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Meia idade

Meia-idade

 
Entardeço acumulando primaveras e flores, 
com a modéstia senhoril de uma jardineira,
que entendeu das cíclicas estações os enredos:
como o encharcar de begônias o excesso de zelo, 
como ver na brincadeira dos ponteiros 
do relógio, os números do tempo sobre os jardins. 

Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia
Maria Emília que engelha murchando como um maracujá, 
quer despejar em minha casa as novidades da rua 
e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames. 

Queria fazer bolhas de sabão, 
com as artérias do mamoeiro acolá, 
para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas. 

À narrativa do instante perturbo o que fui em menina.

Movo, com o dedo indicador,
pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz, 
e entram em diagonal pelas fendas da porta. 
Para me espelhar como gente grande na sala de jantar, 
Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra,

 e  me meto, impreterível, 
no rumo de pequenas formigas, 
que descem em fila indiana pelo pé da mesa. 

Eu quero me sentir é como Deus se sente.
ESCRITO POR Goretti Brandão 32 K leituras
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