O PESO QUE NÃO VEM DE DENTRO (Crônica)
Acordei cansado. Não aquele cansaço de quem correu uma maratona, trabalhou doze horas seguidas ou passou a noite em claro. Era um cansaço diferente. Pesado, sem motivo aparente, como se tivesse carregado pedras o dia inteiro sem sair do lugar.
Fui ao médico, pesquisei sintomas, li artigos. "É depressão", diziam. "É ansiedade, precisa de remédio, precisa descansar". Mas eu descansava. Dormia oito horas, comia bem, fazia o que gostava. E mesmo assim, ao fim de cada dia, me sentia esvaziado. Como um copo que alguém segura inclinado, sempre derramando, sem nunca conseguir se encher.
Demorou um tempo para perceber: o problema não estava dentro de mim. Estava ao meu redor.
Havia sempre alguém que chegava sorrindo e saía me deixando sem ar. Alguém que só aparecia quando precisava, que falava só de si, que ouvia sem escutar, que tomava um pouco da minha calma, da minha paciência, da minha alegria - e nunca devolvia nada. Pessoas que não fazem mal de propósito, talvez nem percebam, mas que vivem como se fossem esponjas secas: se encostam em você e sugam tudo o que encontram pela frente.
Não era tristeza. Não era medo. Era simplesmente ter dado demais, para quem não tinha nada para oferecer além de demanda. Era abrir a porta da minha energia e deixar que ela saísse, sem ninguém nunca trazer de volta.
Hoje eu entendo: nem todo peso é doença. Às vezes, é só gente que pesa. Às vezes, não é a mente que está doente - é a companhia que drena sem perceber. E a cura não está na pílula, não está no silêncio do quarto. Está em aprender a fechar a porta. Em dizer "não" sem culpa. Em reconhecer que cuidar de si também significa afastar-se de quem, sem maldade, nos esvazia pouco a pouco, até que não sobre mais nada.
Porque você não está doente. Você é uma fonte que alguém está bebendo até secar. E fontes precisam de repouso para jorrar de novo.
(Divacy Lemos: o Poeta dos Sonetos)
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