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O Cafezinho e o Amargo da Indiferença

Isso não é apenas sobre café.

Algumas bobagens do cotidiano, quando observadas com vagar, têm o poder de se transformar em longas reflexões. Foi exatamente isso que me aconteceu outro dia, pego de surpresa por uma daquelas armadilhas filosóficas que nascem de cenas banais - nesse caso, envolvendo o nosso tradicional cafezinho. Sim, ele mesmo: o valoroso, indispensável e simbólico cafezinho, tão presente em nossa cultura.

Tudo começou com uma simples parada no posto para abastecer a moto, a caminho do trabalho. Enquanto esperava, distraído, notei algo curioso: do outro lado da via, um mecânico da oficina vizinha saboreava o café oferecido no pátio do posto. Ele não era cliente, apenas um passante que se aproximou - talvez por hábito, talvez por necessidade - e se serviu. E ninguém o impediu.Foi aí que me ocorreu: o cafezinho, em lugares como postos de gasolina, oficinas, clínicas, repartições públicas e tantos outros ambientes de trabalho, não é apenas uma bebida. Ele é um gesto. Um símbolo silencioso de acolhimento. Uma pequena, mas poderosa, forma de dizer: "você é bem-vindo aqui".


Em muitos desses espaços, o cafezinho está lá, à disposição de todos - clientes, trabalhadores, visitantes ocasionais. E, mais do que isso, ele cumpre um papel social. É uma cortesia que aquece corações, que quebra silêncios, que aproxima.


No entanto, há lugares em que esse gesto falta - e sua ausência grita. Já trabalhei em uma repartição na qual, para se tomar café, era preciso contribuir com uma vaquinha. O resultado? Um café ralo, adoçado até a borda, feito às pressas, como se o excesso de açúcar tentasse mascarar o amargor de uma política mesquinha, onde partilhar parecia pesar mais do que acolher.


E é aí que está o ponto: negar um cafezinho é mais do que não oferecer uma bebida. É não entender o valor da gentileza cotidiana. É falhar no básico da convivência. Pode parecer insignificante, mas diz muito sobre a cultura de um lugar, sobre como se enxerga as pessoas que por ali passam ou permanecem.


No fim das contas, não é sobre o café - é sobre o cuidado. E quem não é capaz de oferecer nem um cafezinho, provavelmente não tem muito mais a oferecer.

ESCRITO POR Zé de Quinô 20 K leituras
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