Hipótese
Se eu morresse amanhã, não seria um escândalo.
Seria um detalhe.
Uma dessas notas de rodapé
que ninguém lê,
e que, mesmo lidas, não mudam o sentido do texto.
Em poucos dias, minha ausência
aprenderia a não doer.
O luto - esse ensaio breve de importância -
seria logo substituído
pela rotina,
essa grande devoradora de nomes.
Imagino, sem vaidade,
que os vivos respirariam melhor.
Parentes menos cordiais,
amigos menos pacientes,
todos aliviados
do esforço inútil de me suportar.
Talvez eu tenha sido
um incômodo educado,
uma presença tolerada
por hábito,
nunca por desejo.
E quanto a mim -
liberto da obrigação de sentir -
finalmente descansaria
da esperança,
essa mentira persistente
que me prometeu sentido
e entregou apenas espera.
Se fiz alguém feliz?
Talvez.
Mas apenas por ter ido embora.
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Comentários
Curti a leitura. Embora poético, a isso eu dou nome de autoflagelo.