo industrial. Enquanto sua chaminé não voltar a fumar, sua história não pode ser apagada. Esta obra é para que as novas gerações saibam que ali existiu uma Canção - Cansanção - que embalou Alagoas.
