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Inédito Canção Velha

Abstraída dos circunstantes, Marísia circulava nos corredores de um supermercado, em pleno feriado comemorativo da Proclamação da República, à procura dos víveres para a provisão de seu lar, quando fora tomada de assalto pela observação de uma simpática senhora de cabelos inteiramente grisalhos, que não susteve seu enlevo solitário e comentou: “como hoje em dia só há músicas para exposição de seios e bundas, o jeito é mesmo resgatar as canções de outrora”. Tocava, então, a inefável composição de Lupícinio Rodrigues: “Você sabe o que é ter um amor meu senhor...”, na voz de um intérprete contemporâneo.

Marísia fez um gesto de assentimento e, inapelavelmente, imergira em reminiscências.  Evocou a lembrança do transporte de seus filhos pequenos à escola, quando o toca-fitas do carro era somente alimentado com Música Popular Brasileira. Até que eles adolescessem, seria possível vê-los cantando “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante...”, “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...”, “Como fosse um par/que nessa valsa triste/se desenvolvesse/ao som dos bandolins...”.  Essas produções remetem a alma ao sentimento de comunhão do artista com Deus, meus filhos, e vocês vão testemunhar a imortalidade dessas canções na voz de incontáveis intérpretes ao longo de suas vidas – exortava aquela mãe idealista, prenhe de poesia e brasilidade.

Inebriava-se ante o poder de mantê-los um pouco mais protegidos de “vai descendo na boquinha da garrafa...”. Esmerava-se em estimular nos filhos o apuro pela boa música: a música que sensibiliza; que suscita reflexões, emoções; que diga dos encantos da natureza; que denuncia um fato social; que conte uma história de amor, ou de desilusão - que seja; que fale no Filho de Deus (“Um certo dia um Homem esteve aqui..”). Não pretendia que seus inocentes rebentos tão cedo constatassem a mediocridade hodierna advinda da deturpada interpretação de que a poesia perdera expressão para  nádegas despudoramente expostas, num mundo onde a mulher ainda se permite ser tratada como objeto de consumo.

Ocorre de o bom senso ser tragado pela areia movediça da adolescência, com seus arroubos contestadores, com o apreço pela mesmice, pelos desejos massificados e jungidos ao apelo aliciante da mídia. A necessidade de pertencimento a um grupo suprime a referência dos pais, que, por algum tempo, são rotulados como retrógrados, reacionários, nostálgicos sentimentalóides. Acaso interviesssem com sugestão de música para uma festa, inexoravelmente, seu filho adolescente irromperia com o argumento de que numa balada badala-se ao som de “Ela sai de saia/ e de bicicletinha/uma mão vai no guindom...” , e não com “Não adianta nem tentar/me esquecer...”. 

Lembrara-se Marísia, inclusive, do dia em que conversava com a sobrinha adolescente que, estarrecida e decepcionada, perguntara: “Tia! Você nunca ouviu falar em Justin Bieber? Nunca ouviu a música ‘Baby, baby, baby oooh/Like baby, baby, baby noo...’? Em que mundo vive, afinal? Que trágico, meu irmão!” - completara. Pois é, trágico mesmo! Pensara Marísia que, ainda, ressuscita convertida em emoção, Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha, Vinícius de Morais, Ivan Lins, Chico Buarque, Renato Teixeira, Oswaldo Montenegro, Gonzaguinha, e tantos outros de cujas poesias transporão incontáveis gerações.

Marísia retorna dos devaneios, e conclui meramente para si, considerando que a senhora grisalha, sem respaldo para prosseguir com seu desabafo, já havia dobrado o corredor dos cereais: aquela senhora tem razão!  O interessante é que quando, por falta de opção, a mídia oportuniza o resgate de antigas composições poéticas na interpretação de intérpretes contemporâneos, o que era démodé passa a ser abraçado pela juventude como se fora ineditismo. Na verdade, a poesia jamais caíra nem cairá de moda, apesar das forças deletérias do mercado da contracultura.

Simone Moura e Mendes

(Publicada em O Jornal, edição de 14/04/2012)

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