QUEM PENSA QUE VÊ CARA, NÃO CONHECE O CORAÇÃO DO BRASILEIRO.
Há muitas formas de tentar entender o brasileiro. Nos últimos dias, me deparei com uma situação que me levou a refletir profundamente sobre esse tema tão complexo. Fui apresentado a um texto escrito por uma adolescente do Ensino Médio intitulado "A Cara de Pau do Brasileiro", que apresentava a visão da jovem sobre o que ela se propôs a chamar de malandragem. Obviamente, sua análise era frágil, mas trazia em si a repetição irresponsável de um velho clichê: a de que todo brasileiro é corrupto por natureza, que já nascemos com esse suposto "desvio" de caráter.
No entanto, o problema maior não foi o texto em si – afinal, ideias em formação podem e devem ser conduzidas –, mas o fato de ele ter sido utilizado como material de formação por um professor, em um curso de formação continuada para docentes. Isso, sim, me pareceu profundamente delicado. O referido professor, após escolher a crônica, não apenas a leu para o grupo, como também se declarou concordante com a tese da autora, que poderia ter sido sua aluna. Ele chegou ao ponto de descrever algumas de suas próprias práticas, supostamente para "endossar" o que a estudante havia dito em suas breves linhas. Eis o que considero verdadeiramente perigoso: a cristalização de um preconceito sob o manto da autoridade.
Não é de hoje que reflexões rasas e mesquinhas tentam explicar que o brasileiro é, naturalmente, portador de uma ética desviante. Os exemplos são sempre os mesmos: furar filas, comprar diplomas ou carteiras de motorista, utilizar indevidamente a fila preferencial. Esses atos, isolados e condenáveis, são levianamente batizados de "jeitinho brasileiro", distorcendo por completo um conceito que diz outra coisa. Esse "jeitinho" distorcido, é sempre associado ao que se descreve como uma "cultura da malandragem", distorcendo, por sua vez, também o conceito de malandragem, que é muito mais complexo.
Aos que tomam essas generalizações como verdades absolutas, sugiro que olhem de outro lugar o que é ser brasileiro. Permito-me, então, a apresentar alguns exemplos que vivi recentemente. Na semana passada, estava na fila do mercado com apenas alguns pães. Um senhor à minha frente, com o carrinho cheio, virou-se e, com um gesto sereno de gentileza, pediu que eu passasse à frente, considerando que meu atendimento seria algo breve. Há alguns meses, voltando da Capital à noite, estourou o pneu do meu carro. Em menos de cinco minutos, um homem parou seu carro e, sem que eu precisasse pedir, praticamente fez sozinho a troca do pneu. Ah, e durante um período em que trabalhei como vendedor ambulante, não consigo contar as vezes em que pessoas me ofereceram almoço, frutas ou as iguarias de suas roças enquanto eu visitava sítios e povoados distantes.
Sinto que ações como essas, simples e cotidianas, raramente são pesadas na balança antes que se faça a generalização negativa e violenta de se referir ao brasileiro como um povo "cara de pau". Lamento profundamente esse tipo de interpretação reducionista. Pois quem se apressa em teorizar sobre a "cara" do povo brasileiro, com certeza, não consegue escrever uma única linha sobre seu coração acolhedor e fraterno.
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