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Na moda por empréstimo

Minimamente afeita aos convencionalismos da sociedade burguesa ou, talvez, um tanto economicamente consciente, suas roupas de festa são adquiridas nas compras de oportunidade – promoção, liquidação, queima de estoque nas mudanças de estação, “sale”. Não se imagina pagando vultosas quantias numa peça de roupa facilmente carimbada na memória dos olhares provincianos, normalmente, femininos, o que considera execrável.

Numa sexta-feira dessas, preparava seu estado psicológico para a compra de um vestido que a “fantasiaria” numa festa de 15 anos, onde estaria presente a nata da sociedade alagoana, trajada com os últimos lançamentos. Fazer o quê? Calçaria o mesmo sapato usado no casamento de seu irmão, já divorciado há cerca de 8 anos, combinando-o com a bolsa preta-básica – a de sempre. Pensou alto na sala de trabalho minutos antes do término do expediente: “puxa vida, quando penso que tenho de ir ao shopping para a compra de um danado de um vestido de festa! – “vixe, vixe”! Nada mais me fatiga”. Da mesa do lado, respondera a amiga: “não faça isso! Prove os meus trazidos dos “States” por minha mãe”, pois, dificilmente, alguém notará. Seus olhos brilharam, sua respiração ficou mais fluida, seu bolso comemorou...

Com o marido e a filha mais velha, para servirem-lhe de supedâneo na escolha, fora à casa da amiga e, de lá, só não levara as peças íntimas e a maquiagem. O vestido era um “tomara-que-caia” incrivelmente “fashion”, que a fez prenunciar que estaria entre as mais elegantes do reino – e não exagerara nas expectativas, estava mesmo.

Já na festa, tudo muito deslumbrante, dois beijinhos para cá, aperto de mão para lá, um muito prazer lá e acolá. Após a valsa da debutante, o marido a convidou rumarem aos “braços do morféu”. Desciam as escadas em caracol, pomposamente ornamentadas, quando se depararam com um casal. O marido desse casal lhes era familiar, mas poucos encontros haviam tido com a esposa.  “Olha benzinho, o X tem sociedade comercial com o irmão de fulana, lembra dela?” – É claro que ele lembrava, pois era justo a fulana do vestido e adereços emprestados.

“Não, diga, amor! Quanta coincidênciiiiia!!! Ele sócio do irmão dela e você sua sócia: sócia desse vestido, da bolsa, do colar, do... rsrsrs. Faltou chão à esposa, que horrorizada, mas já de ego despido de qualquer vaidade, senão de muita ira, assumiu a verdade da alusão do marido. Olhou para ele, chispando, notadamente encolerizada, e disse-lhe: “não, não acredito que você seja capaz de fazer isso comigo!!!”. “ Bobagem, amor, que mal há nisso?” – não era sarcasmo, mas seu estado natural. O amigo X, então, interveio. Segurou na bolsa de sua esposa e, gentilmente, pretendera minimizar-lhe o golpe: “liga, não, criatura! Na verdade, a bolsa dela é emprestada da mãe...

Simone Moura e Mendes

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ESCRITO POR Simone Moura e Mendes 288 K leituras
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