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Em um desses domingos...

O espectro do que fora a árvore a mantém ainda de pé entre telhados e prédios. Tediosa em sua ressequidão, ela é só a lembrança da mobilidade, e do metabolismo que no pretérito e só nele, agora referido, houvera habitado. Exposta à insensibilidade, esquece-se do viço e da seiva e o que eram folhas, são agora distorções que suportam a indiferença do assobio dos ventos, à memória dos últimos dias, aqueles, quando os pássaros foram-se embora para nunca mais voltar. 

Calaram-se de uma só vez todos os cantos, ou foram-se calando aos poucos, da vez que o respirar se ausentava da folhagem? Lembra-se, porém, o último bem-te-vi, que chegando ao telhado vizinho, enxergara desolado, o silêncio e a tristeza que emudecera seu cantar,  e soubera então que aquilo era um presságio. Vira, que a vez de petrificar-se em extrema rigidez, chegara ao vegetal. Lembra-se, também, a mulher, que da sua varanda, ao chegar para morar ali, assistira a árvore frondosa ser a mãe de seus frutos. Eu a vejo como uma aparência vã, talvez, se de olhá-la, contemplar apenas seu tédio e deixar fora de mim, o lamento que pertence à mulher, ou ausentar-me à memória do bem-te-vi, que vira naquele momento, na ferrugem das folhas, o fim dos galhos e o crepúsculo da árvore.

Ao que vejo, minha vista se ressente e se escarça em fissuras e fibroses. Filamento-me pelos caminhos da alma, e a seiva que  me percorre as artérias,  verga-me todos os dias, sob dores que não são as minhas. Castigam-me saudades alheias e castiga-me o fado de distribuir pedaços da alma que é minha, por sobre tais insípidas imagens do mundo. Desfolho-me, como em outubro se desnudam as craibeiras, até que me possa salvar, a reminiscência da árvore à história dos seus dias. Ao fantasma que assisto, maculado, só a imodéstia de que estimo uma obra de arte, sucederá ao meu desejo de que se tenha tornado. 

ESCRITO POR Goretti Brandão 32 K leituras
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