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O MENTIROSO E O FUNERAL DE SUA MÃE

Claudomiro Herculano ou Miro Cascata, como é conhecido, é um humilde trabalhador brasileiro, igual a muitos outros esforçados trabalhadores de nosso país, que trabalham muito e ganham pouco. Bom, igual aos outros trabalhadores é força de expressão, pois Miro Cascata, agente de limpeza da indústria onde trabalha há mais de quinze anos, é detentor de uma peculiar característica que lhe torna singular; sim, o sujeito mente que é uma beleza e mente por puro prazer. São mentiras de todos os tipos, desde o cano da espingarda que serviu de maternidade para uma gata prenhe, abrigando vinte gatinhos, ao aspirador de pó que engoliu seu sobrinho Josué, de dez anos, que só teria sido resgatado dois dias depois.

Todos os dias há uma mentira nova e quando a pérola não sai espontaneamente, seus colegas de trabalho o provocam: - E aí, Miro, qual a de hoje? E lá vem a cabeluda. Semana passada, por exemplo, Miro Cascata jurou, de pés juntos, que seu passarinho fora embora, com gaiola e tudo e, antes mesma da reação da turma, completou:  e ainda levou meu gatinho de estimação.

Ontem, todavia, Miro estava diferente dos outros dias; parecia triste e ao ser indagado pelos colegas qual era a mentira do dia, levantou a cabeça e não segurou as lágrimas que lhe rolavam pela face, acentuando a tristeza do pobre operário, que, em tom de desalento, balbuciou: - Hoje não, por favor. Minha mãe morreu e pra completar a desgraça, nem dinheiro pro enterro eu tenho. Seus colegas, inclusive o chefe da seção, não contiveram a emoção e, solidários, choraram juntos, além de doar-lhe os custos do funeral.

Hoje, dia do cortejo fúnebre, o chefe da seção decretou feriado no setor, dirigindo-se todos para a casa de Miro, de onde partirão para o cemitério. Bateram à porta e ouviram a voz de Miro: - Podem entrar. Ao invés do caixão e da defunta os colegas de Miro se depararam com uma sorridente septuagenária, mãe de Miro, que estava vivinha da silva, completando nova primavera, junto a uma mesa velha, que guardava pomposa um bolo enconfeitado, alguns salgados, uma garrafa de pinga e meia dúzia de cerveja, tudo comprado com a doação dos colegas para o funeral de sua mãe. Antes de qualquer reação, Miro disparou: - Vocês pediram uma mentira e eu contei. E arrematou, já com um copo de cerveja na mão: - Como é, vão ou não vão cantar os parabéns da minha velha?


(Sander Dantas Cavalcante)

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