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Vítima de uma taturana

Sol e céu prenunciadores de alegria animavam um domingo matinal de março. No entorno da comprida mesa de madeira, amigos reuniam-se para nova e descontraída celebração da vida – programá-la e reprogramá-la -, conforme costumeiramente fizeram em tantos outros finais de semana. Desta feita, planejavam a noite de autógrafo de uma novel escritora revelada aos 79 anos de existência, com quem eles possuem estreito vínculo; falavam do coquetel de lançamento da formidável obra prestes a sair do prelo para aventurar-se no mundo literário; discutiam quais e quantos seriam os convidados para o ensejo, e em como se poderia atrair o público leitor, já que os caminhos do sucesso são, frequentemente, obscuros e antidemocráticos...

Ornava o ambiente o verde das árvores; os pássaros canoros exibiam-se libertos com seus pousos perscrutadores, à cata de alimento, revelando uma natureza em homeostasia.  Nessa aura de paz, não se podia imaginar que o ambiente poderia ofertar semelhante insídia: uma Lonomia oblíqua, ou simplesmente taturana, também, conhecida como lagarta-de-fogo, escolhera uma vítima humana antes de transformar-se em mariposa e atrair-se pela luz (em borboleta, talvez); sequer teve seu habitat invadido ou ameaçado por essa vítima que, indefesa e inerme, compunha o grupo de amigos na discussão de assuntos da mais alta relevância, considerando que “a arte imita a natureza”, como preconizava Aristóteles – ou seria o contrário? -. O que teria incitado a esse ser de tão inofensiva aparência e de destino que simboliza a liberdade, deixar o verde próximo da grama, as árvores frutíferas e ousar-se na aridez do cimento?

Uma lancinante dor invadiu e subtraiu o tino da vítima; esqueceu sua robustez adulta e resgatou sua porção criança num choro copioso e desesperado. Embora tentasse ajudar, o grupo não sabia por onde começar, sobremodo, em virtude de desconhecer o algoz, até descobrir a taturana refestelada embaixo da mesa, o que não demorou. Um acudia com álcool, outro com água açucarada – quem sabe não seria uma crise de nervoso súbita (?); o esposo da vítima, num rasgo de intuição, usou, mais que depressa, compressa de gelo a fim de anestesiar a parte atingida do pé e o dedo mínimo da mão, o que resultou em alívio das atrozes queimações provocadas pelo contato com seus espinhos.  

Superada a dor, brincara a vítima com o incidente. Horas mais tarde, resolveu pesquisar as possíveis conseqüências desse ataque, na internet. Quando verificado que em todos os sites se falava em coagulação sanguínea com potencialidade de óbito, ficou a refletir sobre a fragilidade da sua vida, na sua (in)significância e sentido; em quantos dos seus planos poderiam ser sepultados se acometida por uma fatalidade. Pensara, outrossim: “a vida é frágil, mas de todas as mortes que poderia ter, nessa não haveria nenhum glamour – desdenhou: morrer por causa de uma taturana?!.

 Por fim, enxergou que Deus oportuniza que de cada “taturana” ecloda uma borboleta para exaltar o colorido das primaveras. De muitas espécies, porém, eclode uma “mariposa”. Quanto aos seres humanos, alguns preferem mesmo estacionarem na fase da “taturana”. Em relação às mulheres, ser “borboleta” ou “mariposa” é uma questão de escolha!

 Simone Moura e Mendes

www.simonemouramendes.com

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