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SER PAI

Hoje posso dizer: ser pai é uma experiência extraordinária. Talvez uma das experiências mais profundas e divinas que a vida pode oferecer a um homem.

Digo isso porque hoje sou pai. Mas não um pai por acaso, por probabilidade ou surpresa. Sou pai porque escolhi amar e, ao mesmo tempo, fui escolhido para ser amado. Escolhi cuidar, proteger, orientar e, sobretudo, tentar ser exemplo para aquele que Deus colocou em minha vida.

Deus é perfeito. E, na sua perfeição, concedeu-me, como a tantos outros homens, a missão de ser pai.

Talvez essa experiência tenha para mim um significado ainda mais profundo porque sou filho adotivo. Fui amado pelos pais que Deus colocou em meu caminho, e jamais poderia negar o esforço, a dedicação e o amor que recebi deles. Ainda assim, em algum lugar dentro de mim, consciente ou inconscientemente, existia o desejo de experimentar a continuidade da vida através de um filho.

Às vezes penso que o DNA também guardas silêncios. Como se dentro de nós existisse uma voz antiga procurando reconhecer-se em outro rosto, em outro sorriso, em outros gestos.

E então meu filho chegou.

Com ele, nasceu também um novo homem dentro de mim: o pai.

Mas ser pai não significa acertar sempre.

Quantas vezes fico pensando se tenho falhado nessa nobre missão! Quantas vezes prometi a mim mesmo que faria diferente daquilo que vivi e que tantas vezes entristeceu o menino que um dia fui.

Descobri, entretanto, uma das coisas mais difíceis da paternidade: amar também é saber dizer NÃO.

Mesmo quando tudo dentro de nós deseja dizer SIM.

O "não" também protege. O "não" também educa. O "não" estabelece limites e prepara nossos filhos para um mundo que, certamente, não lhes dirá sim o tempo inteiro.

E talvez aí esteja uma das minhas maiores dificuldades.

Muitas vezes, quando preciso negar algo ao meu filho, não estou apenas diante dele. Viajo pelo túnel do tempo e encontro o menino que fui. Reencontro minhas frustrações, minhas tristezas, meus medos e tudo aquilo que um dia desejei e não pude ter.

Então percebo quanto ainda tenho a aprender.

Ser pai é encontrar o equilíbrio entre o SIM que acolhe e o NÃO que prepara para a vida.

Hoje também consigo olhar para trás e compreender melhor o meu próprio pai.

Quantas vezes pensei que ele estivesse errado! Quantas vezes senti medo! Houve momentos em que sua forma de corrigir deixou marcas em meu corpo e, principalmente, em minhas lembranças.

Naquele tempo, eu não conseguia compreender.

Via apenas a dureza.

Via o medo.

Via a autoridade de um homem que acreditava que respeito se conquistava pela imposição.

Talvez ele também tivesse aprendido assim.

Talvez tenha recebido de seu próprio pai aquilo que depois, sem perceber, reproduziu conosco. Eram outros tempos, outra compreensão de educação, outra maneira de exercer a autoridade paterna.

Isso não torna correta a dor que senti. Mas o tempo ensinou-me algo precioso: compreender não significa apagar o passado; significa impedir que a dor seja a única lembrança que permaneça dele.

Os anos passaram.

Eu cresci em estatura, experiência e, espero, em sabedoria.

E meu pai envelheceu.

Aquele homem que um dia me parecia tão grande, tão forte e até assustador tornou-se um senhor frágil diante dos meus olhos.

E foi justamente naquela fragilidade que comecei a enxergá-lo de outra maneira.

Já não via apenas o pai severo da minha infância.

Via um homem.

Um homem com suas limitações, seus medos, suas próprias histórias e, certamente, suas próprias feridas.

Então compreendi que, apesar de todas as suas imperfeições, ele era o pai que Deus me dera.

Era o meu pai.

Era, à sua maneira, o meu herói.

E hoje, quando já não posso abraçá-lo, percebo quantas coisas gostaria de ter feito diferente.

Gostaria de ter amado mais.

Gostaria de ter abraçado mais forte.

Gostaria de ter permanecido mais tempo ao seu lado.

Gostaria de ter compreendido antes aquilo que somente os anos conseguiram me ensinar.

Principalmente, gostaria de ter dito muitas outras vezes:

- Obrigado, pai!

Obrigado por sua existência.

Obrigado por sua história.

Obrigado até mesmo pelas suas imperfeições, porque elas também me ensinaram o homem e o pai que desejo ser.

Talvez essa seja uma das maiores lições da paternidade: quando nos tornamos pais, começamos também a compreender nossos próprios pais.

Hoje tento oferecer ao meu filho aquilo que aprendi com os acertos e também com os erros que fizeram parte da minha história.

Não quero ser um pai perfeito.

Quero apenas ser um pai presente.

Um pai capaz de abraçar, orientar, corrigir, dizer SIM quando for possível e dizer NÃO quando for necessário.

Quero que meu filho saiba, enquanto eu estiver aqui, aquilo que talvez eu tenha demorado demais para dizer ao meu próprio pai:

Eu amo você.

Porque um dia os filhos crescem.

Um dia os pais envelhecem.

E um dia fica apenas a saudade.

Por isso, enquanto houver tempo, abracemos nossos pais. Abracemos nossos filhos. Digamos aquilo que sentimos.

Não deixemos para amanhã o abraço que podemos dar hoje.

Porque as marcas do corpo desaparecem com o tempo. Algumas lembranças também se transformam. Mas há uma coisa que permanece:

o amor que fomos capazes de deixar uns nos outros.

E se hoje eu pudesse encontrar novamente aquele homem que envelheceu diante dos meus olhos, abraçaria seu corpo já cansado, olharia demoradamente para ele e diria aquilo que meu coração ainda repete, mesmo sabendo que ele já não pode me responder:

OBRIGADO, PAI, POR EXISTIR EM MINHA VIDA!

ESCRITO POR Fernando Pacheco 2 K leituras
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