A bicicleta homicida.
Minha tia vendeu a casa de praia dela e me deu de presente a bicicleta que ela usava para se exercitar todas as vezes que passava fins de semana à beira-mar. Desde que chegou, essa bike ficou meses a fio pendurada na parede da cobertura que tenho nos fundos do meu quintal ao lado da garagem, abandonada mesmo e sem manutenção. Eu não tinha o menor interesse de dar voltas com ela, até que, num feriado prolongado do calendário, levantei cedo da cama e vi que o único pão na despensa era o integral. Decidi correr à padaria, pois deu vontade de comer um pão francês crocante, do tipo que acaba de sair do forno. Antes, porém, preparei e liguei a cafeteira para que, ao voltar, o café já estivesse pronto.
Pensava de sair num pé e voltar no outro, porque desejava assistir o Bom Dia Brasil, prestes a começar, com as novidades de falcatruas e corrupções na política que muito me interessava saber. Deixei, inclusive, o televisor ligado na copa. Retirei o camelo da parede, empurrei-o até o meio-fio na rua e, sem conferir o seu estado de conservação - apenas espanei manualmente a poeira no assento -, montei no selim, duro e desconfortável, aprumei-me para descer a via e, mal pressionei o pedal para fazê-lo girar, senti que a magrela estava mais pesada do que o normal. Ao conferir os pneus, constatei o dianteiro murcho, não completamente, e vi que o traseiro estava totalmente vazio. A exclamação escapuliu sem eu raciocinar: - Já começou a estragar o meu dia!
O comércio estava fechado e não abriria. Olhei a rua de um lado para o outro, de cima a baixo, avaliando os moradores - todos nós éramos cria do local - e não me ocorreu um único vizinho que tivesse uma bomba de ar, ainda que fosse para encher bola de futebol, visto que eu estava decidido a bater na porta de quem quer que fosse para pedir auxílio, lembrando que, quando é para incomodar, eu já chego rindo.
Sem alguém com quem eu pudesse contar, resolvi pedalar até o compressor de ar no posto de gasolina mais próximo. Para não sacrificar os pneus nem danificar os aros da bicicleta, desci a estrada abaixo em pé sobre os pedais para equilibrar meu peso entre uma roda e outra e segurava os freios com o devido cuidado; passei batido pela confeitaria sem sequer olhar para os lados. Depressa cheguei à área plana do bairro, entretanto, até o posto faltavam ainda mais dois quilômetros para percorrer. Agoniado com o passar dos minutos e a possibilidade de perder o telejornal, segui pedalando com muito esforço para fazer as rodas girarem, isso porque a bike pesava uma tonelada e meia em cada pedal, um verdadeiro atentado ao meu estado físico; cheguei ao posto exausto, ofegante, passando mal.
Aproximei-me do compressor, mas, na pressa, nem me dei conta de primeiro regular a pressão do ar no aparelho e aprumei o camelo contra uma coluna ao lado, retirei a tampa da válvula do pneu da roda traseira, puxei a mangueira de ar e pressionei para encaixá-la no bico destapado. Mal acertei a conexão, levei um baita susto ao ver a câmara de ar saltar para fora do pneumático feito um balão, seguido de forte estampido; por um triz ela não estourou.
- Só me faltava essa! - Isso era eu resmungando sozinho.
Levantei-me e saí a caminhar em volta, procurando algo no chão, qualquer coisa que eu pudesse usar para esvaziar a câmara de ar. Foi aí que topei com um palito de fósforo, era justo o que eu precisava. Aquele serviço fácil, no final, tornou-se maçante e tomou bastante do meu tempo.
Estressado, principalmente ao constatar de já ter perdido o horário sagrado do noticiário, montei na magrela sem outra preocupação que não a de voltar para casa; fiz novo trajeto dessa vez. Detalhe: apesar dos pneus estarem cheios, a bike continuava pesada e dificílima de pedalar. Subi por uma avenida reta e quase plana até chegar bem próximo do meu destino; dali entrei numa rua íngreme com uns cem metros de subida não muito inclinada, no entanto, suficiente para sequestrar todo o meu fôlego. E, nessa mesma ordem, segui por um novo trecho plano, quando, enfim, alcancei o meio-fio diante da rua onde moro. Parei, com o corpo trêmulo, exsudando em gotas e com sensação de desmaio. Avaliei o percurso restante a fazer; preferi aguardar alguns minutos para me recuperar e, depois de um intervalo, só consegui subir a rua caminhando, porque usei o camelo como bengala de apoio. Do contrário, nem de quatro, engatinhando, eu seria capaz de vencer a distância até o alto daqueles terríveis 120 metros à frente, um quarto da extensão da rua, mas que nunca foi tão comprido.
Não sei quanto tempo me custou até alcançar a entrada de casa; só me recordo de que cheguei praticamente sem vida. Encostei-me de lado no portão da garagem, abri uma das bandas e, com muita dificuldade, consegui empurrar a magrela assassina para dentro; ela caiu fazendo barulho sem que eu, devido ao meu esgotamento físico, sequer tivesse dito um palavrão, e que fosse, de preferência, daqueles escolhido a dedo para desintoxicar a alma. Sempre escorado entrei e fechei a passagem; apoiado de costas eu sentia as minhas pernas bambas, sem coordenação e carente de equilíbrio; mirei a amurada da casa e me lancei contra ela. Caminhei claudicando e roçando a parede por todo o corredor até a copa e, lá chegando, desabei no chão frio, de costas, tonto, transpirando, sem forças... Abri os braços e fechei as pálpebras, morto, semimorto ou quase morto, sei lá.
Imagino que estive em coma por mais de meia hora e, durante esse período, o café, pronto bem antes de eu chegar, continuava evaporando na cafeteira; já o televisor, ligado desde quando eu saí, apresentava outro programa que não o meu preferido; enquanto a minha mãe, ainda deitada no seu quarto, nem tomou conhecimento dos fatos. Deixei a cerâmica quente sob o meu corpo, levantei-me e me joguei debaixo de uma ducha de água fria.
Depois disso, nunca mais andei de bicicleta, nem tenho vontade. E quanto a essa, a referida, não me pergunte qual fim ela levou. Não tenho a resposta.
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