A Barca
Eram dias ensolarados, eram noites enluaradas. O barulho das ondas do mar seguia-se como um canto permanente e contagiante. O azul do céu era a cor mais presente naquele episódio diurno. A barca seguia ora tranquila, ora agitada, dependendo da força dos ventos e do sopro das ondas daquele mar tão infinito.
Ali, naquela barca conduzida por um marinheiro cuja vida era habitá-la, estavam seus pertences materiais, como potes de água doce, redes de pesca, lanternas para acender nas noites, colchões e cobertores, dentre outros pertences. E ainda estavam sua mulher e dois pequeninos bebês. Dali se pescavam peixes para alimento, que saciavam a fome daquela singela família. O marinheiro conduzia a barca com intenso cuidado, apoderando-se da fé e da esperança, pois ali conduzia sua vida e um grande tesouro: a família. O amor e o zelo pela mulher e pelos pequeninos eram o motivo de tão nobre cuidado.
À espera da terra firme, de uma pátria, necessitava de calma, muita calma, visto que o mar se mostrava infinito, e a barca era seu lar, seu aconchego, até mesmo seu próprio porto, até que um dia chegasse ao lar prometido. Quando os ventos sopravam forte e o mar se agitava, o cuidado, o capricho na condução das velas para o equilíbrio da barca em alto-mar e a fé na segurança garantida eram seus meios de superar momentos de tensão e de perigo.
E, quando a chuva vinha tranquila, era motivo de contemplação, de paz e de serenidade. As orações daquela bela família soavam como um hino de glória e agradecimento. Quando a chuva era forte, com intensa ventania, raios e trovões, as orações daquela família eram de apelo e salvação. Mas a fé e a esperança em chegar à terra firme e ao lar prometido estavam presentes no coração de cada um naquela barca.
Todas as noites, as estrelas serviam de belas luminárias a céu aberto para embelezarem o cenário noturno que os envolvia, e a lua sempre servia de luz e companhia. Não importava em que fase se manifestasse: estava sempre lá, refletida nas águas marinhas, fazendo um festival de luzes junto às estrelas. Era o que mais comovia e acalmava, nas longas noites naquela barca, a emoção e o encanto dos pequenos bebês.
Quando o dia amanhecia, enquanto ainda todos dormiam, o generoso marinheiro estava sempre a conduzir a barca, pois era a sua missão. Sendo assim, podia contar, nas horas mais precisas, com uma força especial: a de sua mulher que, mesmo voltada para as crianças, sabia contribuir com os afazeres necessários que o curso daquela barca exigia. A cumplicidade, a compreensão e a partilha faziam parte da rotina.
Como já era claro o dia, o mar estava agitado e os ventos, fortes. O céu azul e as nuvens brancas agora embelezavam o cenário que os envolvia. De hora em hora, outros pássaros, muitos pássaros, sobrevoavam a barca, até mesmo cantarolando por sobre ela, motivo de riso dos bebês e de encanto da senhora, mulher que na barca habitava. Tudo que era motivo de emoção e alegria da senhora e dos ilustres bebês também o era para o bom marinheiro.
Durante todo aquele percurso, à espera da terra firme e do lar prometido, o pensamento em Deus estava presente. Como livro predileto, a senhora do marinheiro levava consigo uma Bíblia para ler e meditar junto com os seus. Depois, um cântico de louvor era entoado como prova de gratidão e agradecimento.
E, durante o longo trajeto na barca sobre o mar, quando os peixes, alimentos daquela sagrada família, já estavam para acabar, era hora de o marinheiro jogar as redes ao mar e, dali trazer novos peixes para a família se alimentar. A insistência era sua marca: jogava as redes em águas cada vez mais profundas até pescar muitos, muitos peixes. Com esse feito, a alegria do marinheiro e da sua mulher era grande. Ele sabia que, com peixes suficientes, além de outros mantimentos que levava consigo, poderia ter a tranquilidade de viajar em sua barca mar adiante, até aquele lar que projetara alcançar, o seu destino.
E avançava mais e mais, como quem queria atravessar um mar sem fim e chegar à outra margem, uma outra margem que nunca alcançara. Mesmo diante das tempestades, que faziam medo, preferia deixar a família repousar quando se encontrava em sono profundo, no convencimento de que a barca era o seu próprio porto, o seu próprio lar.
Após longos dias na barca, navegando em alto-mar por dias e noites, mesmo com sol ou chuvas, enfrentando as tempestades e ventanias, a fúria das ondas e toda sorte de desafios, sempre soubera manifestar atitude, força, fé e perseverança.
Foi então que, já de longe, muito longe, avistara o solo, aquela terra firme, o lar prometido. A alegria divina tomou conta dos corações dos entes daquela tão sagrada e amável família. Muitos amigos e parentes já os esperavam no porto para o desembarque, admirados pela heroicidade do marinheiro.
Enquanto isso, o marinheiro e sua senhora, com as crianças, já começavam a recolher da barca todos os seus pertences e preparavam-se para compartilhar com seus amigos e parentes as experiências de fé, resistência, esperança e amor. Recolhiam também inúmeros peixes do mar que ainda havia na barca para repartirem com os seus.
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