"O PRESENTE DE OITO DIAS "
"O Presente de Oito Dias"
Ela partiu. Foi-se devagar, como quem sai de uma casa onde viveu muito, levando consigo histórias, afetos e todo o amor que semeou por aqui. O silêncio que ficou pesa, sim. A cadeira vazia fala mais alto que tudo. Mas, entre a dor e a saudade, havia algo que eu não esperava: um gesto, um sinal, um presente deixado para trás.
Deixou-me oito dias. Oito dias de parar. Oito dias de respirar fundo. Oito dias de afastar do trabalho, das obrigações, do corre-corre que não cessa nunca. A lei chama de licença-nojo, mas eu prefiro ver de outro jeito: ela me deu esse tempo. Tempo para chorar, para lembrar, para agradecer, para me recolher.
Porque, às vezes, a vida nos empurra tão rápido que nem percebemos o quanto precisamos parar. E foi na partida dela que o mundo, de repente, fez uma pausa. Oito dias não apagam a falta, não preenchem o espaço que ficou. Mas me dão espaço para sentir sem pressa. Para olhar para trás e ver tudo o que ela foi para mim. Para orar, para descansar o corpo e a alma cansada.
Não é um prêmio, não é uma folga comum. É um intervalo necessário. Um momento em que o trabalho pode esperar, as tarefas podem esperar, porque o coração precisa de tempo para se reerguer. Ela que sempre cuidou de mim, mesmo sem falar, agora me deu esse tempo para cuidar de mim mesmo.
Quando esses dias acabarem, voltarei. Voltarei com ela guardada no peito, com as lembranças como tesouro, e com a certeza de que o amor não termina, só muda de forma. E esses oito dias? Ficam como um abraço que ela me deixou: "Descanse, meu irmão. Eu estou bem. E você também vai ficar."
Oito dias de descanso. Oito dias de saudade. Oito dias de amor que não se despede, só segue em outro lugar.
(Divacy Lemos/o Poeta dos Sonetos)
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