Tema Acessibilidade

O coração que enxerga

Esta crônica obteve posição de destaque na 2a Edição do Prêmio Nacional Poiesis de Literatura de Crônicas - 2026, honrosamente ficando entre os semifinalistas.

Por três anos, fui uma "mãe de bastidores". Nesse período, o tempo que passei fisicamente ao lado da minha menina não somou mais de noventa dias corridos. Para prover o nosso sustento, ganhei a estrada e confiei minha pequena à minha rede de apoio.

Perdi a primeira papinha, o primeiro passinho, a adaptação na escola. Dizem que essas são as estreias imperdíveis, as "conquistas clichês". Mas, se eu não estava presente naquelas, não medi esforços para estar em outras que viriam.

É verdade que eu não vi a primeira fruta, mas fui eu quem avistou o primeiro dentinho apontar naquele sorriso banguela. Também é verdade que eu não cuidei da sua primeira virose, mas já atravessei mais de vinte horas de estrada em um ônibus de viagem, de sul a sudeste do mapa, para embalar a sua febre ao canto de Aquarela.

Lembro-me da sua primeira apresentação escolar com muita gratidão. Você tinha apenas dois anos e o teatro estava mergulhado em um silêncio expectante de todas mães e pais presentes. Eu gritei a plenos pulmões: - Alice, a mamãe está aqui!

Seus olhos percorreram a plateia lotada sem me encontrar, mas o seu coração me achou. Mesmo sem me ver, minha voz te levou segurança e você brilhou! E assim tem sido em todas as suas apresentações.

Frequentemente me perguntavam se eu não tinha medo de que você não me reconhecesse. Por muito tempo, indaguei-me que tipo de gente faz esse tipo de pergunta. Depois, percebi: o questionamento não era sobre nós. Era sobre esses tais clichês que a sociedade dissemina sobre a "família ideal", a "mãe ideal" e a "mulher ideal" - aquela tal família de comercial de margarina, que sempre se mostrou em preto e branco para nós. A sociedade espera que o vínculo seja construído pelo olhar constante, mas, como diria a raposa ao Pequeno Príncipe, "o essencial é invisível aos olhos".

Hoje, após quatro anos "D.A." (Depois de Alice), percebo que, de tudo o que eu vivi, o que menos tive medo foi de não ser sua mãe ou de não ser reconhecida por você. O meu amor é capaz de transformar qualquer distância em centímetros. Passar esse último ano compartilhando o dia a dia e a vida ao seu lado é um dos presentes mais incríveis da minha existência nesse mundo.

Somos dois seres distintos - sempre fiz questão de que fosse assim, muito antes de imaginar que precisaria te deixar tão pequena aos cuidados dos teus avós. E é justamente essa individualidade respeitada que nos torna tão especiais uma para a outra.

ESCRITO POR Tamara Macieira Pinto 3 textos
Direitos Autorais

© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor

Crônicas

O meu melhor comercial em preto e branco

Relato real e íntimo do nosso primeiro Dia das Mães. Reflito sobre o contraste entre a idealização da 'família comercial de margarina' e a valiosa realidade da nossa vivência em 2022, ressignificando o sonho da família tradicional. [Continue lendo.]
Publicado