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Eu Posso Provar!

Cuidado! O carro!
O homem gritou enquanto a mulher atravessava a rua, no ápice do desespero.
A mulher não ouviu o grito, sentiu apenas o impacto do carro e o próprio corpo voando a poucos metros.
- Meu Deus, você está viva!
- Misericórdia, as pernas estão tortas! - disse um curioso, aproximando-se do corpo e ligando para a ambulância.
- Não importa, eu vi! Eu vi! - disse a mulher, com lágrimas de emoção nos olhos.
"Eu vi" eram as únicas palavras que a mulher repetia. Deitada no asfalto, parecia em transe, maravilhada.
- O que você viu, minha senhora? Me conta.
No hospital, o enfermeiro tomou coragem e perguntou. Já fazia três dias que a mulher chegara com as pernas deslocadas, porém viva e consciente.
- Eu vi. Eu realizei um sonho.
As lágrimas escorriam pela face, sorria e ria ao mesmo tempo, com os olhos sem piscar, fixos na parede à frente.
- Senhora, me conte o que te perturba. Você não está dormindo e parece não me ver aqui, à sua frente.
Ao ouvir essas palavras, a mulher endireitou as costas, bebeu o copo d'água que estava na mesinha ao lado e olhou para o enfermeiro.
O homem sentiu uma gota de suor escorrer pelas costas, o olhar da mulher era assustador.
- Você quer mesmo saber a verdade?
- A verdade?! - disse o homem. - A verdade sobre o quê? - cochichou o enfermeiro, aproximando-se.
- A vida, a existência, sobre tudo em que sempre acreditei.
"O relato começa na vila onde cresci, no interior, um lugar bem afastado das grandes cidades, onde o impossível acontece pelo menos uma vez por semana e as pessoas esperam por isso.
Nessa época, me apaixonei pelas histórias de criaturas que apareciam e depois sumiam sem deixar rastro, de seres alienígenas que tomavam café com as curandeiras anciãs e de anões barbudos que veem o futuro nas ondas do mar.
Em uma madrugada, acordei com um rugido e com gritos das pessoas da vila. Corri até a janela da frente e vi tochas e homens com armas nas mãos.
Minha curiosidade foi tão grande que precisei ir junto. Me embrenhei na mata logo atrás do grupo caçador.
A noite estava escura e fria, e as pedras no caminho machucavam meus pés. Continuei andando sem entender, precisava ver o que todos tinham visto. Até que escutei um tiro e um grito que parecia de um animal raivoso.
As pessoas corriam em todas as direções, e eu, sem entender como, perdi o caminho de casa.
O que mais me impressionou, e que nunca esquecerei, foi a sombra enorme que me ajudou a encontrar o caminho de volta, e també das garras que vi quando me virei para agradecer.
Contei tudo a uma anciã, e ela disse apenas uma palavra: lobisomem!"
- Ah, não! Você acha que sou idiota?! - O enfermeiro levantou da cadeira e começou a andar pelo quarto. Estava nervoso e indignado, não admitia ser enganado.
A mulher olhou no fundo dos olhos do enfermeiro e o fez sentar-se, calado.
O enfermeiro sentiu arrepios e começou a tremer de frio. "Meu Deus, como este quarto ficou gelado de repente. Pode ser a fresta da janela ou a força dessa história", pensou.
- Vou continuar, e não aceito ser interrompida novamente!
O homem não se atreveu a emitir nenhum som. Engoliu a saliva, forçando a garganta, e fechou os olhos, com medo.
"Passei a vida atrás desse ser misterioso. Me infiltrei em grupos e iniciei uma investigação solitária: conversei com pessoas, revi mapas de aparições e segui meu coração.
Com tudo isso, acabei aqui, nesta cidade, neste dia, em uma noite de lua cheia.
Todos os caminhos me levaram ao cemitério.
Entrei antes do fechamento e me escondi atrás de um túmulo sujo e abandonado. Esperei horas no escuro e no frio. Não podia acreditar que estava no lugar errado, que tinha seguido uma pista falsa novamente.
Decidi levantar e caminhar um pouco para esquentar as pernas. A luz da lua clareava tudo ao redor; não precisei da lanterna para enxergar. Peguei apenas o celular para conferir o horário.
Enquanto andava, observei diversas oferendas frescas pelo caminho e sussurros de orações para os mortos. Admirei as flores no chão, os pratinhos com comida. As pessoas cantavam baixo e se abraçavam.
Ao sentir a energia de harmonia, fechei os olhos e rezei baixinho para que a noite passasse rápido, já estava cansada do dia que passara e da busca que parecia não ter fim.
Com os olhos fechados, senti um cheiro forte de suor e urina que dominou meus sentidos. Abri os olhos, assustada, e não vi nada além das pessoas que já estavam ali.
De repente, ouvi o que tanto esperava: o uivo que me arrepiou e me paralisou novamente. Olhei em desespero para frente e vi um monstro de mais de dois metros, com o corpo completamente peludo e sujo, pés e mãos enormes e uma face animalesca.
Todas as pessoas correram, derrubando as oferendas e pisando nas flores. A ânsia de salvar a própria vida era tão grande que vi uma velha ser pisoteada, uma mulher desmaiada e um jovem todo cagado.
Eu não corri. Não por falta de medo nem por excesso de coragem, paralisei. No ápice da hesitação, o lobo me viu e veio em minha direção.
Meus pés desgrudaram do chão, e eu corri gargalhando. Corri com toda a força, carregando a lembrança viva da infância. Com a força das curandeiras, fugi e pulei o muro de olhos fechados.
Depois disso, me lembro de quase nada. Não sei como vim parar aqui nem onde estão as outras pessoas."
- Senhora, disse o enfermeiro, em voz baixa, o carro te atropelou na avenida, mas você está bem agora, precisa apenas descansar. Quero te dizer que acredito na sua história, de verdade, mas você não pode contá-la às pessoas, não tem como provar.
- Eu posso provar - disse a mulher, com o olhar fixo na bolsa, à procura de algo.
- Como, senhora?
- Eu tirei uma foto.

ESCRITO POR A. C. Nieto Um texto
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