MINHA FAMÍLIA – CAPÍTULO 2
Foi naquela família que vivi muitos momentos de grande felicidade. Cheguei àquela casa ainda bebê e nela cresci até os meus 13 anos de idade. Enquanto criança, não percebia muitas das coisas que aconteciam ao meu redor. Para mim, importava apenas que eu vivia em uma espécie de paraíso, isolado do restante do mundo.
Graças ao apoio de meu padrinho Crispim, que trabalhava na Receita Federal, localizada em frente à casa de meu pai, pude estudar no Colégio Pequeno Príncipe, que atualmente não existe mais. Também estudei no Colégio Muniz Falcão, cujo fardamento, no início, me deixava sem jeito. Com o tempo, fui me acostumando e permaneci lá até o momento de iniciar o antigo curso primário, na Escola Estadual Ladislau Neto, onde estudei até a 4ª série.
Lembro-me de meu pai, José Mariano. Ele já era idoso, gostava de uma pinga e tinha o costume de mascar fumo. Como bom cearense, recordava com frequência os momentos vividos em sua terra natal. Minha avó Iza também era cearense e, com muito saudosismo, lembrava de sua terra e dos familiares que haviam ficado por lá.
Naquela casa nunca faltou o que comer. A comida era farta e minha avó era muito prendada na cozinha. Ali também se vendiam café e pão aos clientes, e eu nunca percebi qualquer reclamação quanto à nossa vida simples.
Até aproximadamente os meus 12 anos, não compreendia nada a respeito de minha adoção, apesar de pessoas da vizinhança relatarem episódios e fazerem comentários sobre o assunto. Eu simplesmente os ignorava.
Eu fui uma criança muito feliz.
Tudo era aventura. Tudo se transformava em motivo para exercitar a criatividade e inventar brincadeiras que, ainda hoje, gostaria que todas as crianças tivessem a oportunidade de viver.
Lembro-me de que até as estações do ano pareciam determinar nossas brincadeiras. Havia a época de soltar pequenos barcos feitos à mão, quando disputávamos para saber quem construía o melhor barquinho com as sobras de isopor que encontrávamos.
Existia também a época do "Carrego", uma brincadeira feita com pilhas usadas. Nós as arremessávamos umas contra as outras e, dependendo das batidas, fazíamos os pagamentos com um "dinheiro" improvisado, confeccionado com carteiras de cigarro.
Havia ainda a época de pegar gaivotas para verificar seus anéis de identificação, sempre com a esperança de encontrar alguma premiada e levá-la à Capitania dos Portos, que até hoje funciona nas proximidades.
O inverno também era um período de muita felicidade.
Quando chovia, o velho Salgadinho carregava para o mar tudo aquilo que era jogado em suas águas. Sabendo disso, quando a chuva parava, íamos ao seu encontro para procurar restos de brinquedos. Em nossas mãos, tudo aquilo ganhava uma nova vida. Com criatividade, o que para outras pessoas poderia ser apenas lixo transformava-se em brinquedos e grandes aventuras.
Era o nosso mundo.
Entretanto, no início da minha adolescência começaram a surgir rumores de que teríamos de deixar aquele lugar onde havíamos crescido. Diziam que o futuro estava chegando e que, com ele, o nosso pequeno mundo seria transformado.
Começava, então, uma nova caminhada. Cedo ou tarde, eu descobriria que aqueles rumores se tornariam realidade.
Ainda criança, antes de meu batismo, meu padrinho Crispim, que mantinha uma relação amorosa com minha mãe, mudou meu nome para Fernando. Fui batizado com esse nome. Em meu registro, constaram como pai meu avô José Mariano e, como mãe, minha avó Iza.
Mas uma das primeiras grandes tristezas da minha vida ainda estava por chegar.
Certo dia, minha mãe Francisleuda chamou-me para conversar. Foi então que me contou que a pessoa que custeava meus estudos, meu padrinho Crispim, havia falecido.
Naquela mesma conversa, revelou-me também uma verdade que mudaria profundamente a maneira como eu enxergava minha própria história:
eu era, de fato, filho adotivo.
Naquele momento, saí correndo desesperadamente pela areia da praia, sem rumo e sem destino.
Era uma dor profunda e indescritível.
Eu não havia perdido apenas meu padrinho, uma importante referência em minha infância. A sua morte veio acompanhada da confirmação de tudo aquilo que, durante tantos anos, eu ouvira das pessoas e escolhera simplesmente ignorar.
Naquele dia, uma parte da minha infância terminou.
A praia continuava a mesma. A casa nº 18 continuava lá. O Jaraguá continuava sendo o lugar onde eu havia aprendido a brincar, sonhar e viver.
Mas, dentro de mim, alguma coisa havia mudado para sempre.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários