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Talvez isso seja sobre mim

Trecho do livro: Não é sobre o que penso, mas como gostaria que fosse pensado

Quando eu era jovem, mais jovem do que sou hoje, acreditava que poderia fazer tudo. Cada descoberta me fazia sentir ainda mais forte, eu era o super-herói de mim.

Era um período sem grandes dificuldades, não havia muito o que ser pensado, apenas a descoberta de algo novo, foi meu foco de vida. Era interessante como não via maldade nas pessoas, imaginava que cada um vivesse assim como eu, mergulhado em um mundo de descobrimento e aventuras.

Cresci sem conhecer meu pai. Se o tiver visto, foi em algum momento da vida que não me lembro. Talvez, no momento desse encontro, fosse muito pequeno e não pude guardar nenhuma lembrança em minha memória.

É bem provável que tenha acontecido diferente e, por algum motivo, que não se possa explicar, decidi ignorar sua figura e acredito não ser interessante fazer qualquer menção de seu nome.

Imaginando poder fazer tudo, e a grande maioria dos jovens pensa que isso é uma verdade, seguia meu caminho sem muito o que pensar de futuro. Ainda estava na fase das descobertas e não tinha muito compromisso com os dias que iriam se suceder.

Sempre acontecia uma coisa ou outra que estava fora de meus planos de super-herói. Um puxão de orelha e, raramente, uns tapas de minha mãe, não estavam equiparados a grandeza que eu julgava ter.

Esse mundo de descobertas, e tudo que eu imaginei estar sob meu controle, foi atingido duramente com uma decisão, da qual não puder fazer parte, ou emitir qualquer opinião a respeito.

Falo do dia em que minha mãe se casou, acho que esse foi o primeiro casamento dela, pois nunca tive o interesse de saber se ela teve alguma relação afetiva com meu pai, além do fato deles terem me feito.

Quando minha mãe decidiu se casar, não fui consultado sobre essa decisão. Isso me fez parecer fraco.

Como alguém decide sobre um assunto que irá impactar uma vida, sem antes consultar o vivente afetado sobre isso? Era algo muito injusto de se fazer.

A decisão foi tomada à revelia de mim, não fui ouvido, questionado, consultado, nem ao menos informado sobre o casamento.

Com esse acontecimento, percebi que ninguém pode ser herói de si e que existem fatores que vão interferir em seu mundo de descobertas e ilusões.

O pior nisso tudo, é que tinha 13 anos, quando minha mãe inventou essa história de casamento. Com meus 13 anos, eu exigia, mesmo que para mim, que um assunto como esse, deveria ter sido debatido de forma mais aprofundada.

Em meus pensamentos, eu fazia afirmações de que minha mãe não poderia ter feito isso sem me ouvir, sem saber o que eu achava, afinal, durante 13 anos, era só eu, meu mundo de descobertas e minha mãe.

Vivemos muito bem sozinhos, durante esse pouco mais de uma década, não era necessário que uma dupla, viesse a se tornar um trio.

A partir dessa decisão, sem que eu tivesse sido consultado, tive a minha primeira lição humana de grande importância. Percebi, com esse exemplo banal, que as pessoas tomam decisões, que vão afetar a vida de outros, sem que haja um entendimento entre todas as partes.

Decisões que vão afetar a vida de centenas, milhares ou milhões, são tomadas diariamente por um número restrito de pessoas, são aqueles que detém o poder, que vão direcionar nossos caminhos.

Mesmo hoje, quando não sou tão jovem como era antes, o fato de poucos decidirem por muitos, me parece, um tanto quanto, injusto e descabido. Somado a isso, que é o maior dos problemas humanos, vem as decisões de grande impacto.

Em algum momento da história, uns poucos decidiram que era preciso vender pessoas para que trabalhassem até morrer. Durante séculos, homens e mulheres foram arrancados de seus países, de suas culturas, de suas vidas e levados para lugares onde seriam forçados a trabalharem sem direito algum.

Essa decisão foi tomada por poucos, mas que, afetaram milhões.

No meu mundo de ilusões, imaginava que, por menor que fosse a decisão a ser tomada, todas as partes que estariam envolvidas, deveriam ter o poder de opinar.

Por menor que fosse o que estava sendo decidido, sempre tinha a ideia de que deveria haver um diálogo, em que todos pudessem expressar seus pontos de vista.

Depois fui aprender que essa ideia de ouvir a maioria, sobre alguma demanda, deram o nome de democracia, e que essa característica humana vem de muito tempo, e que a democracia pode ser feita através da política, e que a política é um trabalho exercido para a discussão de ideias, que serão úteis para a maior parte de toda uma população.

Pelo menos, são as definições de democracia e de política, mas, na realidade, isso toma propósitos diferentes e cada um defende seus próprios interesses. O dinheiro é a única moeda de troca, não há espaço para que atos sejam feitos, sem que seja dado.

ESCRITO POR Vanderson Freizer 1 K leituras
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