Peso do silêncio
Há um peso que não aparece no corpo, mas se instala na consciência.
Ele nasce quando sabemos algo ruim sobre quem amamos, quando percebemos o perigo, o erro, a queda se aproximando… e ainda assim escolhemos o silêncio.
No começo, o silêncio parece cuidado.
"Não é minha função", "não é o momento", "vai passar".
A gente se convence de que calar é respeitar, de que falar poderia machucar mais. Mas, no fundo, existe medo: de perder, de ser rejeitado, de quebrar a imagem que temos daquela pessoa - ou que ela tem de nós.
Então tudo acontece.
O erro se concretiza, a dor vem, o estrago se instala.
E o silêncio, que antes parecia proteção, vira acusação. Não dita por ninguém, mas repetida dentro da própria cabeça: eu sabia.
É aí que a culpa muda o jeito de agir.
Quem se cala passa a cuidar demais, a estar sempre disponível, a se desculpar por coisas pequenas. Demonstra afeto em excesso, tolera o intolerável, carrega dores que não são suas. É como se cada gesto fosse uma tentativa silenciosa de pedir perdão por algo que nunca foi dito.
Não se fala sobre o assunto, mas ele está em tudo.
No olhar que demora, na preocupação exagerada, na necessidade constante de consertar o que não pode mais ser consertado. A pessoa não pede desculpa com palavras - pede com atitudes, com presença, com culpa.
E o mais cruel é isso:
não foi a intenção ferir, mas o silêncio também machuca.
Não por maldade, mas por amor mal colocado.
No fim, fica a frustração.
A pergunta que nunca encontra resposta: e se eu tivesse falado?
E a consciência aprende, tarde demais, que amar também é ter coragem de dizer o que dói - antes que o silêncio cobre um preço alto demais.
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