"CUIDADO" ( Não é sobre cobras)
Cuidado: não é sobre cobras
Cresci ouvindo o aviso, dito com tom sério, antes de cada passo para o quintal, para cada caminho que levava ao mato: "Cuidado!". E na minha cabeça de menina, aquela palavra era sempre, só e exclusivamente, sobre cobras. Cuidado para não pisar onde elas se enrolam ao sol; cuidado para não levantar a pedra onde elas dormem; cuidado com o silêncio entre as folhas, porque é ali que elas se escondem, prontas para o bote.
Eu cresci acreditando que o perigo tinha escamas, língua que se move rápido e um som de alerta. Aprendi a olhar para o chão, a medir cada passo, a ter medo do que rasteja. E foi assim, com os olhos sempre baixos, que não vi o que realmente deveria ter me preocupado.
O primeiro aviso não veio de uma cobra, veio de uma pessoa que eu confiava. Uma palavra dita com um sorriso, que cortou mais fundo que qualquer dente peçonhento. Depois vieram as outras: as promessas que se desfaziam como fumaça, os abraços que escondiam interesse, as palavras doces que tinham gosto de veneno quando se provava a verdade. E eu, que sabia identificar cada espécie de cobra do meu terreno, não soube reconhecer o perigo que vinha de pé, falando meu nome, dizendo que me amava.
Um dia, voltei ao mato onde brincava quando era pequena. Vi uma jiboia descansando sobre uma pedra, tranquila, sem fazer mal a ninguém. Fiquei parada, observando, e percebi algo que nunca me disseram: as cobras só atacam quando se sentem ameaçadas. Elas não procuram ninguém. Elas têm o seu lugar, e respeitam o nosso, enquanto não invadimos o delas. O veneno delas é para a sobrevivência, não para a maldade.
Foi naquele momento que entendi: o aviso "cuidado" nunca foi sobre elas. Era sobre nós. Sobre os olhares que julgam sem conhecer, sobre as palavras que ferem sem motivo, sobre as mãos que puxam para trás em vez de ajudar a avançar, sobre as mentiras que se disfarçam de verdade, sobre as pessoas que sugam a nossa luz como se tivessem o direito de levá-la.
Cuidado não é só com o que rasteja no chão. É com o que se disfarça de amizade, de carinho, de atenção. É com quem te faz duvidar de si mesmo, com quem recebe o seu melhor e devolve ingratidão, com quem fala bem na sua frente e mal nas suas costas. O perigo nem sempre tem escamas e sombras. Muitas vezes ele tem rosto conhecido, voz suave e um sorriso que parece seguro.
Hoje, quando digo "cuidado" para quem eu amo, não falo das cobras. Elas sabem viver no seu mundo, e nós devemos saber viver no nosso, cada qual respeitando o limite do outro. O verdadeiro cuidado é outro: é prestar atenção no que não se vê de imediato. É aprender a reconhecer o que faz mal antes de se aproximar demais. É saber que o veneno mais perigoso não está nos dentes de um réptil, mas nas intenções escondidas por trás de um coração que não é verdadeiro.
Cuidado, sim. Mas não tenha medo das cobras. Tenha atenção com quem diz ser seu amigo e não age como tal. Porque as cobras, quando você as respeita, nunca te mordem sem motivo. Já as pessoas… às vezes, elas ferem, e nem sequer sentem remorso.
(Divacy Lemos: o Poeta dos Sonetos)
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