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Reminiscência (Uma Imagem no Fim da Tarde)

     Passeando naquele início de noite, entre as galerias, Amor exibia seus dotes másculos e as máculas deixadas pelo tempo. Em ligeiros olhares disfarçados procurava um olhar recentemente provocador. Um olhar indagador sob a candura notável de uma face até aquele momento desconhecida. Ele disfarçava também o acelerar repentino daquele órgão que bombeava seu fluido rubro. Disfarçava também o eriçar da sua penugem que parecia querer expelir-se dos poros. Ainda descrevendo o seu tremor ou o seu temor, a que, por que, não se sabe – ainda – ele também tentava disfarçar – sem sucesso – o calafrio que o invadia. Passeando, não. Agora não mais passeando, parecia que rompia barreiras, que cavava trincheiras. Amor parecia caçar sua presa, mas, dissimulado.

     Pára em frente a uma obra esplêndida suspensa na cama creme – tantos quadros ali expostos. Salão imenso, imenso na tradução mais enfática de imensidão. Eram imensas camas, quatro altíssimas camas que formavam aquele salão onde se expunham suntuosas obras. Seus olhos ainda perdidos no público procuravam outros olhos não tão perdidos, e ao público seu olhar é lançado.

     Depara-se com um ser de inigualável beleza. Talvez ele saiba o que é e o que não é belo. Focaliza um ser possuidor de bondade explícita. Talvez ele saiba o que é e o que não é mau. Esbarra com um ser possuidor de atos lícitos, aparentemente. Talvez ele saiba o que é e o que não é corrupto. Olham-se de súbito.

     Um rápido cumprimento, olhos nos olhos novamente, mão na mão. Uma alavancagem e ela estava nos seus másculos braços. Um outro puxão e corpo no corpo, ou, corpo a corpo. Para Amor, uma nova paixão. Bruscamente, porém não inesperadamente, ela gruda-se em seus punhos sem dizer o nome, e sem ouvir perguntas sobre identidade puxa o seu corpo contra o dela, joga o seu corpo contra uma das camas, uma das quatro camas de cor creme, e gemem. O público para eles era invisível. Eles para o público eram invisíveis. Só os quadros ali, suspensos nas camas altas de cor creme, tremem. E eles imitando os quadros, as camas cremes, também tremem. E de repente Amor se vê cercado, ele está alvo, ele é o fito de fato. Sem mais querer dizer o nome, ela enfia a lâmina do seu olhar nos olhos de Amor. E os seus punhais afiados, ela introduz no peito de Amor que é cravado agora em uma das camas cremes, e ele geme. Não se sabe se de prazer ou de dor, mas, ele geme.

     A visibilidade retorna. À visibilidade Amor retorna, agora ele é mais uma obra surrealista exposta em uma cama creme de um salão imenso, numa galeria distante.

 

ESCRITO POR Majal-San 330 K leituras
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