Almas Gêmeas
As costas de Jacira arqueavam-se sobre a mão grossa de João, esticando a pele do seu ventre e fazendo os seus seios desnudos repousarem em direção ao chão. A respiração de Jacira era sôfrega, como que afogada num amor de irmão. João palpava-lhe as coxas macias, depositava beijos na face da amante e, antes, na barriga. No mesmo momento, ele engalfinhava a mão livre nos cabelos da moça, que eram negros como corvos. Jacira transpirava, suspirava com seu hálito quente no rosto de João. Transcorria a madrugada de lua alva, posta na magnitude do céu ultramar como única testemunha. A janela do quarto de Jacira estava aberta, dando passagem àquela brisa apaixonante que os encobria. A liberdade estava naquele quarto e naquela casa, sozinhos, enclausurados nas sombras para que ninguém os visse e os condenasse como devassos; mas o amor existe a favor da devassidão.
Permaneceram na cama, ambos com os braços presos ao corpo do parceiro. João notava aquela penugem tímida de menina alisar seu peito. Olhavam para o teto. Mas Jacira parecia olhar para si mesma. João não questionou seu distanciamento, pois temia as consequências. Foi ela quem disse:
- Meu amor, eu estava pensando em uma coisa...
- Fale.
- Bem que poderíamos passar uma semana juntos; aqui mesmo. Trancaríamos as portas, as janelas e ficaríamos aqui dentro sem ninguém saber, como se tivéssemos desaparecido da face da terra... Uma semana.
João voltou-se para a amada, e esta lhe estendeu os lábios ovalados. Em seguida, ele repousou a cabeça em seu peito, recebendo cafunés. Era encantado por uma cicatriz de nascença que ela ostentava entre os seios e que, como repetia, era um sinal de que seu coração fora tirado e dado a ele.
Refletiu cuidadosamente antes de responder à sua gêmea:
- Sabe que não posso fazer isso. - falou. - Você pode; não tem filhos, marido. Mas eu trabalho, tenho minha família...
- Mas você podia inventar algo: que precisa viajar... - insistiu.
- Eu já disse que não! Você conhece a Rebeca, sabe como ela suspeita de tudo; se não me prevenisse tanto para ver você, creio que ela já teria nos descoberto.
Ele esperou, novamente, os lábios. Mas Jacira revirou os olhos, voltando ao seu interior, que se refletia no exterior.
Com um pedido de João, levantou-se da cama e, sem pudor, dirigiu-se até a cozinha, voltando com um copo de água. Enquanto ele bebia, Jacira o encarava ao pé da cama; seus lábios estavam comprimidos e seus dedos, agitados. Suas pupilas principiaram a umedecer-se, mas não derramaram uma gota. Foi então que bradou:
- Você é muito covarde mesmo! É um frouxão!
- Pare de gritar, Jacira! - saltou da cama.
- Não paro; covarde! Frouxo!
Ele correu para agarrá-la. Quando finalmente alcançou seu braço, implorou para que não gritasse, mesmo sabendo que ela não pararia:
- Covarde e frouxo! Covarde e frouxo!
Aquelas palavras repercutiam na cabeça de João, enchendo-a de pancadas ensurdecedoras. Ele olhou pela janela, atemorizado de que alguém ouvisse os gritos que tanto lhe ferviam o sangue. Precisava calá-la. Soltou o braço da amante e pôs os polegares em seu pescoço, apertando mais e mais, vendo a alma de Jacira esvanecer pelos olhos e seu rosto avermelhar. Suas mãos endureceram, abrindo-se apenas quando recebeu uma joelhada nas partes íntimas. Jacira correu nua, e João a perseguiu assim que vestiu as roupas. Os dois saíram rua afora. A moça era mais veloz e leve; estava cerca de sete metros à frente. João ofegava, pois parte de sua energia fora gasta antes. Jacira sumiu na esquina, em direção à rua Auvidora, que não possuía postes de luz. Ele ouviu um som riscado e, quando virou a mesma esquina, deparou-se com o corpo da sua amada estirado ao chão: seus olhos soturnos, seus lábios roxos; apagada. O automóvel, levemente amassado e respingado de rubro, sumiu no escuro. João, antes de tomar a mesma atitude, sentiu como se alguém lhe soprasse na nuca. Jacira foi abandonada pelo amor, mas acolhida pela morte.
E seu amor, quando deu por si, estava novamente no quarto; pegou qualquer evidência que o apontasse, limpou a película gelada do copo com suas digitais e o pôs de volta entre as louças. Depois de fazer tudo quase instintivamente, paralisou na deriva daquelas cortinas inquietas. Viu as roupas da amante jogadas no piso e uma foto dos dois em cima do criado-mudo. Era uma foto de família: a mãe no meio e seus dois filhos ao lado.
- Não... - cochichou.
Suas pernas despencaram, e o tremor de suas mãos aparava o aguaceiro dos seus olhos; produzia um som quebrado, asfixiante. Não viu o tempo dissolver-se.
Não podia ficar ali. No mesmo pranto, saiu da casa. Presumiu que a polícia devia estar no local do acidente àquela hora. Voltou a pé para casa, como sempre fazia naquelas noites. Demorou mais que o habitual; entrou em veredas desconhecidas, pensando ser o caminho de sempre. Quando por fim parou diante da porta de casa, girou a chave na fechadura e entrou feito um ladrão, só de meias. Deixou que a visão se adaptasse o suficiente para ver as escadas que davam até seu quarto. Naquela madrugada, sua esposa, Rebeca, dormia no lado da cama que era dele, apegada aos travesseiros e ao aroma. O aroma... João farejou as mãos, e o de Jacira estava agarrado à sua pele; era o aroma inconfundível do sabão de coco. Decidiu tomar um banho. Faltou pouco para arrancar a pele na tentativa de remover o cheiro, mas nem a colônia o disfarçou. Saindo do banheiro, observou sua mulher antes de deitar-se junto a ela. Desejava dormir e acordar em outro dia, esperando que tudo o que acontecera fosse fruto da sua cabeça ou de um sonho em que ainda sonhava.
No outro dia, João acordou sob os beijos ternos da mulher, que tinha a mania de beijar as costas de suas orelhas. Rebeca não pareceu sentir o cheiro de coco de Jacira:
- Como foi a conversa com seu amigo, meu querido? - perguntou.
- Bastante proveitosa... - Não olhava nos olhos da mulher; temia que ela visse os resquícios de vermelho nos cantos dos seus.
- Que horas chegou? Esperei você por tantas horas, mas fiquei morta de sono. - Observou se ele prestava atenção ao que dizia. - Ah! Sua irmã havia me ligado ontem; perguntou como você estava, disse que queria falar com você.
- Eu já falei com ela...
João desejou tanto que Rebeca parasse de zunir em seus ouvidos que surgiram batidas insistentes na porta da frente. Os dois se levantaram. Ele vestiu um roupão amarelado e desceu as escadas, pisando forte em sons ocos, até chegar à porta da frente. Depois que o sol parou de cegá-lo, viu um policial à sua frente, com os dois polegares na cintura e barba rala.
- Senhor João da Costa?
- Sou eu...
- Senhor João, infelizmente sua irmã, Jacira da Costa, foi atropelada ontem, por volta das duas da madrugada. Ela não resistiu. Meus pêsames...
A reação incrédula de Rebeca foi instantânea.
João voltou a chorar o choro que havia guardado justamente para aquela ocasião; era genuíno, mas suas feições não se repetiram na mesma intensidade da primeira vez. Rebeca viu o marido trêmulo, soluçando. Guiou-o até a cadeira da sala, deixando-o em paz e voltando ao policial para saber mais do acidente.
Aproveitando a desatenção da mulher, João voltou ao quarto. Estava morta! Lembrou-se de Jacira como ela era, desde o seu nascimento, que presenciou, segurando-a nos braços. Os dois correndo sobre os grãos de areia morna num dia de praia; reviu aquela menina de dez anos com seu maiô ciano e seu sorriso extravagante. O que sua mãe não iria pensar dele.
Mas houve uma memória à qual voltou de corpo e alma, na mesma casa, sob a mesma lua: no sofá, Jacira pressionava o corpo contra o dele e o bombardeava de beijos estalados, que ele não tinha velocidade para retribuir. Ele ria, dizendo:
- Você vai me matar com tantos beijos!
- Eu te mato de amor, de amor, João! - mordeu sua orelha com os lábios.
João jogou-a para o lado. Sua amada foi até o aparelho de som, que guardava um CD nas entranhas, pronto para ser escutado. A melodia os fazia perder o chão, passava por seus ouvidos, adentrava até tocar o coração, alterando suas batidas. João amou ainda mais sua amante naquela noite. Quando a viu apenas de calcinha, rodopiando na ponta dos pés, com os braços abertos, não se conteve e tentou pegá-la; ela, sorridente, escorregava de suas mãos.
- Minha irmã, minha ama...
- Como disse, querido? - Rebeca o assustou. Mas ele não entendeu. - Perguntei como está, querido.
Ele apenas acenou com a cabeça em sinal de negação. A mulher era esperta o suficiente para entender que, por ora, precisava deixá-lo sozinho, em plena quietude, para que o tempo o curasse, assim como curou a cicatriz da perda de sua mãe.
As pérolas cristalinas e salgadas caíam sobre o caixão onde jazia o corpo de Jacira. Suspenso, era levemente encaixado na cova numa tarde de sexta. Suas mãos estavam cruzadas à frente do corpo e sua cabeça em direção ao caixão. Rebeca estava abraçada ao marido, ao mesmo tempo que lacrimejava, apenas. João podia contar na mão os conhecidos de Jacira, e, dentre eles, ele era o mais abatido. Tratou de enxugar as lágrimas importunas, para que nem sua esposa desconfiasse, pois sentia mais a morte da irmã do que a da mãe. Ficou consigo; nem sua mulher lhe era necessária no momento, apenas sua memória de Jacira. Mas, mesmo recluso, não pôde deixar de notar os olhares que eram lançados ao fundo da sua alma perturbada e, quando os confrontava, disfarçavam. Queria gritar, desafiar: "O que querem?", "Por que me olham?". Não o fez porque pensava nisso já a caminho de casa:
- Jacira nunca me contou desses amigos. - dirigia com certo alheamento. - Percebeu como me olhavam?
- Não percebi, querido; mas deixe para lá... Não falemos em Jacira. - Rebeca atracou-se ao seu braço livre. Ele inicialmente afastou-se, receoso de que ela sentisse o aroma de coco. Pareceu não sentir.
Houve um almoço de domingo na casa de João. Um de seus filhos arranjou tempo para lhes fazer uma visita. Em volta da mesa farta, simultaneamente serviam-se enquanto conversavam, atualizando-se sobre a vida do filho mais velho; Rebeca estava mais interessada. Já o marido estava interessado na comida. Só receberam parte de sua atenção quando o filho tocou no nome da tia falecida. Rebeca se abriu, dessegredando o que o policial lhe contou: como os hematomas de estrangulamento no pescoço e o estado em que foi encontrada levavam à ideia de um outro indivíduo. João relembrou a noite: se havia limpado tudo.
- Sua tia, meu filho, não merecia o que aconteceu. - No mesmo instante em que falava, parecia fitar João. - Espero que a polícia pegue esse... Esse infeliz!
- Mas parte da culpa pode ser de tia Jacira. - Também observava João? - É o tipo de coisa que acontece quando se escolhe o homem errado.
A indiferença com que seu filho tratava Jacira, e mesmo ele, o fez perder o apetite. Sapateou o piso até que se retirou da mesa:
- Eu estou com uma terrível dor de cabeça; preciso me deitar.
Deixando os cochichos da mesa, subiu até seu quarto e parou ao pé da janela. Tinha visão para a entrada principal, posposta à rua. Numa onda de borrões brancos no céu, nadava um cardume de pássaros em direção ao oeste. Recordou um dia em que viu a mesma espécie indo para leste; em um riacho distante da cidade, Jacira apontou para o céu mostrando-o e dizendo que queria ter asas para voar; João a achou irreal como sempre. Lembrou-se também de que a pele da sua amada estava salpicada de sol e seus cabelos negros escorriam pelos ombros. No entanto, parecia meio pálida; talvez fosse o efeito da luz natural. Ela fumava no caminho para casa, praticamente deitada no banco do carro, meticulosamente deixando as coxas à mostra.
- João...
- Fale.
- Se eu morrer primeiro, você vem comigo?
Ele riu, mas não hesitou em responder:
- Não suportaria ficar sozinho.
João pegou as chaves do carro; sua esposa estava ocupada com seu filho. Não o viram sair e dar a partida.
No carro, olhava o mesmo banco em que ela esteve, como se a visse ali, à sua espera. Na sua rota, viu uma viatura da polícia passando ao seu lado; perguntava-se pelo que iria ser condenado: por amar a irmã, estrangulá-la, matá-la. Seus ombros pesaram no corpo. Sua amada mulher, seus filhos, mesmo a alma da sua mãe, estavam presentes naquele júri psicológico. E o juiz; as faces deste, não quis ver.
Estacionou uma esquina antes da casa de Jacira, andou os metros restantes e abriu a porta com sua chave reserva. Foi como adentrar no coração de sua amante; todos os móveis representavam uma parte sua. Ela estava sentada naquele sofá, pálida e fria, sem pudor, da maneira que o enlouquecia.
- Jacira! - Ela o escutou e sorriu.
Tentou pegá-la, e ela brincou com ele, esquivou-se dos seus braços, fazendo-o descolar os lábios para sorrir. Ele a seguiu até que sumisse no quarto; também sumiu sua risada fina de menina. João inspirou fundo aquele ar, embriagando-se no seu perfume, nos lençóis e nas roupas limpas, como se pudesse abraçá-la; a janela estava aberta desde sempre, e o vento tocava sua pele como um beijo, fazendo-o concluir que o mais doloroso não era a ausência da sua amante ao seu lado, mas a ausência da sua irmã na sua vida.
Estava deitado na cama, de barriga para cima. Seus olhos pesavam e decidiu cochilar por alguns minutos. Foi acordado por sua amante. Ela estava sobre ele, e sua face, perto da dele. João passou a mão sobre sua cintura ensanguentada em direção aos ombros e, por fim, alisou o vermelho do seu pescoço. Ela lhe deu os lábios azuis, e seus cabelos fizeram cócegas na têmpora de João. Ela parou, admirou-o.
- Eu te amo, Jacira...
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