COMO VOU ACREDITAR NO SER "HUMANO" ATUAL?! (Crônica)
Caminho pelas ruas, observo os olhos que passam apressados, e a pergunta me vem, pesada e insistente: como vou acreditar no ser humano de hoje?
Vejo telas acesas brilhando mais que os olhos das pessoas. Vejo palavras duras lançadas com a mesma leveza com que se joga um papel ao chão. Vejo gente falando de amor, mas agindo com indiferença fria. Vejo quem poderia estender a mão, mas prefere cruzar o braço. E a dúvida cresce: onde está o humano no ser humano?
Dói ver que muitos confundem força com frieza, sucesso com individualismo, e que "cuidar" virou quase uma palavra antiga, difícil de pronunciar. Dói ver que o outro, tantas vezes, virou apenas um obstáculo, um número, uma notícia que passa e logo se esquece. Parece que o coração foi sendo deixado de lado, como uma peça que já não serve.
Mas - e há sempre um mas - paro, e vejo diferente.
Vejo quem divide o pão mesmo quando tem pouco. Vejo quem ouve com calma, sem pressa de responder. Vejo mães que não descansam, amigos que aparecem sem ser chamados, desconhecidos que seguram a porta, que ajudam a levantar, que doam um pouco de si sem pedir nada em troca. Vejo gente que chora com o choro alheio, que canta mesmo triste, que acredita quando tudo parece sem sentido.
Esses também são humanos. São os que não gritam, não se exibem, não fazem barulho. São os que fazem pequeno, mas fazem de verdade. São a parte que não aparece nas manchetes, que não viraliza, mas que segura o mundo todos os dias.
Então, a pergunta muda. Não é mais se posso acreditar no ser humano. É em qual eu escolho crer.
Posso escolher ver os que endureceram - e eles existem, sim. Mas também posso escolher enxergar os que ainda mantêm o coração macio, os que escolhem o bem mesmo quando custa, os que sabem que ser humano não é perfeição, mas tentação de amar.
O ser humano atual não é um bloco só. Ele é feito de escolhas. E todos os dias, a cada gesto pequeno, a cada gentileza que ninguém vê, alguém resgata a nossa fé. Não na humanidade como um todo, de uma vez. Mas uma pessoa de cada vez.
E isso, isso já é suficiente para continuar acreditando.
(Por Divacy Lemos: o Poeta dos Sonetos)
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