O difícil parto da "Sapiranga"
Não era um sonho surreal e a ninguém deve caber o desprezo do próprio sonho. Ele, adolescente, com cerca de dezessete anos de idade, e já de posse de muitos conhecimentos de Mecânica, obtidos no curso técnico da então Escola Técnica Federal de Alagoas, perdia-se em frequentes devaneios no vislumbre de algum dia construir um veículo de baixa potência, baixo consumo e que lhe conferisse, ao contrário do que faria as motos, razoável segurança. Em sua mente, geminava e agigantava-se a semente desse alentado material onírico. Dispunha de tempo, faltava-lhe dinheiro.
O passar dos anos proporcionou-lhe ganhos monetários suficientes para sua sobrevivência e a da sua família, estes auferidos através da atividade de empresário no ramo de parafuso e congêneres. Pessoa de hábitos singelos, seus recursos financeiros são usados com parcimônia e metódica racionalidade, o que lhe oportuniza dar vazão a seus hobbys, dentre eles, o de aventurar-se nas trilhas, muitas das quais ele mesmo desbrava, na companhia de amigos cúmplices, montado num 4 x 4; outro notável hobby é o de comprar carcaças de carro, cuja servibilidade, no julgamento do senso comum, seria tão-somente para o ferro velho.
Não se furtara em dividir seus mais remotos sonhos com os amigos e deles recebia permanente estímulo à consecução de tais. A construção do desejado veículo não seria meramente o exercício de diletantismo, uma vez que seria útil para transportá-lo, de forma econômica, ao trabalho. Passara a antever os passeios vespertinos, às margens da Lagoa Mundaú, contemplar-lhe a bucólica beleza na hora do ocaso. Em suas elucubrações, a população da orla lagunar passaria a esperar a inexprimível aparição do “bigodão” – como é conhecido -, pilotando a sapiranga. Mas qual o quê! O entrave passara a ser tempo, não mais dinheiro.
Em resposta à curiosidade dos amigos, explicou-lhes que o nome sapiranga adveio de seu genitor. Este estaria a consertar sua Vmag, quando vira a esposa, sua mãe, com um problema na pálpebra. Dissera-lhe, então, Seu pai: “vai logo, fulana, procurar tratamento médico antes que fique com olho de sapiranga”. Decidira, mesmo sem saber seu real significado, que com sapiranga batizaria sua futura invenção.
Tal qual o Professor Pardal, ele costuma criar brinquedos para os netos com material reciclável e faz muitos arranjos para as necessidades cotidianas da casa; é ele quem conserta seus próprios carros, inclusive. Seu neto mais velho há muito não se angustia com uma avaria em seus brinquedos industrializados, pois sabe que a habilidade do Vovô Pardal entraria em ação. Esse neto, com três anos e já apaixonado por carro, mercê da influência do avô, cobrou-lhe a gestação completa da sapiranga.
“Se um carro popular dispõe de, em média 60 HP, a minha sapiranga terá 9, meu neto!” - sentenciava. A partir de um diferencial (uma peça responsável por transmitir às rodas o movimento do motor do carro, com o objetivo de que estas girem com velocidades distintas nas curvas) encontrado por ele num ferro velho, inicia a concretização do sonho. Seu formidável poder criativo fez nascer um autêntico frankstein: pneus e motor de motocicleta, peças da Volks, da Fiat, buzina de padeiro, afogador improvisado com marcha de bicicleta; a partida localiza-se, inusidatamente, em sua parte traseira. Conta-se até que durante a construção da geringonça algumas forminhas de empada desapareceram do armário da cozinha. Pois bem, ele havia atribuído a elas outra funcionalidade: a de calotas para a sapiranga.
Todo ancho com seu invento, sentado num banco de cor “azul calcinha”, conforme ele próprio define, faz a sapiranga, garbosamente, desfilar nas passarelas da Barra Nova. Seu sonho, ainda que tardiamente, estava materializado sobre charmosas rodas!
O parto foi a fórceps, mas a sapiranga nasceu saudável e faceira!
(Publicada em O Jornal, edição de 28/04/2012)
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