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ZE PEDRO E CECÍLIA: UMA PAIXÃO SECRETA

Zé Pedro está no ponto de ônibus, esperando a condução até sua casa, após mais uma jornada de trabalho. Observa as pessoas ao seu lado e percebe que são praticamente as mesmas de todos os dias, à exceção de uma senhora que lhe parece familiar. Não é possível, pensa ele, será que esta é a Cecília, do colegial? A garota mais bonita da escola e a mais desejada, também. Todos os meninos queriam namorar-lhe e ela não dava bola pra ninguém. Não é possível, martelava ele; e se perguntava onde estavam as belas pernas, a cintura violão, a meiga face de menina-moça e o sorriso ingênuo, temperando com uma ponta de malícia, que lhe davam um ar de doce diabinho. O tempo não perdoa e roubara de Cecília toda a beleza que lhe dera o título de miss colegial, reflete Zé Pedro. Mas será que é ela mesma? É sim, reconhece. Só pode ser, pois, apesar da mudança, os traços do rosto lhe denunciam. É ela mesma, sentencia. E Zé relembra que era apaixonado por ela, mas não tinha coragem de declarar o seu amor. Afinal de contas, se tratava de Cecília, a doce e bela Cecília, ou miss Cecília, como a tratavam os mais chegados. Certamente, não teria nenhuma chance.

Só pra ter a certeza, Zé a olha de relance, na esperança de que ela também o reconheça e fale consigo, mas, em vão; a senhora parece ignorar a sua presença. Não lhe reconheceu, admite. Afinal, já se passou muito tempo e, além disso, naquela época, ela quase não notava a sua presença, pensa Zé Pedro, meio que irresignado, mas lhe veio o castigo; a então miss Cecília, agora era quase um dragão, pensa ele, sem esconder um sorriso de vingança que lhe escapa entre os lábios.Seu ônibus chegou. Zé Pedro vai pra casa.

Enquanto isso, Cecília pensa com seus botões: Meu Deus, ainda bem que Zé Pedro foi embora. Tive receio de cumprimentá-lo, para que não ficasse com vergonha. Que estado deplorável! O cara está desfigurado, quase careca, barriga quebrada, pernas finas.Meu Deus, que horror. E pensar quem um dia eu fui caidinha por ele. Só nunca lhe falei, porque não teria chance, afinal, era o Zé Pedro, o galã da escola, relembra ela. Agora tá aí, feio que parece um bicho, diz ela baixinho, sem conter um arzinho de vingança, por não ser correspondida em seu secreto e platônico caso de amor. Seu ônibus chegou. Cecília também vai pra casa.

 

(Sander Dantas Cavalcante)
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