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OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR.

RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR TESTIMONIALS PANDEMIC COVID-19: THE IMPACTS OF THE PANDEMIC UNDER THE VIEW OF PROFESSIONALS OF A HOSPITAL INSTITUTION TESTIMONIOS DE PANDEMIAS COVID-19: LOS IMPACTOS DE LA PANDEMIA BAJO LOS OJOS DE LOS PROFESIONALES DE UNA INSTITUCIÓN HOSPITALARIA Glycia Cibelle Borges Leandro1 e3101984 https://doi.org/10.47820/recima21.v3i10.1984 PUBLICADO: 10/2022 RESUMO O relato mostra o dia a dia de profissionais de várias áreas de atuação de uma instituição hospitalar que vivenciaram os mais diversos momentos durante a pandemia da COVID-19, e o ápice de casos em todo o mundo, onde hospitais ficaram lotados e profissionais sobrecarregados devido à grande demanda de pacientes que não paravam de chegar, acometidos pela doença. Várias intercorrências, intubações, óbitos e sequelas psicológicas e emocionais deixadas em grande parte nestes profissionais, mas também muitas extubaçãos, altas, vitórias contra a patologia até então desconhecida, a volta de pacientes para seus lares e familiares e a reflexão que todos adquiriram acerca do valor até dos momentos mais simples e, principalmente, do valor da vida. PALAVRAS-CHAVE: Covid-19. Profissional da saúde. Ansiedade. Adoecimento no trabalho. Sobrecarga. SUMMARY The article shows reports of professionals from several areas of work in a hospital institution that experienced the most diverse moments during the pandemic of COVID-19 and the peak of cases worldwide, where hospitals were crowded and professionals overloaded due to the great demand of patients that kept arriving, affected by the disease. Several complications, intubations, deaths, and psychological and emotional after-effects were largely left in these professionals, but also many extubations, discharges, victories against the previously unknown pathology, the return of patients to their homes and families, and the reflection that everyone gained about the value of even the simplest moments, and especially the value of life. KEYWORDS: Covid-19. Health professional. Anxiety. Illness at work. Overload. RESUMEN El artículo muestra reportes de profesionales de diversas áreas de actividad de una institución hospitalaria que vivieron los más diversos momentos durante la pandemia de Covid-19 y la cúspide de casos a nivel mundial, donde los hospitales estaban abarrotados y los profesionales sobrecargados debido a la gran demanda de pacientes que no dejaban de llegar afectados por la enfermedad. Diversas complicaciones, intubaciones, muertes y secuelas psicológicas y emocionales dejaron en la mayoría de estos profesionales, pero también muchas extubaciones, altas, victorias contra la patología antes desconocida, el regreso de los pacientes a sus hogares y familias y la reflexión que todos adquirieron sobre el valor de hasta los momentos más simples y, especialmente, el valor de la vida. PALABRAS CLAVE: Covid-19. Profesional de la salud. Ansiedad. Enfermedad en el trabajo. Sobrecarga. 1 Graduação em Gestão Hospitalar pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. Tem experiência na área de Enfermagem, com ênfase em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) - HMU RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 2 Este trabalho se trata de uma coletânea de depoimentos realizados por profissionais que trabalham na área da saúde e enfrentaram a Pandemia da COVID-19 na linha de frente de um hospital. Com o objetivo de preservar a identidade dos depoentes, foram preservados os nomes e substituídos por letras do alfabeto. A foto também sofreu mudanças para não identificar o paciente. Este relato passou pela Comissão de Ética – CEP do hospital, para ter sua publicação aprovada. RELATOS PESSOAIS "(...) meu principal desafio no início da pandemia foi superar o medo de contrair o vírus e levar para minha família e contaminar meus filhos e meus pais, além de manter os profissionais e equipes fortalecidos fisicamente e emocionalmente pelos riscos que corríamos. Enquanto gestor, os principais impactos foram abrir tantos leitos de terapia intensiva, com equipes e profissionais recém-formados, sem experiência de atendimento hospitalar, sem prazos para treinamentos, gerir e compreender a necessidade de bom dimensionamento das escalas, observando quem tinha maior habilidade, colocando os que tinham mais experiência com os que tinham menos, para que pudessem ensinar uns aos outros. Deste modo, esses colaboradores foram treinados durante o serviço. Para garantir o máximo de excelência nos atendimentos, foi indispensável ou fundamental fazer diversos treinamentos durante a pandemia, mantendo assim, as equipes organizadas, funcionando e suprindo as necessidades dos pacientes. O que mais me impactou além dos acima citados, foram a perda de profissionais, colegas de trabalho, técnicos e enfermeiras, e receber meus familiares, cuidar dos meus entes. Outro grande desafio foi perder profissionais, perdemos um técnico e uma enfermeira e tive meus familiares internados, tive que cuidar dos meus próprios familiares, isso também foi um grande desafio. Mas, o que me ajudou a superar foi que, diante do excelente cuidado prestado por todos, tanto aos profissionais quanto aos meus parentes é que, se ao final nós perdêssemos essa batalha e esta guerra, não estaríamos perdendo por inabilidade, ineficiência ou por imperícia, mas sim para uma doença severa. O que eu queria era garantir que todos tivessem uma assistência digna de qualidade e onde houvesse as mesmas chances de voltar para casa e para a família. Dado ao exposto, a lição que tiro é que o trabalho integrado com equipe multiprofissional e de forma humanizada, com tratamento individualizado com todos os profissionais é muito importante para o sucesso do trabalho em equipe, e que é possível fazer uma assistência de qualidade, mesmo diante de situações difíceis, se todos estiverem empenhados ou engajados fazendo seu papel". (A, Gestor). "(...) vários momentos foram marcantes. Presenciamos muita dor, tristeza e vitórias. Passamos por picos de grande gravidade, nos submetemos a inúmeros riscos para salvar vidas. Conseguimos salvar muitas vidas, mas, infelizmente perdemos muitas outras para essa doença. Essa patologia trouxe crescimento para várias pessoas no âmbito profissional, tivemos que abdicar nossas vidas para se dedicar mais a esses pacientes, sendo necessário passar mais tempo dentro dos hospitais. Momento ímpar de nossas vidas, algo nunca vivenciado por muitos. Estou saindo dessa pandemia extremamente mudado, adquiri uma melhor empatia e contato com a equipe dentro e fora da organização. Esses momentos exigiram muito mais união, humildade, conhecimento e curiosidade. Cresci muito, tanto profissionalmente quanto como ser humano". (B, Médico). RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 3 "Estive acompanhando todo o processo da pandemia desde o início. Comecei na enfermaria do hospital de campanha, depois consegui, com muito esforço, entrar na escala da UTI, onde adquiri, sem dúvidas, uma experiência muito boa. Lembro-me que estávamos desacreditados, pensávamos que a COVID-19 não chegaria até aqui, foi todo um preparatório, aguardamos março, abril, maio e em junho houve um estouro dos casos e internações em nosso município e em todo o Brasil, hospitais com alta taxa de ocupação. Foi impactante, tive crises de ansiedade, me isolei muito dos meus familiares, fiquei literalmente isolado, meu ciclo social era dentro do hospital, morava sozinho e não permiti minha namorada ficar comigo, por conta das possíveis exposições para os nossos entes queridos. Foram meses de solidão, dormindo pouco, muita queda de cabelo, muitos ficaram brancos, morava no hospital. Tive medo de não resistir, era um ciclo em média de seiscentas (600 horas) horas por mês, portanto, tinha medo de não dar o manejo adequado, medo de não dar o melhor para o paciente, medo de que meus familiares contraíssem a COVID-19 e principalmente perder pacientes jovens, não que os idosos não tenham sua validação, é que nesta segunda onda, constantes foram os índices de jovens que vieram a óbito, vimos muitos jovens morrerem, suas vidas foram ceifadas, isso gera uma frustração enorme, além dos riscos no trabalho. Foram momentos bem difíceis, experiências bem desgastantes, lidar e conhecer o novo, ninguém esperava por essa pandemia, ninguém sabia o que fazer no início, não sabíamos se havia alguma medicação para tratar, então foi algo que nos pegou de surpresa e que tivemos que aprender juntos com muito estudo. Uma série de frustrações no início por não saber como lidar com esses pacientes e não ter medicação específica para a realização do tratamento. Aos poucos foram saindo alguns estudos e conseguimos obter mais sucesso. Certamente, foi uma experiência exaustiva, esses momentos me ensinaram muito e exigiram mais dedicação de todos. Apresentamos vários pontos positivos, tivemos um grande suporte dentro do hospital, não gosto de politicagem, não gosto de política, mas é notório a forma que nos foi possibilitado os materiais, utensílios e mão de obra para facilitar o serviço na organização. Outras unidades pelo Brasil faltaram luvas, seringas, ventiladores, medicações, aqui não tivemos falta de nada, tínhamos todos os EPI's. Tudo que foi possível para melhorar o serviço foi feito. Deste modo, experienciamos uma boa gestão para o controle dessa crise, as dificuldades que tivemos, outras unidades no país tiveram, que foi a falta de medicamentos no Brasil, não por falta de verbas para conseguir contrato, e sim por falta de disponibilidade de medicamentos no mercado que dificultaram muito nosso trabalho, pacientes que não sedavam, que não conseguíamos fazer manejo adequado por falta de sedação no mercado. Felizmente foi por pouco tempo, temos um histórico muito bom aqui, conseguimos rapidamente resolver essa questão. Meu maior desafio foi atender os pacientes críticos admitidos na unidade de terapia intensiva, ter equilíbrio emocional e profissional para conduzir e tratar os pacientes de forma humanizada e segura. Neste período foi chocante, óbitos recorrentes, contudo, se você levar esse fato diariamente para casa, sem dúvidas irá adoecer, sua sanidade mental não irá suportar. Infelizmente, vivi essa fase, não consegui mais fixar minha mente dentro do trabalho, minha mente estava estagnada, não conseguia pensar em trabalho. Amo trabalhar, amo minha profissão, gosto muito daqui, mas não estava conseguindo manter minha mente conectada com o meu trabalho que é um dos critérios para diagnóstico de Burnout. RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 4 Porventura, minha equipe me acolheu muito, meu chefe me liberou alguns dias, organizei minha cabeça e consegui compensar isso. Talvez o principal medo fosse perder aquele paciente que você ouviu falar com a família e ter que ligar para o familiar para falar que o paciente precisa ser intubado, que não tem mais jeito e que agora o processo de tratamento é intubação. E aí você passa o telefone para o familiar conversar com o paciente antes desse procedimento, e escuta todas aquelas frases de amor e carinho que existe na relação do familiar com seu ente querido. Após algum tempo, parei de ficar perto durante essas conversas porque era doloroso. Você ouvia o familiar com aquele zelo, tanto amor e desespero em saber que o paciente vai ser intubado, que poderia ser a última conversa, e todas essas cenas provocavam em mim um sentimento que me deixava muito mais aflito em tratar o paciente, me cobrava muito a ponto de não querer errar nada. Tivemos muitos casos de familiares e colaboradores do hospital internados, e é uma cobrança muito grande, não que esses pacientes sejam mais importantes que os outros, todos os pacientes são tratados da mesma maneira, porém, quando você vê a forma com que a família trata o paciente e você acompanha, você começa a ter um sentimento de apego, aí que entra aquele paradoxo que não podemos levar para dentro de nós, no entanto, não podemos deixar de sermos humanos. A lição que tiro de tudo que vivi nesses momentos é que a vida é uma loucura. Você não sabe para onde ela vai, muitas vidas foram perdidas em pouquíssimo espaço de tempo, pessoas que tinham muito mais para viver, quarenta, trinta, vinte anos, cinco anos, um dia a mais que fosse, foram interrompidas. Vimos famílias sendo desfeitas, pai, mãe, irmãos, avós, vários nomes sumindo por conta de uma doença que veio sem avisar. Por isso digo: a vida está aqui para ser vivida a cada instante, cada minuto, porque não sabemos o dia de amanhã e isso é muito complicado. Muitas vezes esses pacientes precisam de um sorriso, um abraço, precisam de alguém em que possam confiar. Esses processos são corresponsáveis pela pessoa e profissional que sou hoje, me tornei um profissional e um ser humano melhor do que eu era no passado. Grato primeiramente a Deus e depois a todos pela rica oportunidade de aprendizado gigantesco que adquiri aqui. Não tenho palavras para agradecê-los, tanto as pessoas quanto a equipe como um todo, que me abraçou, acreditou em mim e foi me ensinando, ajudando a me construir." (C, Médico). "(...) foi muito difícil, porque estávamos lidando com o desconhecido, com o novo e o que mais me marcou foi ver vários óbitos e, após alguns dias, encontrar entes queridos em estado grave ou crítico. A grande demanda de pacientes não parava de chegar, a superlotação e intercorrência me remetia guerra e muito medo, mesmo com o uso dos EPI's". (D, Enfermeira assistencial). "(...) trabalho desde o início da pandemia e tudo dava muito medo. Começamos com quinze (15) leitos, enfermagem reduzida, e eu era a única enfermeira do plantão na UTI 2. Os técnicos de enfermagem que chegavam não tinham experiência alguma, era tudo muito incerto e atormentador. Vínhamos trabalhar, mas não sabíamos como voltaríamos para casa, foi tudo muito triste, o medo tomava conta a cada plantão. O que mais me marcou é que não dava tempo de se apresentar ou fazer perguntas para o paciente na grande maioria das vezes, por que muitos chegavam chocados com saturação menor que 60%, precisando serem intubados de imediato. Foram tempos críticos e angustiantes, digo que foi uma lição que só quem viveu sabe. Eu falava que parecíamos estar vivendo uma Segunda Guerra RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 5 Mundial, porém contra o inimigo invisível. Vivemos aterrorizados, confinados e aflitos, com muito receio de chegar perto de alguém, sair de casa, ou fazer coisas básicas do cotidiano como por ex.: ir ao supermercado. Pensei em desistir várias vezes, fui aos prantos a sala do meu coordenador falar que não dava mais, que não iria conseguir chegar até o fim da pandemia, e ele me respondeu: "Calma, E! Você vai conseguir, vai dar certo". Foram dias difíceis no qual fiquei mais de sessenta (60) dias sem ver meus pais e quando pude vê-los, não foi possível ter contato físico, nem tão pouco demonstrar meu afeto, e isso contribuiu com a dor e tristeza que sentia naquele instante, que me motivou a lutar em equipe pelas vidas e condições melhores aos pacientes. Era uma dificuldade que o mundo passava naquele momento e precisava de nós, profissionais da saúde, no combate contra o inimigo invisível. No segundo mês de trabalho, fui contraída pelo COVID-19 e fiquei internada, deste modo, após meu retorno e por ter tido a doença, passei a ver com outros olhos e a encarar com mais tranquilidade. Enfrentamos grandes diversidades que nos concedeu a experiência que temos hoje". (E, Enfermeira). "(...) sou enfermeira há dezesseis anos. Em agosto de 2020, fui chamada para assumir o concurso do município, onde fui locada para UTI COVID. Ao chegar, me deparei com vinte e um (21) leitos lotados, não era uma UTI onde já tinha experiência como: UTI geral adulto, foi diferente e desafiador. Eram pacientes muito graves, com instabilidade hemodinâmica muito grande, de uma doença que não tínhamos protocolo para o tratamento específico. Foi muito assustador, principalmente quando comunicávamos ao paciente que ele evoluía para intubação, ventilação mecânica. Na maioria das vezes, comunicávamos a família por chamada de vídeo. O paciente consciente contava para o familiar que iria ser intubado, e isso me comove até hoje, não foi fácil, o psicológico ficou abalado, porém precisávamos pensar que alguém necessitava da nossa mão de obra. O que tiro de lição para minha vida é que cada vez mais a enfermagem e a equipe multiprofissional precisa ser equipe e que sozinhos não chegamos a lugar nenhum. A vida pode ser ceifada a qualquer momento, nós podemos estar bem hoje e após alguns dias descobrir que contraiu o COVID, podendo evoluir mal ou não. Dado ao exposto, as pessoas têm que ter noção de que os cuidados com o uso de máscaras, higienização correta das mãos, uso de álcool e vacinação não é importante para o individual e sim para o coletivo". (F, Enfermeira). "Todas as complicações do COVID-19 foram meu maior desafio até hoje enquanto profissional, por se tratar de uma doença que até então não tínhamos conhecimento, e não sabíamos a dimensão e nem como realizar o tratamento dos pacientes. Fomos aprendendo durante o desenvolvimento da doença, e fomos pegando outras experiências com outros estudos do Brasil e de fora, que foram saindo durante esse período. Outro desafio foi atuar como enfermeira assistencial na UTI, pois não tinha experiência na área, pois atuava como enfermeira do controle de infecção relacionada à assistência e saúde. Tornei-me enfermeira de UTI, fiquei com muito medo, pois estava desatualizada nessa área e não queria cometer erros que chegassem a acometer a integridade de algum paciente, é importante se atualizar para fazer um melhor atendimento. Outro medo durante o processo de prestação da assistência na UTI era ficar doente ou de levar a doença para algum familiar. Fiquei dormindo em quarto separado do meu marido, pelo fato de ele ser obeso, tendo em vista que a complicação em obesos se agrava ainda mais. Nesse período, fiquei afastada de toda minha família, com a intenção de protegê-los. O que mais me marcou nesse RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 6 período foi a ausência do contato dos pacientes com suas famílias, a solidão entre os pacientes na UTI e a família em casa sem poder ver seu parente, foi muito triste ver que muitas pessoas entravam conversando e acabavam saindo mortos, dentro de um saco e não poderiam ser vistos por seus familiares. Em alguns casos foi possível intubar, podendo ter contato com a família e infelizmente acontecia alguma piora e evoluía para o óbito, não tendo a oportunidade de ter o último toque, o último carinho, a última palavra, isso me doía muito porque eu me colocava no lugar daquelas pessoas. Outro fato que muito me marcou é que quando o paciente era extubado, a primeira coisa que eu fazia era uma chamada de vídeo para a família, porque eu sabia o quanto era importante. Para os profissionais de saúde, os impactos da pandemia foram deixar eles mais sensibilizados de alguma forma, pois eu tive período de muita tristeza profunda, pois acabei perdendo três pessoas da família. Quando um parente seu adoece, parece que você esquece tudo do profissional e da doença e fica apenas a pessoa humana, querendo negar as possibilidades ruins da doença. A lição que tudo isso me deixou é que precisamos aproveitar cada momento com as pessoas que amamos, não deixar as mágoas, as tristezas tomarem conta de você. Aproveitar tudo o que você pode. Eu ficava imaginando no que essas pessoas que morreram queriam falar, se queriam pedir perdão, qual foi o último contato dessas pessoas". (G, Enfermeira). "Estou desde o início da pandemia, era recém-formada, não tinha experiência na área, foi uma oportunidade de emprego, porém, tivemos que lidar com diversas situações durante a pandemia. No começo era tudo muito novo, estávamos descobrindo o que era a doença, como lidar com essa patologia, a grande maioria dos casos se encaminhavam para a intubação. Acreditávamos em diversas coisas como: intubação precoce, intubação tardia, tentamos várias estratégias com o objetivo de tentar reestabelecer a saúde do paciente. E por esses motivos foi mais difícil porque lhe damos com o ponto de interrogação, como por exemplo: o que fazer agora? Será que é certo? Vai dar resultado ou não? E por esses motivos tivemos que lhe dar com vários óbitos. Tivemos perdas de pessoas próximas e acabou que criamos muita afinidade com inúmeros pacientes. Cada intubação era um sofrimento para a equipe, cada morte dilacerava nosso coração, então foi muito difícil lhe dar com esses óbitos. Lembro-me que na minha primeira parada não tinha segurança no que estava fazendo, mas precisava fazer, porque se tratava de uma vida e foi muito triste perder essa pessoa dentro do plantão, com o passar dos dias, fomos aceitando melhor a questão dos óbitos, porém carregamos uma carga emocional muito grande por conta desses fatos. Lembro-me de todos os rostos, de todas as vezes que o paciente se recusou de ser intubado e precisamos intubar, de todas as vezes que fizemos promessas que não conseguimos cumprir. Hoje me vejo mais forte, aprendi lidar melhor com a dor, mas ainda sinto bastante e não vou esquecer-me do que passei nesses dois anos de pandemia. Sinto-me grata por ter contribuído em salvar vidas, se eu pudesse fazer tudo o que eu fiz, com certeza faria novamente. Por causa da pandemia tive que me afastar de todas as pessoas que amo, para evitar contaminá-las, porque estava numa área de risco e por ser arriscado para mim, era arriscado para eles ou para as pessoas que a gente ama também. Fico muito feliz de ter construído amigos aqui dentro, ter conhecido pessoas novas e por ter contribuído para salvar a vida de muitos. E o que torna e tornou gratificante tudo que vivemos é quando usamos o trabalho de forma humanizada, e que pude ver que podemos acreditar na enfermagem, na medicina e na equipe multidisciplinar, porque trabalhamos com amor e RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 7 quando trabalhamos com amor, trabalhamos com esperança e se tem esperança vamos lutar até o final". (H, Enfermeira). "Essa pandemia foi uma montanha russa, foram muitos momentos de altos e baixos, momentos angustiantes e de tristezas, mas momentos de alegrias, quando víamos pacientes conseguindo se recuperar, ver a felicidade dos familiares em receber seu ente querido de volta. Nesses dois anos de pandemia, tivemos uma lição muito grande, em relação à vida, tudo aqui é muito passageiro, pessoas entraram aqui doentes, muitos tiveram seus sonhos interrompidos, outros tiveram milagres, outra oportunidade de vida, onde muitos eram desenganados e Deus operou o milagre na vida dessas pessoas. Nós profissionais de saúde, passamos dias, meses e anos madrugada adentro acordados, muitas vezes deixando nossas famílias em casa, para estarmos aqui, lutando em prol de vidas que a gente nem conhece e que não temos nenhum vínculo. Porém, com o passar dos dias, essa convivência entre profissionais e pacientes, promoveram afetos e vínculos familiares. Em meio a essa guerra, aprendemos a ser mais unidos, damos forças uns aos outros para seguir em frente, porque mexeu muito com nossos psicológicos e até hoje mexe, tenho gravado em minha memória a fisionomia, nomes e histórias que cada paciente contava. Em vários momentos senti vontade de ir embora, principalmente quando havia muitas intercorrências e óbitos no mesmo plantão, até mesmo antes de sair de casa para vir trabalhar, pensava em não voltar mais, não por medo da doença, mas pela dor e sofrimento que essa patologia causava nos pacientes e familiares. O que me fez continuar foi primeiramente à força que Deus me deu, porque humanamente não conseguiria, foram momentos muito intensos que mexeram amplamente com minha mente, com meus sentimentos, outro fator que me fez permanecer foi meu juramento profissional, onde prometi cuidar e colaborar para salvar vidas, independente da situação. Eu tinha que me colocar no lugar do outro, poderia ser eu ou um parente meu que estivesse precisando daquela ajuda, então como profissional eu tinha que fazer a minha parte. Em momento algum tive medo, quando fui chamada para trabalhar aqui, senti uma paz em meu coração, uma certeza vinda de Deus, que Ele iria me proteger, ele me colocou exatamente onde precisavam, aquelas pessoas necessitavam de socorro da equipe multiprofissional e eu da experiência, cresci profissionalmente e muito mais como ser humano, por esses motivos não tive medo da doença, me entreguei nas mãos de Deus e confiei". (I, Enfermeira). "Tenho 24 anos, entrei aqui no início da pandemia, tive todos os desafios possíveis porque foi meu primeiro emprego ou trabalho, entrei como enfermeira assistencial, então tudo era novo, novo pra todo mundo, a doença era nova, as intercorrências, como lidar com cada uma delas, o número de pacientes que chegavam pra gente, o número de óbitos, lembrome muito bem do dia que estivemos bem conturbados, foram nove (09) óbitos, foi um dia muito tenso, tivemos duas PCR's ao mesmo tempo, todos os pacientes muito graves, tanto a enfermagem quanto a equipe médica tentando lidar com as situações, em busca de desvendar o mistério do COVID-19, onde focar pra diagnosticar e poder tratar com eficácia aqueles pacientes ou portadores. Hoje a realidade é bem diferente, temos um número bem menor de pacientes, não que seja menos grave, mas que soubemos lidar de forma melhor. Querendo ou não temos memórias em nossa mente, pra mim uma das mais marcantes, incluindo os óbitos, era de um senhor que deu entrada RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 8 em nossa UTI, ele batia no peito, dizendo:" por favor, não me deixa morrer! Estou morrendo!". Literalmente, pedia ajuda, pedia socorro, continuava a bater no peito pedindo ar pra Deus e para a gente. Corremos, agilizamos para intubar, porém, lamentavelmente veio a óbito pós intubação. Deste modo, percebe-se o desespero, que antes era algo longe e de televisão, mas que aqui dentro vivemos e que o mundo lá fora não enxergasse dessa forma. Pensavam que era exagero, mídia, só que não. A coisa aqui dentro realmente ficou muito feia, desastrosa, pavorosa, muito mesmo. Houve outro paciente que me apeguei além do profissional-cliente, cuidei dele por muito tempo, precisamente três meses seguidos, acompanhei todo o processo na tentativa de extubá-lo, de acordá-lo, fizemos três tentativas, na quarta ele conseguiu acordar, eu o vi voltando para o tubo logo após ser extubado, o vi tendo uma melhora clínica, depois rebaixar e, em seguida, vindo a óbito. Entrei em desespero, chorei muito, a equipe me acolheu e me explicou até onde podemos ter uma relação profissional-cliente, até onde pode ter empatia e amor pelo paciente, como prestar cuidados, não que você tem que aprender a ser frio, e não empáticos, prestar serviços ou cuidados de forma robótica ou prática demais, devemos ter o olhar clínico, amoroso, empático, sentimental, porém existe uma linha tênue, uma balança que você deve equilibrar pra saber lidar com as perdas e, infelizmente, lidamos muito com ela. Tive outros desafios como enfermeira na assistência, e hoje sou enfermeira coordenadora, claro que isso não diminui os desafios, a cada dia aprendemos algo novo sempre, cada intercorrência é sempre diferente, você sempre se envolve de uma forma diferente, tanto com as pessoas que você coordena quanto com os pacientes que você cuida, a forma que você lidera, a forma que você quer liderar e não lidera, sempre estamos em corda bamba e o COVID-19 foi isso, estivemos sempre em corda bamba, sem saber pra onde ou pra qual lado vai cair. A lição maior que tiro é a questão sentimental, percebemos o quanto somos desligados das pessoas, os tratamos de forma, na grande maioria das vezes, robotizada, materialista e tudo por mídia, redes sociais. Vimos o quanto usamos as redes sociais para se comunicar, vimos as pessoas que queriam estar perto do ente querido e não podiam ou podem, o isolamento da família foi o maior desafio, onde se percebe que aquela visita que você não fez quando deveria ter feito, a ligação que você deveria ter feito e não fez, onde famílias morreram juntos, pai, mãe, filho ou todos os filhos, tivemos famílias inteiras dentro da UTI e todos morrendo, um por um. Por mais que não transpareça tanto, sou muito sentimental, por isso digo: minha maior lição foi a família e o sentimento de ser humano para ser humano." (J, Enfermeira). "Trabalho desde o início da pandemia, meu primeiro contato com o COVID19 foi no município onde atuava como coordenadora do núcleo de vigilância epidemiológica, com população de três mil habitantes, município muito pequeno onde o COVID-19 não poderia chegar. Além de coordenadora, eu atuava como enfermeira assistencial no hospital, onde tive meu primeiro contato com a COVID-19, uma paciente chegou passando mal, com grande desconforto respiratório, muita dor torácica, era idosa e com histórico de infarto e outras comorbidades, por esses motivos não suspeitamos que pudesse ser COVID-19 e por ser município pequeno, a mesma foi regulada para Goiânia, neste dia não tínhamos disponibilidade de técnicos para acompanhá-la no transporte e eu fui, onde a mesma ficou internada na UTI. Dois dias pós o ocorrido, fiquei sabendo que fizeram exame para diagnosticar o COVID-19 e ela testou positivo, fiquei tensa, assustada, porque eu tive contato direto com ela, fui isolada por uma semana, mesmo RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 9 sem sentir sintoma algum fiquei em observação. Após o isolamento, retornei ao trabalho, nesse período o Ministério da Saúde mandou teste rápido para os municípios, fizemos em colaboradores que apresentaram sintomas e eu fiz, testei negativo para o COVID-19, não sei como, não sei de que forma não contraí a doença onde sofri um grande preconceito da sociedade, família e colegas da área com quem morava. Tempos depois, meu colega também foi contaminado, tivemos que isolá-lo, foi muito difícil, não foi bom. Não tive problemas respiratórios no início, cheguei a pegar COVID-19 depois, não foi com a paciente na ambulância, não sei de que forma, só Deus para explicar, porque o Ministério da Saúde havia mandado testes rápidos, eu fiz e deu negativo, além de não apresentar sintomas, por isso sei que não fui contaminada por ela. Por esses motivos, voltei a trabalhar, eram poucos profissionais, um estava afastado, era um caos, a demanda só aumentava. Quando descobri que Rio Verde estava contratando para trabalhar na COVID-19, entrei em contato com o responsável pedindo a oportunidade de fazer parte da equipe da linha de frente, então ele abriu as portas, dizendo: "Pode vir, que estou precisando". Fiz meu credenciamento, comuniquei aos meus pais que iria trabalhar no meio do caos, e eles disseram: "O Covid está matando". Respondi: "Sou profissional da saúde, sou jovem, sou saudável e preciso estar nessa luta, preciso ampliar meus conhecimentos, há muitos profissionais afastados e precisam da minha ajuda". Comecei a trabalhar na UTI COVID-19, que hoje digo que é uma das minhas famílias, porém, assustei ao me deparar com tantas intubações, PCR's, vários óbitos, era muito assustador e confesso que cheguei a pensar em desistir, mas logo voltei atrás, pensei: "Preciso ajudar essas pessoas!". No início da pandemia, os profissionais foram muito valorizados em relação a mensagens positivas, vínhamos trabalhar com o sorriso enorme, eram muitas frases de esperança. Vi muitos profissionais desistirem, acredito que o principal motivo foi em pensar nos pais idosos, em morbidades dos entes queridos, nos filhos. Passar por tudo que passamos não é para qualquer pessoa, poucos saíram sem problemas psicológicos. O que mais me abalou no COVID-19, foram as perdas, perder pessoas que prometíamos que não iriam morrer, falávamos que tudo iria ficar bem, e horas ou dias depois, eles não voltavam, não sobreviviam. Outro fator marcante era colocar esses corpos em dois sacos fechados, foi muito difícil e angustiante. Acredito que para nenhum profissional foi fácil, os que saíram foi por pensar em suas famílias, não por serem fracos ou por medo, e sim por pensar em proteger seu próximo. Fiquei sem ver meus pais por seis (06) meses, com medo de contaminá-los. Tive COVID-19, porém meus sintomas foram leves, mas por eu ter psoríase, tive problemas na pele, minha imunidade baixou demais, sendo necessário fazer tratamento, fui bem firme em relação a tudo, não barqueei. Não foram momentos fáceis, perdemos colegas de trabalho, tantas vidas, ver dor e sofrimento tanto dos pacientes quanto dos familiares. Em breve, espero jogar as máscaras para cima e que as pessoas tenham mais consciência, lavem bem as mãos, vacine-se, porque o COVID-19 deixou muitas marcas, até hoje muitas pessoas não conseguiram se recuperar. Essa doença deixou muitas sequelas que vão ficar para a vida inteira, seja no ente querido que perdeu ou em si próprio". (K, Enfermeira). "Trabalho no hospital desde o início da pandemia, a UTI em que fui escalada para trabalhar havia acabado de ser criada. Estava há muitos anos longe da assistência a pacientes tão críticos, aquilo tudo era novo e assustador. RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 10 Trabalhava em dois empregos no momento, não tinha dias de folga e isso foi me causando um desgaste físico e emocional gigantesco, afinal, todo local só se falava e vivia o Covid. Contaminei-me com poucos meses de trabalho e transmiti a doença para a minha família, meu marido ficou muito ruim e junto com a falta de ar dele, surgiu o meu peso de consciência por ter sido a causadora dessa situação. O Covid pegou todos despreparados. Aprendíamos a tratar os pacientes com a prática, os casos não reduziam, quando avistávamos uma esperança através da redução de casos, surgia uma nova onda. Muitos profissionais eram recém-formados e cabia aos mais experientes o treinamento deles. Sempre admirei a enfermagem, era meu sonho ser funcionária pública, porém este sonho se tornava um pesadelo diante do desgaste psicológico que vivíamos. No início, assistimos os óbitos de idosos, depois os pacientes com doenças crônicas e, por fim os jovens. Esta realidade nos fazia questionar em qual momento seríamos nós ali, deitados naquelas camas com um tubo na garganta sentindo a morte por perto. Depois de um ano de trabalho na UTI fui diagnosticada com depressão, porém me recusei a mudar de unidade de trabalho. Sabia que muitos colegas também estavam doentes e por não ter obesidade ou doença crônica, mesmo indo contra a vontade do psiquiatra e da minha família, me mantive naquele local. Sei que em algum momento isso vai passar, só não sei quando, mas entendo que nunca mais serei a mesma pessoa de antes, não se esquece de tantas mortes e sofrimento facilmente. Espero que como herança de dias tão difíceis venha o reconhecimento para os profissionais de saúde que enfrentaram esta batalha". (L, Enfermeira). "(...) entrei nesta guerra consciente de que se tratava de uma doença auto contaminante, porém nunca tive medo ou receio de tocar no paciente infectado. Foram muitos óbitos e várias vezes estávamos em intercorrência, quando ouvíamos os gritos vindos de outro quarto, "paradaaa...". Havia dias que aconteciam três PCR's ao mesmo tempo. O COVID é traiçoeiro e evoluía muito rápido, pela manhã conversávamos com o paciente e a noite ele se encontrava dentro de um caixão. Eram muitos pacientes para poucos profissionais e este foi meu maior desafio. Passar por toda diversidade e situações críticas, submeter-se a risco de morte e sair ileso é um privilégio. No entanto, graças a Deus conseguimos dar conta da grande demanda e das atividades. O SUS conseguiu superar em todos os âmbitos, desde os insumos até a mão de obra. E por ser SUS, a equipe merece aplausos, parabéns a todos que fizeram parte da equipe multiprofissional, por proporcionar alegria do retorno de muitos para suas famílias. Deste modo, essa doença veio para ensinar muito, uniu o que estava separado. A vida é como ondas, estamos sempre em processos instáveis e não temos a certeza de quanto tempo temos. Ame, aproveite cada segundo como se fosse único". (M, Fisioterapeuta). "No ano passado meu pai, (nome omitido), teve COVID-19, e ficou quatorze (14) dias internado no XY, fazendo VNI (Ventilação Não Invasiva), porém não foi o suficiente, pois teve um sepse de foco pulmonar, precisou ser intubado no SH, e foi transferido para o XX, onde ficou internado por setenta e dois (72) dias. Com dez (10) dias, ele já estava negativo do COVID-19, e já havia melhorado a parte respiratória. Ele já estava sem a sedação, já estava acordando, preparado para ser extubado, porém, por conta da infecção, ele descompensou e precisou voltar para a sedação e RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 11 coma induzido, ficando por mais um (01) mês. Nesse processo, ele adquiriu 4 infecções hospitalares, muita febre e, somado a isso, os rins também paralisaram, necessitando realizar hemodiálise por mais de um (01) mês, e com isso a pressão dele ficava oscilando e hipotenso, precisando sair drogas com doses muito altas, como por exemplo, a noradrenalina (42 ml/h) e usou também a vasopressina. Foi um processo demorado para fazer o desmame, porque a pressão dele sempre que ia fazer a hemodiálise, pois a hemodinâmica dele ficava descompensada. Houve dias em que o médico me ligava e falava que a equipe estava fazendo o que podia, mas que ele poderia ir a óbito ainda naquele plantão. Para mim como filha eu ficava muito ansiosa esperando a ligação do médico para me passar o boletim relatando a evolução do meu pai. Fiz um grupo da família para passar as informações, e quando a informação era boa, eu rapidamente repassava a informação do médico, mas quando era muito pesada, ou ruim, eu guardava para mim. Eu sofri muito nesse período, porque enquanto profissional, eu não podia fazer nada, tinha dias que eu entrava em desespero, não suportava, me recolhia na minha sala, chorava e pedia a Deus para não levar meu pai, e restaurar a saúde dele. Com todas as associações de antibióticos que foram usadas no tratamento, ele foi melhorando das infecções, até chegar o momento de desmamar e tirar as drogas vasoativas. Ele conseguiu despertar, abriu os olhos, mas não havia responsividade nos comandos, não acompanhava com o olhar e não falava, ficando nesse estado por dez (10) dias. Foi realizada uma tomografia para investigar o despertar adequadamente, mas com os dias, ele foi despertando e respondendo com os olhos e começou a falar. Ele ficou com algumas sequelas, como escaras que levou também um tempo para curar, uma na sacral e outra na coxa, com foco de infecção que com o tratamento adequado foi curado. Outras sequelas foram a calcificação óssea, déficit pulmonar que irá melhorar com o tempo. No mais, ele está bem e acompanhado por outro profissional de fisioterapia, reabilitando seus movimentos e força para locomoção. (N, Fisioterapeuta). RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 12 "Meu nome é "O" e sou fisioterapeuta. Então, minha história com o COVID começou por acaso, me formei alguns anos atrás e me especializei em ortopedia, e não trabalhava com respiratória há muitos anos. Quando comecei a escutar sobre COVID pela TV, achei que nunca chegaria até nós, quando começaram os primeiros casos fiquei muito assustado, pois tinha acabado de descobrir que minha esposa estava grávida, e como era uma doença nova e nada se sabia sobre, veio o medo e a incerteza de como seria. Fui chamado pela coordenação da fisioterapia para estar à frente desse combate, porém todos ao meu redor foram contra, até mesmo colegas que trabalham na área da saúde pediram para eu não aceitar, mas sabia que eu tinha um propósito maior, então resolvi aceitar. Os primeiros dias não foram nada fáceis, pois cada paciente que chegava era uma reação diferente, uns apresentavam melhora, outros uma piora muito rápida, era incubação a traz de incubação, pois qualquer outro método era arriscado. Foram várias perdas, antes se achavam que eram apenas idosos, logo após, estávamos perdendo pacientes cada vez mais jovens. O medo era cada vez maior, pois sabia que estava fazendo a coisa certa, mas tinha medo de estar colocando a vida da minha esposa e do meu filho em risco, no entanto segui adiante, firme sabendo que escolhi ser da área da saúde, então tinha seus riscos. De acordo que foram passando os dias, RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 13 nós descobríamos coisas novas, métodos que nós defendíamos e usamos por muito tempo não servia de nada, a incerteza tomava conta de toda a equipe. Minha função não era tão simples como muitos pensam, eu tinha que manter o paciente respirando, bem oxigenado e ainda pensar na parte motoro dele, e isso tudo sem ter reconhecimento que essa função é de um fisioterapeuta, pois ninguém sabe o que realmente faz um "fisio" dentro da UTI. Alguns meses depois, ficamos como uma luz no final do túnel, para evitar tantas intubações, uma técnica fisioterapêutica chamada VNI (Ventilação Não Invasiva), porém um dos maiores causadores de contaminação, vários profissionais se recusaram a fazer, pois o risco era muito grande. Até que chegaram até mim perguntando se eu teria coragem de entrar e fazer, confesso que minha vontade era de abandonar tudo e ir para casa ficar perto da minha família, mas quando entrei dentro do quarto e vi o paciente, jovem com medo e na luta para conseguir respirar, que a única coisa que queria era sair dessa situação e ir para família, decidi ir em frente e fazer o que fosse preciso para tirá-lo dali. Quando nós vimos que estava dando super certo, foi muito gratificante, ver que cada vez menos estávamos intubando e cada vez mais pacientes estavam indo para casa, aí que vemos o quão importante somos e que fazemos diferença, não só para aquele paciente que está lá, mas sim para toda sua família e amigos. Olhar para trás e ver que salvamos vidas é muito gratificante, e se fosse preciso faria tudo outra vez, amo o que faço: a fisioterapia". (O, Fisioterapeuta). "Estou nesta organização antes da pandemia, estou acompanhando todo o processo desde o início. Foram momentos muito difíceis, muito marcantes, tudo novo, não encontro palavras para expressar o real sentimento que foi e que é tudo isso. Passamos por grandes situações e momentos marcantes, hospital lotado, tivemos cinco (05) UTI's, todas lotadas, a princípio era uma específica para o COVID-19, tínhamos pouca estrutura, porque não sabíamos que seria o caos que ficou, porém, com o passar dos dias fomos melhorando nosso espaço e nossas experiências, as perdas foram diminuindo, todos sabem que essas foi a realidade que o mundo estava passando ou realidade mundial. Houve dias em que tivemos dez (10) óbitos, houve situações muito marcantes, me recordo que um dia toda equipe se reuniu para orarmos em prol de uma paciente que estava desenganada e neste dia a houve oito (08) óbitos, infelizmente ela foi à oitava, estávamos exaustos e neste momento da oração todos se emocionaram, desabafamos, esse foi um dos momentos mais marcantes pra mim em relação a tudo, porque fizemos tudo que poderíamos ter feito e a última coisa que nos restava era esse momento de oração e foi um gesto lindo e marcante para mim. Tivemos muitos momentos alegres ou felizes graças a Deus, tivemos muitas altas de pacientes que ficaram muito graves, que pensávamos que eles não conseguiriam sair daquela situação e eles saíram, e os chamamos de milagres, tivemos o prazer de acompanhá-los até a porta para entregálos as famílias". (P, Fisioterapeuta). "Sou fisioterapeuta há cinco anos, pós-graduada em fisioterapia hospitalar com ênfase em intensiva NEOPED e adultos, tenho experiência com intensiva há algum tempo. Fui Convidada para atuar na ala COVID-19 em fevereiro de 2020 para fazer parte da equipe da linha de frente. Entrei logo no início quando não tinha nenhum paciente dentro da UTI, onde ficávamos à espera de intercorrência. Para ser sincera, não acreditava que chegaria a RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 14 toda essa proporção, passamos mais de meses com dois ou três pacientes, sem nenhuma IOT, sem intubação, tiveram muitos pacientes com melhora sem intervenção respiratória, só com monitoramento e oxigênio e terapia. Três a quatro meses depois, a pandemia virou um pandemônio. Tivemos superlotação, tudo muito novo, risco de contaminação, porque até o momento ninguém da equipe havia se contaminado. Durante seis meses, a fase de adaptação foi muito difícil, o saber lidar e trabalhar com o COVID-19 em si, as experiências, não tinha literatura para pesquisa, então era apavorante ver alguém precisar de você e não ter o que fazer, muitas vezes não poder oferecer o conhecimento que talvez aquele momento necessitasse. Para mim foi muito difícil trabalhar com improviso, ter que lidar com o novo, com o improvisado. Tenho um pouco de resistência, gosto de trabalhar organizada, sou criteriosa e não gosto de fazer intervenções sem ter certeza e isso me deixava profundamente desconfortável quando tinha que realizar este tipo de procedimento, não às escuras, mas com 50% de conhecimento e outros 50% de fé. Cheguei ao ápice psicológico, atualmente estou fazendo tratamento psicológico, poucas pessoas sabem disso, há quatro meses faço análise com a psicóloga. Cheguei a ter problemas, a surtar, discuti com coordenadores e colegas de trabalho, por causa do estresse e sobrecarga. Percebi que precisava de um refrigério, de ajuda, quando caminhava em um sábado na praça e começou a passar um filme de todos os óbitos que eu presenciei, de todos que perdi durante um determinado tempo, e entrei em crise de choro no meio da praça por cinco horas, daí tive certeza de que precisava buscar ajuda. Hoje consigo lidar melhor, porém ainda é muito difícil para mim, quando eu penso e reflito sobre isso, perdemos muitas pessoas e é complicado, porque você não as vê intubadas, você ajuda as intubar, você as vê conversando, rindo e pedindo ajuda. Em alguns casos isolados, um paciente em específico, segurou no braço e me fez prometer, me fez jurar que ele não iria morrer e que só assim ele deixaria ou aceitaria ser intubado, e eu jurei. Ele foi a óbito, não cumpri com minha promessa, mas ele estava muito resistente e eu não queria que ele passasse pelo procedimento com aquela determinada resistência, porque naquele momento seria confortável e melhor pra ele, pois o mesmo estava consciente. Outro caso foi quando a equipe se mobilizou por um paciente que precisava ser intubado aqui, uma IOT de emergência. Esse paciente pediu para não ser intubado aqui, porque a equipe não era suficiente para mantê-lo vivo. Então pensei: "Você se desdobra. Dá o seu melhor. Deixa de dormir, descansar, para estudar, buscar conhecimentos, corre em busca de melhorias. Vê a equipe de enfermagem totalmente sobrecarregada. Vê pessoas trocando fraldas, mas também vê pessoas instalando noradrenalina para que o paciente não pare, a pressão não caia. Você vê as pessoas dando tudo de si ou mais do que tenha para oferecer, tirando de si próprio para se doar aqui dentro, e é muito difícil, porque somos chamados de heróis, porém não somos tratados como heróis. Você vê pacientes gritando, chutando, te menosprezando. Você orienta o paciente, explica o porquê do procedimento e ele não aceita, pensa que você não sabe do seu trabalho. Tenho muitos defeitos, sou difícil de lidar, tenho personalidade forte, sou chata e tachada como chata, porém respeito minha equipe e isso inclui todos, sejam técnicos, serviços gerais, nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, médicos, nefros, os profissionais da diálise, respeito a todos, eles são extremamente competentes e necessários às suas funções. E mais uma vez eu jurei na beira do leito que ele não iria morrer, porque essa equipe era competente, e eu iria provar para ele que RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 15 quando ele abrisse os olhos a primeira face que ele veria seria a minha, dizendo: "tá vendo, salvamos a sua vida com a ajuda de Deus". Essa promessa pude cumprir e foi muito importante para mim. Hoje sou uma pessoa mais dura emocionalmente, mais fria em muitas áreas da minha vida, sou cristã e isso me ajuda bastante, na presença de Deus me desmancho, choro muito, nesse momento posso ser frágil. Em muitas áreas da minha vida, eu separo coração e cabeça, embolo sentimentos e ajo com o racional, às vezes sufoca, mas costumo dizer que: "em água de tubarão, a gente não pode sangrar". Aprendi a ser assim com a pandemia, hoje não sangro, gotas de sangue atraem tubarões, é assim que vejo. Tudo que acontece em minha vida, eu sinto a obrigação de ter que ser forte o tempo todo, e isso cansa. Perder alguém para mim, hoje, ainda é difícil, porém estou mais preparada que antes... Nem sempre. Tem pessoas que você quer muito poder ajudar, a sensação de incapacidade é pior. As pessoas dizem assim para mim: "você tem que aprender a não se abalar", porém eu jurei quando me formei que daria a minha vida pela do outro, vou cumprir esse juramento até o último dia, posso não ficar rica financeiramente, mas eu tenho a profissão dos meus sonhos. Eu amo o que faço, amo meu trabalho, dou tudo de mim e até mais. Durante quatro anos não tive vida social, por me dedicar ao meu trabalho, não tinha vida emocional, pois pensava que não tinha tempo de qualidade para oferecer a um relacionamento. Renunciei todas as áreas de minha vida para viver meu sonho de fisioterapeuta, e na mesma pandemia eu renunciei a ("nome omitido") pra viver a fisioterapeuta. Hoje estou tentando recuperar um pouco disso, tentando viver um pouco mais, ainda é difícil. Quando contamos um pouco da experiência emocional para alguém, as pessoas falam: "Mas, é seu trabalho! Você tem que se acostumar com isso!". Eu não lido com porco, não lido com cachorro, lido com seres humanos, que é amado, querido e que lá fora tem alguém esperando por ele. O dia em que eu perder uma vida e isso não se comover, eu estou na profissão errada. Então, tenho respeito pela alma, vida e pelo sangue de alguém que está em minhas mãos. Uma coisa que me revolta muito, de modo geral, é ver nos agradecimentos que nunca a minha classe é citada. Vemos agradecimentos para manutenção, que é extremamente importante, mas nunca vemos a fisioterapia. Ninguém sabe que são os fisioterapeutas que administram os ventiladores mecânicos. Ninguém sabe que corrigimos uma gasometria com excesso de CO2 ou oxigênio no sangue, através da ventilação mecânica. Ninguém sabe que somos nós que ventilamos os pulmões deles, porque quando estamos trabalhando, eles estão sedados, quando eles acordam são transferidos para enfermaria, deste modo, trabalhamos às escuras para a metade da população. Todo mundo pensa que a fisioterapia é massagem, porém a fisioterapia te faz respirar também. Essa é a área que escolhi. Escolhi porque sou asmática, sei o que é sentir falta de ar. Escolhi porque fui muito doente na minha infância e sei o que é está internada 45 dias, fui desenganada, mas estou aqui, porque Jesus é maravilhoso, posso dizer que fui um milagre, eu acredito em milagres, vi muitos milagres acontecerem. Essa pandemia foi a fase mais difícil da minha vida, porém uma das mais importantes. Aprendi muito com isso e apesar de todo sofrimento, vieram muitas alegrias também, muitos saíram bem daqui muitos se recuperaram e superaram os momentos críticos que tiveram, não seria a primeira, a única e nem a última pessoa a ter que superar momentos difíceis. Aprendi que tudo na vida passa e devemos tirar coisas boas de tudo". (Q, Fisioterapeuta). RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 16 "(...) até chegar aqui, imaginávamos que seria uma realidade distante, de repente o hospital lotou. Nos apavoramos quando recebemos colegas de trabalho, o medo e o desespero gritaram, não acreditava no que estava acontecendo e na proporção e agilidade em que chegavam pacientes. Tudo que víamos na televisão, jornal e noticiário, agora era real e estávamos enfrentando. Quando se falou em pandemia aqui no hospital, nós achávamos que não iria chegar aqui nunca, igual víamos na tv, jornal e noticiário, que era morte seguida de morte. Pandemia chegando, hospital lotado, achávamos que aquilo nunca iria chegar para a gente aqui, que era uma realidade distante. Tanto é que quando fomos escolhidos pra UTI COVID, montamos a UTI, tivemos treinamentos, porque até então não sabíamos como usar os EPI's. Foi assustador porque víamos que estava chegando algo grave para a gente, pelo fato do treinamento que estávamos recebendo, pois até a forma de vestir um capote teria que ser de um jeito no qual a contaminação não fosse suscetível. Ficamos praticamente 1 (um) mês sem nenhum paciente, mas em seguida começou a chegar um atrás do outro, foi a UTI lotando, e apenas quatro funcionários para cada um ficar responsável por seis, sete pacientes, e o hospital não estava preparado para receber o número de pacientes que estavam chegando. Começaram a chegar pessoas próximas de nós, colegas de trabalho contaminados e que vieram a óbito, sabíamos que estava chegando à ambulância com paciente, só não sabíamos quem. Foi onde começou a chegar reforço, chegaram mais colegas, só que nesse prazo eu acabei me contaminando junto com mais dois médicos e uma fisioterapeuta, na qual o pai dela veio a óbito contaminado por ela, foi onde me deu mais medo ainda, porque eu vi que estávamos sujeitos mesmo a perder as nossas vidas. Fiquei trinta (30) dias afastado, com sintomas não tão graves, mas senti na pele o que é o COVID. Voltei do atestado médico, continuei trabalhando, e foi o dia que me marcou pois teve dez (10) óbitos no dia, fiquei louco no corredor, sem saber o que fazer. Tanto é que eu cheguei, estava com falta de ar ainda, e teve duas paradas ao mesmo tempo, um quarto em frente ao outro, mas eu tinha que fazer a massagem cardíaca, não podia largar a minha colega ali no quarto naquela correria. E muitas vidas chegaram aqui, a pessoa não tinha nada, dava entrada hoje, passava três (3) dias e já estava vindo a óbito, e hoje eu valorizo muito a minha família, os meus amigos, porque a nossa vida é um sopro. O COVID veio pra ensinar a gente a valorizar os momentos simples, coisas básicas, que é o ar que respiramos algo de graça, que não custa nada e muitos perderam a vida por causa do ar. Isso me ensinou a ser ainda mais humano". (R, Técnico em enfermagem). "Quando iniciou o COVID-19, eu já trabalhava em UTI, e foi uma doença que chegou e era tudo muito novo. Uma coisa que não esperávamos e pensávamos que passaria rápido. Mas, foi evoluindo em meses até que foi passando o ano. Muitas das pessoas que passaram no hospital deixaram marcas, e a que mais me chama a atenção foi uma menina de 19 anos que chegou aqui no XX pela manhã, vinda do XY, e logo que chegou não respondia mais e foi submetida à intubação e após o procedimento a paciente parou. Ficamos lutando 1 (uma) hora na reanimação e infelizmente ela não voltou. Isso marcou muito a todos. Senti-me muito abalada de ver tantas pessoas em sofrimento, tantas outras que chegavam ainda com vida e saiam em óbito, isso fez com que eu tivesse que me afastar do trabalho para tratar essas questões e melhorar como pessoa. Passamos pelo período em que a pandemia deu uma aliviada e em seguida os casos começaram a subir novamente, foi onde fui convocada novamente RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 17 e voltei. A nossa angústia é que a gente quer fazer tudo para manter a vida do paciente, mas infelizmente não podemos fazer sozinhos, dependemos de toda uma equipe. Essa experiência me ajudou muito como pessoa, pois eu era uma pessoa muito explosiva e falava tudo o que vinha na cabeça, e hoje após esse processo eu já me coloco no lugar do outro, penso melhor nas palavras que deverão sair da minha boca. No pico da pandemia, eu pensei em desistir de tudo, com o medo de levar a doença para casa e contaminar meus parentes e amigos, esse medo era compartilhado pelos demais profissionais da saúde onde eu trabalho. Nesse período, eu contraio o COVID-19 e acabei infectando meu esposo, e o medo era sair passando para nossos parentes, o que ocasionou no afastamento social, recomendado pelas autoridades de saúde". (S, Técnica em Enfermagem). "Quando a pandemia estourou, foi montada uma equipe para trabalhar na linha de frente. A princípio eu fiquei apreensiva por ser uma doença nova, tinha medo de contaminar meus familiares e meus amigos. Tive medo de meus familiares, que moram distante, contraírem e irem a óbito. Era um misto de emoções a todo o momento. No início, o nosso descanso era dentro da unidade da ala do COVID-19, dormíamos muitas vezes nas poltronas para não ter contato com mais nada fora dessa ala, e era uma loucura, pois ainda estávamos nos organizando para essa nova realidade. Tivemos treinamentos para vestimenta do júpiter e ficava com muito medo na hora de retirar, para não me contaminar nesse momento, pois na intubação iam todos paramentados e aconteciam vários procedimentos e o risco de contaminação era muito alto. Todo dia tínhamos que vestir a nossa armadura e ir para a batalha. Cada plantão uma guerra e no final uma vitória. Uma paciente que me marcou foi uma jovem de 19 anos, que deu entrada com quadro dispneico, fazendo com que o médico quisesse logo intubar, ofertamos muito oxigênio e seu acesso estava muito difícil. Após a intubação, a paciente parou, fizemos a manobra de reanimação. Nesse dia eu saí do hospital às 08h30minh da manhã, e porque minha supervisora que mandou ir, mas eu não queria aceitar que ela iria a óbito, queria fazer mais para manter sua vida. Quando cheguei em casa só chorava ao lembrar daquela paciente. Quando voltei para o hospital, me deparei com vários pacientes e foi preciso acionar a minha turma que já estava no descanso para dar suporte por conta da demanda. Mesmo cansados, estávamos ali dando o nosso máximo. A morte que muito me marcou, foi de uma mulher que deu entrada com quadro de cansaço, realizamos os procedimentos necessários e intubamos de forma tranquila. Fizemos a chamada de vídeo para seus filhos ainda pequenos, que deram muita força para a melhora da mãe, porém, horas depois sua mãe veio a óbito. O choque maior foi quando um colega de trabalho também contraiu a doença, foi intubado e acabou indo a óbito. Fiquei muito assustada e me perguntando: "e se amanhã for eu? ", e ainda não havia vacina, então a luta era constante para não ser contaminado por essa doença. Várias vezes pedi para Deus que tudo isso acabar, porque eu já não aguentava mais, não aguentava mais ficar de máscara, porque machucava muito, minhas mãos ficavam todas feridas devido ao uso excessivo de luvas e por causa do pó que elas contêm. Chegava em casa muito cansada, exausta, várias vezes tive crises nervosas, só queria chorar, não dava conta nem de fazer RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 18 as tarefas de casa. Tivemos muitas tragédias, mas também tivemos muitas vitórias, foi muito bom ver tanto jovens, quanto idosos serem extubados, conseguindo evoluir, ou até ir para traqueostomia, mas conseguir evoluir, saber de notícias deles, saber que estão bem, que estão conseguindo se alimentar, e de pouquinho em pouquinho conseguir retirar a sonda e eles conseguirem evoluir e para poder sair da nossa unidade. Mesmo cansada, mesmo exausta, eu sempre fechava os olhos, um minutinho que fosse e pedia a Deus: "Me dá sabedoria, livra minhas mãos do erro, me livra dessa doença e me ajuda a levar a paz". Às vezes me via entrando no automático, e eu parava e pensava que antes do corpo, eu tenho que tocar almas, porque ali é o ente querido de alguém. Então da mesma forma que traria o meu pai, minha mãe, minha irmã, eu tenho que tratar essa pessoa de alguém, essa pessoa está aqui, porque alguém lá fora a ama. E é uma coisa que eu vou levar para toda vida, antes de tudo tocar almas, não é só o paciente, é o amor de alguém". (T, Técnica em Enfermagem). "Sou técnica há dez anos, atualmente atuo como secretária na UTI COVID19, para mim foi muito desesperador, muitas internações, urgências e emergências a todo o momento, muitos funcionários entrando, outros em pânico, com medo de serem contaminados pela doença, nesse meio tempo temos que ser fortes e apoiar nossos colegas que entraram em meio a essa pandemia sem nenhuma experiência. Esses casos o que foi instalado em nossas vidas, tivemos que aprender a nos reorganizar, porque além do medo que tínhamos dentro do hospital, tinham nossas famílias que também estavam com medo, a população em geral estava apreensiva. Lidar com os óbitos não foi fácil, apesar dos familiares dos pacientes não estarem presentes aqui dentro, nos sentimos como parte da família de cada um, dar mais amor, mais carinho, mais atenção, isso foi e é fundamental. Muitos colegas de trabalho estão doentes psicologicamente por não terem estrutura para lidarem com tanta morte, dor e desespero, sem contar que muitos foram internados, intubados e outros vieram a óbito. É lamentável, muito triste, não tem como expressar em palavras o que nós vivemos, só de lembrar a um ano atrás o que passamos e pensar que há possibilidade de passarmos novamente é penoso, porque estar nessa posição é difícil, muitos não sabem o que passamos, o que está em nossas mentes, ao chegar em casa para descansar e nossos pensamentos fervendo, preocupados com os pacientes e como ficaram, seu estado crítico, muitas vezes pensávamos que alguns, por terem melhora, por estarem bem naquele momento, iriam sair e quando voltávamos para o plantão havia uma piora ou já não se encontravam mais, vinham a óbito. Em uma PCR, a gente vai com o intuito de êxito da melhora do paciente e muitas vezes, ficamos frustrados por não obtermos esse êxito. A doença é tão devastadora que, por mais que não a contrairmos, ela nos destrói fisicamente, emocionalmente e psicologicamente. Nossos desafios foram muitos, estar presente, não deixar a emoção tomar conta da gente, porque quando isso acontece, fica complicado trabalhar e cuidar do próximo. Precisamos ter mais amor e compaixão, lembremos que não sabemos o que virá pela frente. Hoje estamos no período de calmaria após a vacinação, muitos com a terceira dose, podemos ter a visão de um mundo melhor, mas não iremos voltar ao normal, teremos um novo normal, com mais cautela, mais critério, porque teremos sempre a sombra dessa pandemia a qual estamos aprendendo a conviver com essa patologia. RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 19 A lição que tiro é de amor, hoje você pode estar bem, amanhã poderá não estar, essa doença vai se alastrando cada vez mais e vai piorando cada parte do seu corpo. Dado ao exposto, devemos desempenhar cada vez mais com excelência nossa função, ter mais consciência do que passamos, do que estamos vivendo e do que está por vir, o que pode desencadear com essas variantes, novos surtos, nova pandemia, Deus permita que não, já padecemos demais. Fico feliz por estar aqui, em poder ajudar e desempenhar minha função mais e mais, fizemos, estamos fazendo e continuaremos a fazer com alegria e dedicação o possível e impossível para que mais famílias não sofram e não chorem mais". (U, Técnica em enfermagem). "A pandemia me marcou muito, muitas mortes, pensei em desistir, porque meu filho tem problemas de saúde e poderia passar para ele, porém, conversei com meu esposo e segui em frente. Sobre os óbitos, é muito difícil porque é muita gente morrendo, muitas famílias desesperadas, nunca tinha visto nada parecido, eram muitos corpos, uma coisa de outro mundo, parecia um pesadelo. O mais difícil para mim foi ajudar a colocar um corpo no saco, fiquei atordoada, pensei que não voltaria, mas ao chegar em casa conversava com meu esposo, como foi meu dia, quantos óbitos haviam tido naquele dia, quantas pessoas tinham ido embora, era difícil para nós da higienização vê tudo aquilo, para a equipe multiprofissional que ficava reanimando pacientes, tentando salvar. Então foram momentos angustiantes, havia dias que passavam de dez (10) óbitos, foram muitas famílias destruídas e, infelizmente, chegou na minha, assim como em muitas famílias brasileiras. O que tiro de lição é que não devemos deixar para o amanhã, o que podemos fazer hoje, porque não sabemos o dia de amanhã, infelizmente este vírus maldito chegou para destruir muitas vidas, acabou com muitos sonhos que as pessoas pensavam em realizar, sonhos interrompidos por um vírus. Hoje graças a Deus está bem controlada, estamos vacinados, devemos continuar fazendo a higienização das mãos usando álcool em gel e máscara, vida que segue. Perdemos entes queridos, porém devemos prosseguir pedindo forças para Deus, sabedoria e continuar se protegendo conforme as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), se cuidando e cuidando da nossa família e do próximo". (V, Auxiliar de Serviços Gerais). CONSIDERAÇÕES COVID-19 Essa impensável pandemia veio e nos trouxe com ela tantas lições. Desvendou os olhos de muita gente. Precisávamos descobrir pelo quê e por quem lutar. Nos fez enxergar e valorizar o que não dávamos importância como: estar reunidos em família, amigos, amores, paixões ou simplesmente valorizar o ar que respiramos, o ouvir, o comer, o falar. Observar mais. Sentir mais. Viver mais. Amar mais. RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 20 Aqui no XXX, compreendemos quem éramos ou o que queremos ser. Que valor tem a vida? Qual o sentimento que nos deixa a perda, o luto ou morte? A perda nos leva a pensar como somos limitados. O quanto somos impotentes. E muitas vezes limitados diante de grandes desafios. Correria, euforia, manobras de PCR's. A luta pela vida começa! Um minuto. Um segundo. Um milésimo de segundos. Pode trazer de volta a vidas ou lamentavelmente perdê-las. Adrenalina, agilidade e busca da precisão na hora da execução dos procedimentos são imprescindíveis. Lutar... Investir até o último suspiro. Exaustão coletiva. O silêncio toma conta por alguns segundos à espera do pulso. O que se passa na mente dos profissionais à frente do combate dessa guerra biológica, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros. Um turbilhão de sentimentos toma conta de nossas mentes. A dor da despedida é inexplicável. Quantos casos inexplicáveis? Quantas ressurreições fora do alcance das mãos do homem? Quantos milagres que só podem ser divinos? Quantas vitórias, quando tudo parecia terminado. O mundo lá fora com medo. A resistência de muitos em procurar fazer o teste. O medo de entrar no hospital e não ter a certeza de que iriam voltar para suas vidas, famílias e rotinas. Rotinas que muitas vezes reclamamos, mas que daríamos tudo para tê-las novamente. Saber que vai partir sem o toque, olhar e abraço de seus entes queridos é mesmo desesperador. Talvez os que estão lá fora pensem que aqui dentro não sentimos nada. Que já estamos acostumados. Não é bem assim. Sentimos sim! RECIMA21 - REVISTA CIENTÍFICA MULTIDISCIPLINAR ISSN 2675-6218 DEPOIMENTOS PANDEMIA COVID-19: OS IMPACTOS DA PANDEMIA SOB O OLHAR DOS PROFISSIONAIS DE UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR Glycia Cibelle Borges Leandro RECIMA21 - Ciências Exatas e da Terra, Sociais, da Saúde, Humanas e Engenharia/Tecnologia v.3, n.10, 2022 21 Esses que aqui chegam agonizantes se tornam nossos parentes e muitas vezes da última hora. Seguramos a mão, oramos e choramos, por terem partido sem o adeus dos seus. Éramos tudo que eles tinham antes do último suspiro. A verdade é que não soltamos a mão de muitos que partiram. Choramos no mais profundo de nossas almas. Somos meros mortais, diante dessas circunstâncias, fatos e situações. Nada importa além de viver. Abrir os olhos e respirar. Ouvir pessoas. Sentir cheiros, ter a certeza de que ainda pertence a este mundo. Sentir o contato humano e, através dele, promover sorriso, conforto, segurança, esperança, ânimo para amar a vida e convicção de que não estamos sozinhos. Precisamos do contato humano, tanto quanto o ar que respiramos. E a pandemia parece finalmente está terminando. Juntos passamos momentos tensos, difíceis em meio à pandemia, no entanto, fomos apoio uns dos outros, resultando em amizades, aprendizagens, carinho e respeito. Mais do que uma equipe de trabalho, nos tornamos uma grande família, a família XXX. Ficará a saudade dos que já se foram, dos amigos que fizemos, dos que foram desligados ou remanejados para outra unidade. Com todos os medos que tínhamos, fomos vencendo em equipe desafios que pareciam insuperáveis. Também tínhamos medo por nós. Por nossos amigos e familiares. Ao mesmo tempo em que a sociedade nos elogiava, também nos exilava. Ninguém queria chegar perto do profissional da saúde, principalmente os da ala COVID-19, éramos vistos e tratados muitas vezes como os condutores da peste (COVID-19). Muitos de nós ainda temos profundas sequelas não do COVID, mas emocionais. Muitos precisam cuidar de seu equilíbrio emocional e psicológico, porque a batalha foi dramática deixando-nos marcas profundas. Mas estávamos juntos, soldados de branco na linha de frente da batalha. Não há precisão de onde surgiu o COVID-19. Isso realmente não importa mais. Importa ver que ou cuidamos mais do nosso planeta, nossa morada universal, um dos outros e do meio em que vivemos ou outras batalhas angustiantes poderão vir pela frente. A pandemia que ceifou sonhos, infâncias, famílias, deixando inúmeros órfãos ainda não acabou. Temos muitas lições ainda para refletirmos, enquanto humanidade e o quanto precisamos estar atentos, responsáveis e fortes na construção de um mundo melhor atento a qualidade de vida.

ESCRITO POR Glycia Cibelle 24 K leituras
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