Sem papas na língua.
Seu Hélio tem certa facilidade para dizer o que pensa para as pessoas, mesmo que lhe sejam desconhecidas. Ontem à tarde ele foi à padaria comprar pão para tomar café, escolheu caminhar até a Mais Pão, onde duas moças atenciosas trabalham no balcão, e, durante o percurso, ele foi matutando com seus botões: será que as vendedoras disputarão a vez para me atender?
Vou explicar isso melhor: seu Hélio tem consciência de que não é do tipo esbelto e elegante e, para compensar, procura ser educado e generoso; seus 20 anos já vão longe, então cultiva o espírito jovem e se esforça para ser simpático com todos. Dito isso, acho que fica fácil, agora, entenderem a reflexão que ele fazia antes de entrar na panificadora.
Pois bem, mal pisou no batente para adentrar a loja, percebeu, pelo olhar de uma e da outra, que elas o viram chegar e mantiveram a compostura, agiram como se ele fosse um freguês qualquer. O que não deixa de ser verdade. Ele fingiu ignorar a indiferença das duas, mas, ao se aproximar do balcão, livrou-se da fantasia e demonstrou que não tem papas na língua, e disse tudo de supetão mesmo, para afrontar as moças.
- Gente, tendo em vista que o comércio está fraco e as lojas sem compradores, eu entrei supondo que vocês fossem ficar felizes em me ver aqui para gastar. Em vez da felicidade esperada, olha só o que eu encontro! Vocês sequer me recepcionaram com um sorriso! Amparado na minha recatada inocência, eu achava que fossem disputar no tapa a preferência de me servir, de alegrar o cliente; acreditava, inclusive, que fossem chegar ao ponto de puxar os cabelos uma da outra por minha causa. É verdade! Confesso que vinha mesmo preocupado em ter que separar as duas; no entanto, encontro esse clima de fleuma e passividade, parecendo que eu nem estou aqui. É muita decepção isso! Conseguem perceber?
- Tentem imaginar o sentimento de frustração que levarei de companhia na volta para casa!
- Tudo bem, vai passar - disse, de si para si mesmo, e em voz alta, para que elas pudessem ouvi-lo.
E enquanto ele simulava querer estimular o ânimo malogrado, sabe o que foi que aconteceu após o ouvirem? Elas caíram numa risadaria irrefreável. É sério!
A Regina, que acatou seus pedidos, separou tudo sem parar de rir um minuto. Já a Ivani, que arrumava uma prateleira sob o balcão, sorria incontrolavelmente; viu quando ele pagou a conta, chamou-o e proferiu em agradecimento: - Seu Hélio, volte sempre! E continuou contraindo os músculos da face por conta da alegria.
Antes de ir embora ele pegou sua sacola de pães e respondeu em tom de ameaça: - Eu volto mesmo! Não pensem que vocês se livrarão de mim assim tão facilmente, não, tá!
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