O CADERNO ENCANTADO
Meu pai enquanto viveu
Namorou com a poesia.
Toda vez que ele a via
A face dela beijava.
Namoraram por um tempo,
Acabaram se casando
E um filho de vez em quando
A poesia lhe dava.
Quando eu fiz oito anos
Meu pai foi até o mar
Com a morte duelar
Num dia que o sol sorria.
Na despedida me deu
Enquanto eu triste chorava,
Um caderno que guardava
Poemas que escrevia.
Meu pai perdeu o duelo,
Nunca mais o avistei.
O seu caderno guardei
Como se fosse um presente.
Um dia abri o caderno
Li umas palavras dele
E vi meu pai sair dele,
Sorrindo todo contente.
Quando eu lia o caderno
Meu pai falava comigo.
Eu temia o perigo,
Virava um ser encantado.
Um dia deu uma enchente
No início do inverno
E o precioso caderno
Pelas águas foi levado.
As folhas então, saíram
descendo naquela enchente.
Do alto eu vi somente
As rimas sendo levadas.
Com elas meu pai se foi,
Nunca mais pude lhe ver,
Nunca mais eu pude ler,
Palavras tão encantadas.
Comprei um novo caderno
Para tentar escrever
As palavras de poder
Que o meu pai escrevia.
A tinta toca o papel
Mas a palavra não sai.
Não aprendi com meu pai
Como se faz poesia.
(Santana do Mundaú-AL / 20 de junho de 2016)
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