O coração que enxerga
Por três anos, fui uma "mãe de bastidores". Nesse período, o tempo que passei fisicamente ao lado da minha menina não somou mais de noventa dias corridos. Para prover o nosso sustento, ganhei a estrada e confiei minha pequena à minha rede de apoio.
Perdi a primeira papinha, o primeiro passinho, a adaptação na escola. Dizem que essas são as estreias imperdíveis, as "conquistas clichês". Mas, se eu não estava presente naquelas, não medi esforços para estar em outras que viriam.
É verdade que eu não vi a primeira fruta, mas fui eu quem avistou o primeiro dentinho apontar naquele sorriso banguela. Também é verdade que eu não cuidei da sua primeira virose, mas já atravessei mais de vinte horas de estrada em um ônibus de viagem, de sul a sudeste do mapa, para embalar a sua febre ao canto de Aquarela.
Lembro-me da sua primeira apresentação escolar com muita gratidão. Você tinha apenas dois anos e o teatro estava mergulhado em um silêncio expectante de todas mães e pais presentes. Eu gritei a plenos pulmões: - Alice, a mamãe está aqui!
Seus olhos percorreram a plateia lotada sem me encontrar, mas o seu coração me achou. Mesmo sem me ver, minha voz te levou segurança e você brilhou! E assim tem sido em todas as suas apresentações.
Frequentemente me perguntavam se eu não tinha medo de que você não me reconhecesse. Por muito tempo, indaguei-me que tipo de gente faz esse tipo de pergunta. Depois, percebi: o questionamento não era sobre nós. Era sobre esses tais clichês que a sociedade dissemina sobre a "família ideal", a "mãe ideal" e a "mulher ideal" - aquela tal família de comercial de margarina, que sempre se mostrou em preto e branco para nós. A sociedade espera que o vínculo seja construído pelo olhar constante, mas, como diria a raposa ao Pequeno Príncipe, "o essencial é invisível aos olhos".
Hoje, após quatro anos "D.A." (Depois de Alice), percebo que, de tudo o que eu vivi, o que menos tive medo foi de não ser sua mãe ou de não ser reconhecida por você. O meu amor é capaz de transformar qualquer distância em centímetros. Passar esse último ano compartilhando o dia a dia e a vida ao seu lado é um dos presentes mais incríveis da minha existência nesse mundo.
Somos dois seres distintos - sempre fiz questão de que fosse assim, muito antes de imaginar que precisaria te deixar tão pequena aos cuidados dos teus avós. E é justamente essa individualidade respeitada que nos torna tão especiais uma para a outra.
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