Omissão.
Em ano de eleição.
Um candidato a vereador me abordou na rua apenas para me entregar seu material de campanha. Eu disse a ele:
- Amigo, eu não vou pegar, porque meu voto será nulo.
- Ora, se o senhor vota nulo, está se omitindo.
- Não! Isso vai depender da sua interpretação.
- Não, senhor. O amigo está se omitindo de fato. Depois não poderá reclamar.
- Claro que posso!
- Não, não pode! Já que não quer participar, terá melhor proveito se ficar em casa! Ir até o local de votação só para digitar um voto nulo na urna, para que isso? Fique em casa!
- Me diga: por que eu deveria ajudá-lo a conseguir um emprego na Camara Municipal do Rio de Janeiro que paga R$ 24.000,00 mensais de subsídio, R$ 165.000,00 de verba de gabinete, R$ 1.700,00 de vale-refeição, além de auxílio-transporte e combustível, custeio de passagens aéreas, telefone e auxílio para material de escritório... e cuja única exigência é um nada consta da delegacia? Por quê?
- Porque estamos numa democracia, as eleições estão chegando e eu sou um dos candidatos que podem fazer pela população melhor do que os que hoje lá estão.
- Fazer melhor o quê, senhor candidato? E do que eu preciso, neste momento, que os atuais vereadores não estão fazendo?
- A população precisa de segurança pública, saúde de qualidade, transporte que funcione, educação para as crianças... Tudo isso eu vou fazer melhor.
- Fazer melhor como? O seu currículo consta neste material? O senhor tem alguma formação jurídica? Sabe como redigir uma lei? O que o senhor entende de educação? O senhor é professor, por acaso? Em vez de me fazer ouvir suas promessas, convença-me da sua competência, do conhecimento que tem de saúde ou de transporte... ou seja lá do que for.
- Posso garantir ao senhor que, pelo menos, roubar eu não vou. Todos que me conhecem, e também conhecem a minha família, sabem que sou um homem honesto e venho de uma família honesta.
- O senhor agiu como político experiente: fugiu da questão embaraçosa. Tudo bem! Agora, se foi para se defender de algum ataque, garanto-lhe que esse não existiu. E digo mais: todo mundo pensa que o senhor é honesto até que se prove o contrário. Fique sossegado. Seja paciente comigo e ouça isto: se eu for de casa até o local de votação e deixar meu voto nulo na urna, estou ou não cumprindo com o meu dever de eleitor? Responda-me isso, por favor.
- Sim, está.
- Se obedeço à determinação da lei, tenho todo o direito de reclamar, como não? Se nos tivessem dispensado do dever de votar e tivessem decidido pelo voto facultativo, garanto que não estaríamos aqui discutindo este assunto. Vocês, políticos, não divulgam o voto nulo por interesse pessoal e proveito duvidoso, pois sabem muito bem que o voto nulo, assim como o voto válido, são escolhas legítimas e fazem parte do processo eleitoral. Se não fosse assim, tal voto seria automaticamente recusado por ser inválido. Querer negar o óbvio já começa por criar desconfiança.
Nesse instante ele interrompeu a minha fala para insistir, disse:
- Isto é omissão! Não votar em candidato algum é se omitir. Depois, vai reclamar de quem? Do concorrente, que não recebeu o seu voto, mas se elegeu? Com que moral?
- Com a mesma moral dos que tiveram voto vencido, que ajudaram um candidato de menor expressão, e o adversário, porém mais votado, foi quem conquistou a vaga. Ora bolas! Ouça mais isto, companheiro: para ganhar o meu voto não basta ser honesto, também tem de parecer honesto. Este é um princípio básico. E tem que mostrar que há muito tempo já convive com a causa que defende e que se empenhará para resolvê-la. A minha luta particular é combater a imoralidade dos políticos na apropriação pessoal e desonesta do dinheiro público a pretexto de ajuda de custo. Eles se enchem de penduricalhos e aumentam seus salários bem acima do limite constitucional - um verdadeiro deboche com o povo - e é justamente sobre isso que não ouvi o senhor falar. Sem demonstrar que está preparado para cumprir suas promessas, jamais receberá meu voto. Simples assim.
O que pode ser mais óbvio do que isso? Não encontrei candidato competente. Nenhum dos com quem conversei me convenceu de que cumprirá o que promete. Então, conscientemente, eu voto nulo.
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Na democracia americana, nossa referência de sistema político-eleitoral, o voto é "facultativo". Isso coloca a obrigação no lugar certo: sobre os ombros de quem pretende ocupar um cargo no governo. Cabe exclusivamente a eles o dever de procurar os eleitores para conversar, ainda que seja por telefone, apresentar-lhes quais são seus interesses, persuadi-los com suas propostas e estimulá-los a levar seu voto até a urna. É por meio desse método edificante que o eleitor americano decide para quem doar seu voto.
Agora vejamos o nosso "voto obrigatório": armadilha capciosa que degenerou o sistema eleitoral brasileiro por obrigar também os pobres a votar, e com isso puniu todos os eleitores, impondo-lhes toda a responsabilidade de procurar os candidatos, descobrir de onde vêm, conhecer as intenções deles, ouvir suas promessas de campanha, separar os mais bem avaliados e só então escolher um a quem entregar toda a sua confiança. Vale lembrar que não dá para confiar em desconhecidos.
Quem, em sã consciência, fará essa pesquisa num universo de dezenas de aspirantes anônimos distribuídos por 31 partidos? A maior parte da população não gosta de ler ou não tem tempo para isso, não tem dinheiro para comprar jornal e se informar, não tem computador nem sabe lidar com essa máquina. A maioria se levanta às cinco da manhã para trabalhar e chega em casa às oito, nove, dez horas da noite para descansar...
Definitivamente, eu já tomei minha decisão: anularei meu voto. Não conheço os pretendentes a vereador, e nenhum deles vêm pessoalmente a mim para uma conversa franca. No Brasil eles não têm essa obrigação.
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