Tema Acessibilidade

Cebola

Lá estava eu fazendo da cozinha o meu laboratório, preparando as minhas gororobas... Quando estou me sentindo triste gosto de cozinhar. Não sei por que mas me faz sentir melhor. De repente chega o meu colega gaiato intruso que, experimentando o trinco de fechadura e vendo que a porta não estava trancada, foi logo adentrando na minha singela residência, sem a menor cerimônia (e não é a primeira vez que ele faz isso). Tudo culpa minha, é claro, que quase sempre esqueço de passar a chave… Parece que só vou aprender no dia que eu chegar em casa e alguém tiver levado tudo, deixando só as paredes e o teto.

- I aí, viadu, tá fazenu u que pá nois cumê? - Perguntou ele com sua voz cavernosa. Tomei um baita susto. Eu estava de costas, imerso nos movimentos da faca e não o ouvi entrar em casa e nem se aproximar, o infeliz parecia deslizar no chão que nem uma cobra, sem fazer ruído algum. Me virei e o encarei, surpreso assustado.

- Ôxi, tá choranu, é? - Perguntou o miserento.

Então eu fiz o que qualquer pessoa normal faria: me atirei no chão e comecei rolar e berrar: "ela mi deixô, ela mi abandonô… Ela num mi quê mais!", mas ele percebeu a "farsa" em pouco tempo:

- Ah, fi di rapariga, cortanu cibola...

Me levantei no mesmo instante, enxuguei as lágrimas com o antebraço e voltei à faca e às verduras.

- Num é nem mei-dia e tu já vai almuçá – disse ele, puxando um tamborete debaixo da mesinha e se sentando.

- Pois é, meu nobri, prus ponteru du relógi da minha barriga já é mei-dia – disse a ele, colocando um pedacinho de cebola na boca.

- I é um cuêi, é, pá cumê tanto matu assim? - Perguntou ele, se referindo ao tanto de salada que eu havia feito. Não respondi. Então ele me pediu um cigarro e eu disse que não tinha e que havia parado. Ele ficou em choque:

- Ôôôxi, deis di quandu tu parassi?

Olhei calmamente pro relógio no meu pulso e respondi-lhe "deis di agora!".

- Tu tais chei di viadagi, bixu! Qual vai sê u próximu passu? Vai começá a tricotá tambeim? - Perguntou-me cheio de sarcasmo.

- Huuum, tricô é legal – disse, baixando o fogo e dando uma mexida num refogado de brócolis, couve-flor e alho que chiava ferozmente na frigideira. Longos segundos de silêncio depois, eu perguntei-lhe:

- Ei, seu sacana, por que você sempri entra na maciota na casa dus ôtu?

- Ôxi, eu chamei qui só a pesti, pareci que até você tá é môco.

- Chamou porra nenhuma!

- Chamei sim. Pergunti a véia Maria, ela tava na calçada quandu eu chamei.

- Eu vô perguntá merda nenhuma a essa véia fuxiquera dus infernu.

- Intchão prontu, num venha dizê qui eu num chamei.

- Iscuta aqui – disse, desligando o fogo do refogado que já estava bom fazia tempo, olhando diretamente pra ele -, já passô puressa sua cabeça fudida qui eu poderia estar com alguma belezura aqui, experencianu momentus íntimus de nudêis?

Ele começou a rir e disse: "sem chanci, tu é tão fêi qui num pega nem gripi!". Tem gente que simplesmente não entende ou não quer entender ou dá uma de doido. Então ele começou a contar uma estória sobre uma mulher bem mais velha com quem estava tendo um caso, dizendo que ela fazia de tudo na cama, mas era como se meus ouvidos estivem desligados. Eu só queria ficar sozinho. Eu gosto de comer sozinho. Quando eu estava prestes a enxotá-lo dali, ele me perguntou se eu tinha algum dinheiro pro cigarro. Dei-lhe uma nota de 5 e ele saiu mais feliz que dono de van lotada. Acompanhei ele até a porta e dessa vez não esqueci de passar a maldita chave e disse a mim mesmo aliviado: "ufa, ainda bem qui eu tava cortanu cibola!".

ESCRITO POR Leopaidju 4 textos
Direitos Autorais

© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±500 leituras
Classificação de conteúdo:
Moderado

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor