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O Realejo e a Donzela

Neste Conto, vemos a história da Gildinha. Professora e donzela que resolveu seguir à risca o "conselho" do realejo.

O Realejo e a Donzela

Existem algumas coisas que só vendo. Não dá para acreditar somente em ouvir falar. Não, não estamos falando de alguém cético ao extremo. Gildinha até que crê em muitas coisas que lhe contam. Com os seus quarenta e dois anos de idade, e ainda solteira, a moça se orgulha de ter despachado muitos moços que tentaram com ele uma relação "sem futuro". - Isso não, ou você assume um compromisso sério ou nada feito. Essa era quase que invariavelmente a frase que usava para mandar às favas o espertinho que quisesse iludi-la com conversa fiada.

Como acontece sempre, havia alguns que achavam que Gildinha estava equivocada. "Se continuar agindo assim, vai ficar para titia". Diziam alguns mais próximos. Ela, convencida, não estava nem aí para aquelas opiniões. Ou era do seu jeito ou não havia conversa e muito menos namoro.

Se Gildinha era feia? Até que não. Nem baixa, nem alta; nem magra, nem gorda; nem morena, nem loira; olhos nem castanho, nem negros; nariz nem adunco, nem arrebitado. Já sei, você não conseguiu imaginar como de fato como ela é. Então vamos combinar o seguinte; posso afiançar que ela não é feia, nem bonita. Tá bom assim?

Ah, e quanto as características cognitivas da moça? Agora sim, estamos tratando de uma donzela letrada. Gildinha é professora primária em sua Cidade. Das melhores da região. Já ganhou inclusive menção Honrosa da Câmara dos Vereadores do Município. Isso na época em que namorava o Élcio sapateiro – o vereador mais votado naquele ano, mas, isso não vem ao caso.

Pode parecer intriga ou até mesmo maledicência da nossa parte. Fato é que Gildinha era motivo de orgulho do Magistério em sua Cidade. Então, vocês poderiam me perguntar: Mas afinal, como uma moça com tantos predicados, ainda estaria solteira? Oh gente maldosa, porque tanta preocupação com o estado civil da moça? Tá bom, tá bom, fui eu quem começou com esse assunto de namoro. Eu reconheço.

Então, como remissão, vou contar os fatos desde o início. Assim, vamos entender as razões do rigor da moça ao se deparar com um pretendente inseguro.

A história remonta há alguns anos atrás. Uns quatro anos para ser mais preciso. Naquela época, Gildinha já era professora. Ocorre que a escola em que ela lecionava, organizou uma excursão para os alunos. Daquelas excursões que muitos de nós sabe bem a principal razão. Era para uma cidade pequena próximo a sua cidade. O atrativo era um parque de exposições que acontecia anualmente. Havia rodeio, exposição de gados, cabras, cavalos e implementos agrícolas. Uma verdadeira festa com parque de diversão para as crianças, muitas barraquinhas de comidas, doces e shows com palhaços da região.

Como parte da organização da excursão, ficou estabelecido que todos os professores e algumas mães de alunos deveriam ir. Estas últimas para auxiliar na disciplina e cuidados com os menores.

Tudo organizado, na data marcada seguiram viagem. Umas duas horas era o tempo de estrada.

Chegaram na cidade por volta das dez horas da manhã. Tudo perfeito, conforme planejado. Ficou acordado que embarcaria de volta às dezessete horas. Assim, daria para visitar todas a exposição com folga. Como toda boa organização, fizeram um pré-roteiro a ser seguido. Cada professor cuidaria da sua classe. Havia de tudo. Barracas com diversos tipos de alimentos, muitos jogos infantis e sobretudo muitos animais. Alguns jamais vistos por aquelas crianças.

Gildinha, muito ciosa da responsabilidade com as crianças, quase não olhava muito as atrações. Estava sempre atenta aos alunos. Nunca tirava os olhos dos pequenos.

Assim, foi passando o dia até que lá pelas tantas, surge algo que chama a atenção da professora Gilda. Ah, sim, esse era o seu nome. Gilda Rosa Maciel. Desde a infância era chamada de Gildinha. Coisas de madrinha.

Mas afinal, o que chamou tanto a atenção da dedicada professora? Um Realejo. Isso mesmo, havia a certa altura da exposição, um senhor que tocava seu realejo como ninguém. Aquela melodia encantou a moça. Na verdade, ela sabia do que se tratava, mas, nunca havia encontrado pessoalmente aquele instrumento tão antigo, que somava à música, ainda que simples, a fantasia da sorte tirada por um pássaro. No caso; um periquito multicolorido e muito carismático.

O realejo funciona da seguinte forma: O senhor toca uma manivela acoplada a uma caixa de músicas, produzindo um som inconfundível. Geralmente são clássicos da música mundial. A partir daí, o mesmo senhor abre a porta de uma pequenina gaiola e dá o comando para que o pássaro saia e retire da caixinha um papelzinho onde consta uma mensagem surpresa. Caberá então ao agraciado com aquela mensagem da sorte, depositar em outra caixinha uma quantia em dinheiro à título de gratidão.

Gilda pede então para uma mãe que olhe as crianças enquanto ela vai até o realejo. Era a realização de um sonho antigo. Atendendo então ao comando do senhor, o pássaro sai da casinha e tira o bilhetinho da sorte. Gildinha ainda meio encabulada com a situação, pega o tal papelzinho, desdobra e lê. A mensagem era meio enigmática, mas, trazia uma recomendação clara.

"Não se deixes enganar com falsas promessas. Fuja daquele que vacila diante de ti".

A moça coloca sua contribuição na caixinha e feliz, volta para junto das crianças. Naquele dia, por várias vezes, Gildinha leu aquele papelzinho. Doravante, estava selada sua conduta com os rapazes.

Carregando o tal bilhetinho até hoje em sua carteira, Gilda tomou como lema aquela recomendação. Daí, os moços que chegam perto dela com atitudes vacilantes são despachados de imediato.

Quanto a nós, que gostamos muito da moça, nos resta torcer para que, quem sabe um dia, aquele realejo volte a cidade e o pássaro dê a ela outra mensagem, agora, mas complacente e tolerante. Até lá, Gildinha permanecerá solteira e donzela.

ESCRITO POR Ronaldo |Conde Um texto
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