Mulher pelada.
Acabo de voltar da rua e parei aqui para relatar um fato inusitado de que fui vítima. Saí para ir à farmácia, aproveitei para caminhar e desarticular as juntas do corpo. Deixei o carro em lugar apropriado, ainda distante do meu destino, e fui tranquilamente pelo pavimento onde a maioria das lojas estava de portas arriadas, com uma ou outra aberta no atendimento aos clientes. Eram por volta de sete horas da noite e a iluminação fraca da rua não ajudava muito naquele trecho que eu percorria.
Eu andava distraído verificando detalhes nos carros estacionados à minha direita, rente ao meio fio, vários, um atrás do outro, quando, de repente, aprumei o olhar e avistei um grupo de pessoas vindo em minha direção. Simultaneamente, reparei numa mulher em pé, com turbante na cabeça e o rosto virado na direção oposta. Ela estava mais perto, na calçada, de frente para a rua sob a meia-luz do lado esquerdo, completamente nua e bem descontraída, com o dorso das mãos apoiados na cintura.
Aquela despudorada me surpreendeu com sua má conduta. Não me lembro de ter piscado os olhos para limpar a vista, mas asseguro que levei um susto. Pressenti que havia uma senhora ao meu lado, observando-me passar, então diminui o ritmo da caminhada e lhe falei em tom de denúncia: - Dona, veja ali uma mulher sem roupa. E ainda faz pose!
Como a pessoa a quem me dirigi não esboçou reação, nem falou nada, sequer um "oi" de cumprimento, fiquei confuso, interrompi o passo e fitei seus olhos azuis. Minhas pernas tremeram rápido e por pouco não caí sentado ao perceber que se tratava de um manequim. Naquele lugar, todos eram manequins. Não parece coisa de doido?!
Neste ponto, eu já estava próximo da drogaria e caminhava em frente a uma loja de roupas com alguns bonecos em tamanho natural. O proprietário usa a estratégia de colocá-los feito sentinelas de um lado e outro, logo na entrada. Já os funcionários capricham de tal maneira nos trajes e na aparência de cada um que, no final, eles ficam com aspecto de gente comum, impossível ignorá-los ao passar diante do estabelecimento.
De volta da farmácia venho eu, sem nenhuma pressa, trazendo os medicamentos dentro de uma sacola de plástico; ao contornar a esquina, imediatamente notei, por causa da luz acesa, que o comércio de roupas era o único negócio ainda em funcionamento naquele trecho da via. Na frente, do lado de fora, duas mulheres conversavam naturalmente.
Aproximei-me delas e falei o seguinte: - Desculpe interromper o bate-papo de vocês, alguma das senhoras é a dona dessa loja?
- Sim, sou eu. Respondeu a que estava de mãos livres e de costas para o estabelecimento.
- A senhora acredita que eu levei um baita susto agora há pouco ao passar por aqui?
Ela me fitou o rosto fazendo cara de desentendida, por esse motivo decidi explicar tim-tim por tim-tim: - Eu vinha de lá para cá e, ao me achegar aqui da sua loja, fui surpreendido por aquela sem-vergonha às suas costas. Apontei para a mulher; a proprietária teve que volver o corpo para conferir. Deliberadamente, chamei a atenção da dona da loja para a condição da moça: - Repare na atitude escandalosa dela, inteiramente despida, a não ser por um sutiã ou algo parecido, e com modos de abusada, toda depilada e ainda fazendo pose.
- Mas aquilo é um manequim! ela exclamou e, incrédula, inquiriu com um sorriso tímido: - É sério mesmo, o que o senhor nos conta?
- Quer dizer que a senhora não acredita?! perguntei, completamente estarrecido e de olhos arregalados. E, sem esperar por resposta, adiantei o assunto: "Enquanto caminhava de passagem, entretido com os automóveis no meio-fio, eu não a vi; todavia, senti a sua presença. Ela estava atenta ao 'vai e vem' dos pedestres e me viu passar. Refiro-me à loira rechonchuda à esquerda". Apontei para esta, também, o que obrigou a empresária a se virar novamente. "Foi para ela", disse eu, ansioso e indicando com o dedo em riste, "que denunciei aquela depravada pelada no meio da rua".
A dupla ria bastante em consequência das minhas revelações. Eu, preocupado, só pensava em elas soltarem gargalhadas e chamarem a atenção por nada. Apesar do riso empolgado, a dona da loja conseguiu balbuciar o seguinte: "Isto ocorreu de fato ou o senhor está de brincadeira?"
- Brincadeira! Mas, minha senhora, eu só percebi que havia algo errado devido ao desprezo da gordinha, que ficou calada sem me responder, essa malcriada.
Ter exposto este detalhe, só piorou a situação. Assim que denunciei os modos mal-educados da obesa, as duas não suportaram a vontade e soltaram uma risada forte, desaforada, parecendo que estavam combinadas. Agoniado com o ceticismo das duas, tive ânsia de fugir daquela situação o quanto antes, pois já começava a suar frio. Esperei um instante mais até que se recuperassem para me ouvir e completei o que ainda restava da história, disse: - Admirado por ela não querer falar comigo, parei para tomar satisfação, óbvio, e até para saber o porquê daquela indiferença tão maldosa. De propósito, mirei a cara dela bem de perto, pronto para dizer alguma coisa, e foi só então que descobri que seus olhos azuis não eram de verdade: foram desenhados e pintados. A senhora consegue imaginar o tamanho do meu espanto? NÃO!!!
Sob intenso ataque de riso, com o corpo dobrado e as mãos entre as pernas, a dona não conseguiu expressar uma única palavra; mal balançou a cabeça negando os fatos. Ao ver este seu gesto, eu não aguentei, pois esta sua última objeção foi muito além dos meus limites.
- Caraca!!! De doer, né não! Extravasei, sim, precisava. Minha frustração já era insuportável. Nessa hora, eu não pensava em outra coisa a não ser em sumir dalí.
Eu estava sério, desapontado, os braços cruzados, indignado mesmo, e não sei o que elas viam em mim; simplesmente olhavam para o meu rosto e desandavam a rir. Só depois de superar a crise e retomar sua postura, a comerciante foi capaz de declarar o seguinte: "Perdão! Já ouvi várias pessoas dizerem ter confundido meus bonecos com gente de verdade, mas agora, conversar com eles, o senhor é o primeiro".
Sem alternativa, dei de ombros e acenei com a mão, como quem diz "deixa isso pra lá". Então falei: "Valeu!" Virei as costas e saí para vir embora. Desconfio que elas continuaram sorrindo, mas não garanto, por ter decidido não olhar para trás.
Foi este o fato. Grato pela sua companhia, leitor.
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