Matriz de Camaragibe: a presença africana e afrodescendente
Matriz de Camaragibe e a presença africana e afrodescendente.
A cidade de Matriz de Camaragibe é um município do Nordeste brasileiro, localizado na Região Norte do estado de Alagoas, com 25 mil habitantes, de acordo com o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 2022, a 75 Km da capital Maceió. Faz divisa com os municípios de Novo Lino, Joaquim Gomes, São Luís do Quitunde, Porto Calvo, Passo de Camaragibe e Porto de Pedras. Está encravada entre os históricos canaviais da região.
É inegável que sua origem histórica se dar com os indígenas Wassú Cocal e Potiguaras nessa região que compreende atualmente os municípios de Matriz de Camaragibe, Novo Lino, Joaquim Gomes e Colônia Leopoldina, que carregavam forte herança linguística raíz/tronco Tupi, por esta razão o nome 'Camaragibe', derivado de 'camarás', ou 'abundância dos camarás', em referência os pequenos arbustos de plantas, que nasciam às margens do rio, com flores multicores.
No século XVI, Cristovão Lins inicia sua obra na construção de engenhos de açúcar, um deles o Buenos Aires aqui em Matriz, utilizando a mão de obra indígena na região que compreende Matriz de Camaragibe e Passo de Camaragibe, pertencentes a freguesia de Porto Calvo e a Capitania de Pernambuco, uma das famosas Capitanias Hereditárias, implantadas como model administrativo para colonizar e proteger o território brasileiro, em 1534.
Com a diáspora africana, ocorrida durante todo o período do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil entraram aproximadamente seis milhões de africanos escravizados, entre os séculos XV ao XIX, principalmente da região africana da atual Angola. Foi considerável o número de pessoas de origem bantu, da região do Congo para o trabalho escravo nas lavouras da cana-de-açúcar no Brasil e em Alagoas. Pelo fato de serem os primeiros povos a chegarem, o fluxo migratório foi bastante expressivo em ralação a outros povos do Continente africano, como os povos iorubá/nagô, posteriormente, mesmo com a Lei nº 581/1850, de 04 de setembro, a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico negreiro.
Mesmo assim, nesse contexto do tráfico negreiro, a presença negra no litoral norte do Estado de Alagoas no século XIX, deu-se por meio da clandestinidade nos Morros de Camaragibe por mais de dez anos, onde eram desembarcados, fazendo jus a cultura das pescas e de outras heranças africanas, por exemplo a argila, barro que serve para fazer louças encontrada nesta região, de Matriz de Camaragibe até a Rota dos Milagres.
Essas pessoas e seus descendentes tiveram sua cultura dominada e massacrada, mesmo assim não perderam o desejo da luta pela liberdade e no anseio de buscar diversas formas de resistência à opressão.
Essa população escravizada foi aos poucos substituindo a mão de obra indígena, que aqui já existia, com uma rotina diária no plantio, colheita e moagem da cana de açúcar, na casa grande dos seus senhores, trabalhos pesados e dolorosos... e no fim do dia, eram trancafiados nas senzalas.
Uma das formas de resistência foi a formação de quilombos, em destaque o Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, Estado das Alagoas, expressivamente no que se refere as influências cultural, social e política. Palmares existiu ativamente de 1597 á 1694, foi o maior das Américas, teve sua representatividade dentro do cenário de pessoas escravizadas no Brasil, liderado ao longo de sua existência por Acotirene, Ganga Zumba, Aqualtune, Dandara e por último Zumbi, este sendo o maior líder da história negra no país.
Sua organização política e social era dividida em pequenos grupos, denominados 'mocambos', os quais reuniam entre 10 e 30 mil pessoas, que formavam o Quilombo do Palmares, construído nos moldes de sua pátria de origem, a 'Mãe África', e com uma economia agrícola diversificada e um fortalecimento militar treinado para o combate e a defesa do Quilombo, chamado de 'Angola Janga', ou seja, 'Pequena Angola', onde reinava o anseio de luta por Liberdade e Igualdade.
A influência cultural e religiosa angolana moldou práticas linguísticas, introduzindo vocabulários como o quimbundo (língua de origem bantu, nativa de Angola), por exemplo, que era o dialeto africano falado em Alagoas. Também na culinária. No Período Colonial as mulheres africanas e seus descendentes, conduziram a preparação dos alimentos, utilizando ingredientes específicos como o azeite de dendê, o jiló, a galinha-d'angola, o quiabo, o maxixe entre outras iguarias da culinária africana na sociedade alagoana. São heranças que ainda mantém preservadas rituais, ritmos, musicalidades e saberes ancestrais.
De acordo com a história local, foi feito uma doação de um pedaço de terra localizado em um dos engenhos de açúcar, pertencentes aos irmãos Pimentel, a saber: José de Barros Pimentel e Brites Pimentel, ao Senhor Bom Jesus no dia 24 de maio de 1686, no dia 25 de maio deste mesmo ano, igreja em Matriz de Camaragibe concretiza sua fé católica com a construção do templo, em homenagem ao santo, que tinha sua capela no Alto do Oiteiro, hoje conhecida como Alto do Cruzeiro, no século XVII, onde havia também um convento dos frades franciscanos.
A estrutura arquitetônica da igreja Matriz do Senhor Bom Jesus e suas enormes paredes de pedras pesadas, carregadas, assentadas e lapidadas, as madeiras cortadas das árvores das matas e da mesma forma, carregadas... em tudo isso houve o trabalho escravizado dos nossos antepassados.
Sua conclusão durou quatorze anos, em 1700, mas seus construtores, os negros escravizados, que trabalharam duro a custas de sofrimentos e violência não puderam nela entrar, por causa do racismo, da diferença social e de outros preconceitos, foram excluídos. E foi aí que tiveram a ideia de construir uma igreja que pudessem entra, fica de frente. Depois de construída deram em honra de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Lá podiam assistir as missas.
Os fatos acontecem para mostrar o objetivo escuso de uma sociedade preconceituosa, que quer a todo custo apagar da memória de mais de 500 anos de escravidão em nosso país, da presença africana nesta terra, a herança ancestral a essência identitária afrodescendente alagoana e matrizense.
Nos livros já publicados sobre Matriz de Camaragibe, contam-se fatos ditos verdadeiros e acontecimentos importantes que elevam a sua história e sua origem, assim como a presença e os feitos de famílias abastadas e bem sucedidas, seus nomes e sobrenomes e memórias eternizadas hoje por seus sucessores.
No entanto, esqueceram de colocar em suas obras o trabalho e a força daqueles que, de fato fizeram acontecer e crescer os engenhos de açúcar, as igrejas católicas, os serviços braçais de pessoas escravizadas. Com a exploração da mão de obra da monocultura da cana de açúcar, dos transportes de mercadorias e materiais para as construções, afazeres domésticos entre outros, provam dessa forma a presença de africanos escravizados, dada a proximidade geopolítica com o Quilombo dos Palmares.
Nas minhas lembranças juvenis, recordo-me com muita nitidez de ouvir minha tia Marina, irmã de minha mãe, contando entre muitas histórias que ouvia de seu pai (meu avô materno) dizer que em Matriz quando ainda "era engenho de açúcar, nasceu uma menina preta, mas de olhos azuis e cabelos bonitos, pretos e lisos, pois nascera de um dos filhos dos donos do engenho com uma escrava", declarou ela. E segundo minha tia Marina, e logo depois confirmado por minha mãe Luiza, a mãe dessa menina, viria a ser a avó de meu avô, Antônio Pedro, cuja descendência ocupou por primeiro a antiga Rua dos Coqueiros, atual Rua Major Luiz Cavalcante.
Infelizmente a história de Matriz de Camaragibe é contada e escrita a partir de um olhar escravocrata e dinástico, vislumbrando apenas as memórias dos brancos senhores de engenhos e pertencentes ao quadro aristocrático português.
Nas pesquisas e nos estudos históricos e geográficos baseados em livros de pesquisadores como Douglas Apratto Tenório, alagoano e renomado estudioso da história das Alagoas, pude deduzir e é muito provável que Zumbi dos Palmares, ao sair de Porto Calvo, de volta à Serra da Barriga tenha passado por Matriz de Camaragibe, pelo fato de o rio Camaragibe e suas matas fechadas servirem de rota de fugas em direção ao Quilombo, pois Matriz era área de acesso os mocambos de Palmares. Isso também ocasionou frequentes revoltas locais e fugas planejadas para aquela localidade.
Douglas Apratto, em uma de suas publicações relaciona a presença de africanos e seus descendentes a economia dos engenhos dos engenhos de açúcar através do trabalho braçal forçado de homens e mulheres escravizados, tornando-se a base de toda a riqueza agrícola, às margens do rio Camaragibe, onde hoje localiza-se a cidade de Matriz de Camaragibe.
Outra referência importante na visão do historiador é a transmissão de saberes técnicos medicinais e culinários no dia-a-dia da comunidade, nas práticas ancestrais perpetuadas, como as rezadeiras e as parteiras. Outro fator relevante dentro do contexto histórico da presença africana nesta localidade são os cultos de matriz africana, que criaram raízes profundas na Zona da Mata, por exemplo. Em Matriz de Camaragibe, o sincretismo religioso e as tradições africanas e afro-brasileiras construíram festejos populares, ritmos e a religiosidade local que insistiram e resistiram às várias tentativas de apagamento cultural e religioso.
O "racismo ambiental" é outra forma de apagamento da raíz africana e afrodescendente no litoral norte de Alagoas, onde muitas comunidades tradicionais, como pescadores, estão sendo expulsos de suas terras por causa do avanço de empreendimentos turísticos e da especulação imobiliária, deixando vulneráveis milhares de famílias, que dependem da pesca para sobreviver.
Mesmo sendo comprovada a presença de africanos angolanos em Matriz de Camaragibe, que está ligada diretamente ao sistema econômico da região e pela história de resistência negra, não há registros de formação de comunidades quilombolas, justamente por causa da evasão em massa desse povo para o Quilombo. O que há hoje são pessoas descendentes de escravizados ou afrodescendentes que fazem parte de famílias comuns, de acordo com o IBGE (Instituto de Geografia e Estatística 2022).
A desigualdade, o racismo e as injustiças não se dissolveram com a "abolição", porque foram séculos de exploração e domínio das forças braçais humanas, de sistemas negacionistas, porém a herança ancestral e a identidade afrodescendente permanecem hoje arraigadas no sangue do povo negro, nas manifestações culturais, religiosas e artísticas do Vale do Camaragibe.
Outrossim, afirmo veementemente que para fazer valer a luta por igualdade e justiça nesta terra de Matriz de Camaragibe, bem como em todo o território brasileiro, por todo o sangue indígena e africano derramado neste chão, se faz necessário políticas públicas mais eficazes e leis penais mais rigorosas contra a discriminação (em especial a discriminação de cor), promover projetos educacionais antirracistas nas escolas (envolvendo toda a comunidade escolar), para desconstruir estereótipos, começando pelos professores, que infelizmente, muitos ainda carregam essa herança maldita deixada pelos nossos colonizadores, o preconceito, e deixam de ser agentes ativos de intervenção quando necessário, e colabora com a negligência, que gera exclusão, e por fim, garantir que mais grupos de minorias ocupem espaços de trabalhos.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários