O DIA FINAL
Carlos estava andando pela cidade, observando o dia a dia das pessoas. Todos caminhavam para lá e para cá. Atravessam as ruas, por entre os carros, uma grande correria. O cotidiano se desenhava a sua frente, era sempre a mesma história, pessoas tendo que lidar com suas rotinas, suas conquistas e derrotas.
Sonhos e desejos, alguns realizados, outros deixados para nunca mais serem lembrados. Sorrisos e lágrimas, alegria e tristeza. Cada um com sua própria guerra de vida, batalhas vencidas e perdidas. Era um dia comum, na vida daquele senhor, que deveria ter pouco mais de 60 anos.
Era sua rotina, caminhar pela cidade, observando como as vidas seguiam seus rumos. Moças e rapazes, crianças e idosos, todos com seus afazeres. Lojas e restaurantes, símbolos do consumismo, desenhando a sociedade, que precisa de se vestir e de se alimentar Grandes construções, simbolizando a diferença de classes.
Todos eram atendidos, havia espaço para que pudessem seguir seus caminhos. Com exceção, daqueles que a vida lhe tirou tudo, incluindo a oportunidade de ter dignidade. Eram os que moravam nas ruas, eram invisíveis, imperceptíveis, ignorados pelos que tem uma casa para morar. Negligenciados, só podiam contar com a sorte, de ter mais um dia para viver, mesmo que, muitos deles, esperassem receber uma visita da morte, o mais rápido fosse possível.
As casas enfileiradas, umas muito simples, outras mostrando que seus moradores tinham uma situação financeira mais elevada.
Carlos não conhecia a maior parte dos moradores dali. Desde que perdeu sua esposa, vítima de um infarto, seus dias eram assim, apenas observar como a vida seguia seu curso.
Foi um casamento duradouro, quase 40 anos de união.
Os filhos, já criados, seguiram seus próprios caminhos. Dois homens e uma mulher, casados, bem-sucedidos, tudo era a recompensa de uma história de luta e sacrifícios, para que nada faltasse para a família.
Marta morrera há 8 anos, foi uma perda irreparável, que nunca pôde ser superada ou mesmo amenizada.
Carlos sentia a dor de ter perdido o amor de sua vida. Essa ferida, jamais poderia ser cicatrizada.
Continuou sua jornada, com suas atenções voltadas para os netos, com quem ele tinha alguns momentos de alegria.
Carlos já não sabia o significado de felicidade. Estava inconformado por ter se tornado viúvo. Acreditava que, por ser mais velho que a esposa, deveria ter morrido antes. Ninguém é capaz de prever, como a vida segue seu curso, quais serão as conquistas e as perdas. Se Carlos tivesse a chance, teria trocado de lugar com sua amada. Mas, como o futuro não pode ser previsto, também não pode ser mudado.
Nas caminhadas, Carlos passava pela igreja central da cidade, entrava, fazia suas orações e prosseguia em suas observações sobre a vida.
Analisava como as pessoas pareciam estar distantes umas das outras.
Cada um tinha suas próprias lutas, seus desafios, seus modos de enxergar a vida, que seguia seu curso.
O futuro não pode ser previsto, mas todos querem ter o poder de mudar suas histórias, revisitar o passado e fazer algo diferente.
Consertar o que foi quebrado, emendar algumas pontas soltas, encaixar algumas peças nos espaços certos. Tudo para ter esperança de dias melhores. Na maior parte do tempo, vivemos entre o que passou e o que ainda estar por vir, e esquecemos de viver o presente, de encarar a realidade que está a nossa volta. Tentamos sair da realidade, para nos escondermos em ilusões, fantasias que inventamos, para tornar nossas vidas menos amargas.
Tudo que tinha certeza, era que o vento iria tocar sua face, os pássaros iriam cantar, as flores teriam seu ciclo: nascer, gerar frutos, para depois morrer. Precisamente nessa ordem, talvez esse, seja, o único futuro previsível.
De tudo que está vivo, um dia terá que morrer.
Isso é a vida: conversas, barulhos dos carros, crianças chorando, pais ficando nervosos.
Uns vendendo, outros comprando. Seguimos nosso caminho, sempre tentando consertar o que foi feito no passado, tentando prever o futuro, esquecendo de viver o presente. Sabendo que, por mais que possamos ser diferentes uns dos outros. Ricos e pobres; brancos, pretos ou amarelos; a morte é o que nos torna iguais. Seja homem ou animal, todos temos o mesmo destino.
Com dinheiro ou sem dinheiro, apenas a grandiosidade dos túmulos, é capaz de fazer diferença, entre os que já morreram. Todo o resto, é igual.
Amigos se reunindo, namorados marcando encontros especiais. Crimes, gestos de boa vontade.
Pessoas nascendo, outras morrendo.
Assim como aconteceu com Marta, todos terão que cumprir seu ciclo de vida. Essa é a estrada pela qual todos caminham. Muitos acreditam ser diferentes, melhores em vários aspectos.
Mas, o fim de todos, é a morte.
O poder de tornar todos iguais
Morrer é a única coisa que iguala ricos e pobres, velhos e jovens, homens e mulheres. A morte é a balança que nunca pende para um lado. Pessoas podem morrer de maneiras diferentes, ser enterradas em covas comuns ou em grandes mausoléus. Tudo isso, só representa que o tempo terminou.
E se todas as pessoas nasceram, é certo que vão morrer.
O dia, ninguém é capaz de saber, cada um de nós segue por seus atalhos de vida. Esses caminhos, sempre dão em uma estrada maior, e a direção, é sempre a mesma. Por mais que você faça curvas, ou tente caminhar de maneira diferente, não poderá escapar, de onde essa estrada termina.
Carlos estava nesse caminho há mais de 60 anos. Os últimos 8, foram responsáveis por tê-lo feito perder a vontade de seguir em frente, ele queria que sua jornada terminasse, o quanto antes, fosse possível.
Porém, não iria romper com o ciclo da vida. Por mais que não quisesse viver, Carlos tinha a intenção de respeitar a vontade do tempo.
Seu único pedido, de todas as noites, antes de dormir. De todas as manhãs, quando abria os olhos, era que seus dias não fossem longos. Que sua jornada, não durasse mais que o necessário, mesmo que ele não soubesse, qual seria sua importância, para a vida de outras pessoas.
Isso pode parecer egoísmo, Carlos queria fazer companhia a sua amada.
Seus filhos já estavam criados, eram independentes. Seus netos, assim como não tem mais a avó, não poderiam ter o avô para sempre.
Estava exausto, já tinha cumprido sua parte que lhe cabe no ciclo da vida.
Por muitos anos, trabalhou para proporcionar o que havia de melhor para a esposa e para os filhos.
Acreditava não ter mais nada para fazer, queria que o fim estivesse próximo.
E o tempo teve fim
O lugar preferido de Carlos já estava próximo.
Trata-se de um banco, que fica em uma praça, com arvores grandes, um jardim bem cuidado. Era o lugar em que famílias se encontravam para falar de seus dias. Pais levavam os filhos para andar de bicicleta e fazer novas descobertas. Os casais usavam aqueles bancos para namorar. Amigos se sentavam ali para falar de coisas banais, era um lugar de descanso.
Na maioria das vezes, o banco preferido de Carlos, estava vago. Era um mais afastado, em um cantinho aconchegante.
Durante a noite, poderia ser ocupado por aqueles que queriam um encontro mais íntimo, mas com o dia claro, era abandonado por completo, pois não era apropriado para apreciar toda beleza que a praça proporcionava. Aquele era o lugar preferido de Carlos, até chegar naquele banco, ele já tinha observado tudo que a praça tinha de bonito, via as pessoas caminhando, contando histórias, fazendo brincadeiras, rindo, às vezes chorando.
Alguns liam livros, outros ouviam músicas em seus smartphones modernos.
O que não era visto, eram os senhores com seus jornais. Nem mesmo ele, pois perdera esse hábito. Ler jornal nas praças, parece ter sido vencido pelo tempo e pela tecnologia, que proporciona outras maneiras de se informar sobre o mundo.
Alcançou o banco, sentou-se e começou a refletir sobre sua vida, que já durara mais de 60 anos. Era como se fosse um filme, com comédia, drama, momentos felizes e outros tristes. Dor e alegria, vitórias e derrotas. Aquele senhor estava satisfeito com tudo que havia feito. Era preciso fazer só alguns retoques, para que sua história, pudesse se tornar invejável.
Carlos se virou, viu que sua amada, estava a seu lado. Ele não se assustou, percebeu que seu tempo estava terminando, seu desejo estava sendo realizado.
O amor de sua vida, foi responsável por buscá-lo e levá-lo para um lugar melhor.
- Você foi um bom homem, um bom marido, um bom pai, um bom avô.
Fez tudo que estava a seu alcance, para proporcionar o que acreditava ser o melhor para todos que estivessem ao seu redor.
É chegado o momento meu amor.
Seu tempo teve fim.
Seu ciclo está completo.
- Marta!
Como é bom te ver, você está linda, como sempre foi.
Senti sua falta, não queria ter vivido longe de você.
Foi um tempo difícil.
- Essa é a vida, a gente não decide o que quer, ou como as coisas vão acontecer.
Simplesmente, acontece.
Como você vê, todos os dias em suas caminhadas, a vida segue seu curso natural. E o tempo de Carlos acabou, sua jornada estava completa. Em seu lugar preferido, para refletir sobre a vida, seu corpo se entregou a morte. O senhor, apenas abaixou a cabeça e completou seu ciclo. Partiu de maneira natural, sem sofrimento, ao lado de sua amada, que veio em seu encontro, para dizer que sua missão havia sido cumprida.
Como tudo tem um começo, deve ter um fim, porque ninguém recebeu a maldição de viver eternamente.
Carlos pôde apreciar a beleza de todas as coisas.
Seu desejo foi atendido e seu tempo, não durou mais que o necessário.Dizem que, um dos sinais de que antecede a morte, é a necessidade de agradecer as pessoas por alguma coisa, que mereça um obrigado.
Não posso afirmar que isso seja verdade.
O que posso dizer, é que, nesse momento, não há ninguém que mereça meu agradecimento.
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