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A CAÇA (Lubricidade)

                     O gingado provocante da “perua” que desfila insistentemente pelos corredores   busca  e  rebusca  os  olhares  masculinos,  femininos e às vezes lésbicos.

Olhares de tara, olhares de inveja, olhares de sonhos e de desejos. A “perua” da qual falo não é a mesma “perua” descrita no Aurélio, pois essa não tem nada de cafona, também não é a fêmea do peru e nem tampouco tipo de caminhonete.

                     Lentos e sincronizados passos fazem com que suas rígidas e bem desenhadas nádegas movimentem-se numa vicissitude sensual.

                   -Olá. Boa noite! -Assim aproxima-se intencionalmente o dono de uma voz forte e rouca. Calada, como estava, ela permanece. Sequer um “oi”. Sentado em um dos bancos frios do corredor principal agora encontra-se aquele inebriante corpo feminino.

                   -Posso sentar-me ao teu lado? -Insiste o galanteador ansioso. Sem resposta. Mas, de imediato ele senta-se. Permanecem calados por alguns minutos, quando novamente ele libera sua voz mecânica e rouca.

                   -Sabias que tens lindos olhos? -Ela desvia o olhar à esquerda, lado oposto, e sacode seus cabelos com uma das mãos.

                   -Sabias que te observo há tempos? -Com um bocejar de desprezo agora ela desvia os olhos ao teto amarelado e sujo.

                   Levanta-se aquele escultural corpo sustentado por torneadas belas pernas. Mais um sacudir de cabelos. Silenciosa, parte pelos corredores a exibir aquelas divinas curvas.

                   -Um “tchau”, ao menos um olá, hein? -Insiste o teimoso garanhão de voz áspera e cavernosa. Mas, ela se vai. Sem pronunciar sequer uma sílaba ela o deixa ali sozinho.

                   Dia seguinte. Próxima noite.

                   Parecia mais provocante o desfile pelos corredores. Aquela “perua” (digo “perua” por não querer criar qualquer nome simplesmente) novamente magnetizava os olhares de cobiça, os olhares desejosos, os olhares de inveja. Senta-se no mesmo banco.

                   -Olá. Boa noite! Tudo bem? -E a mudez já irritante (meu ponto de vista) persistia.

                   -Lembras de mim? -Não mais pediu permissão para sentar-se. Não mais perguntou se poderia sentar-se. Simplesmente e de imediato senta-se.

                   -Sabias que tens lábios “apetitosos”? -Desta vez ele fora mais direto e talvez até mais libidinoso devido aquele olhar penetrante e aquela voz forte, rouca e agora mais pausada.

                   -Tu sabes que te observo há tempos! -Não mais indagou. Desta vez afirmou. Porém, se ele mudara, ela permanecera a mesma, calada, fria, uma “geladeira”. Ele cala-se.

                   Aproxima-se dos dois um outro corpo não menos belo, outros olhos, outros lábios não menos excitantes. Aproxima-se e pára em frente. Uma beldade! Deveria ser as figuras femininas mais enlouquecedoras que aquele rapaz havia observado.

                   Ligeiramente um toque de mãos entre elas. E ele observando. Um beijo labial ou de língua. E ele observando. Levanta-se a “perua”, coloca o braço sobre o ombro da outra e as duas vão se afastando.

                   -Um “tchau”, um “adeus” ou o teu nome pelo menos, hein? -Apela inconformado o rapaz.

                   Ela olha para trás, olha nos olhos dele, e com uma voz muito mais forte, muito mais mecânica, muito mais rouca, muito mais áspera e cavernosa que a dele diz:

                   -Carlão.

 

                                                                           (Majal-San) 

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