Entre o Céu e o Silêncio
Eles se conheceram quando o amor ainda era simples - quando bastava um olhar para fazer o tempo desacelerar. O mundo era pequeno diante da imensidão que sentiam. Com o passar dos anos, vieram os rituais, as crenças, os templos, e cada um construiu seu modo de falar com Deus. Até aí, tudo bem. O problema é que o amor não aprendeu a escolher um altar.
No começo, riam das diferenças.
- "Enquanto você ora, eu medito."
- "Enquanto você canta, eu silencio."
Mas aos poucos, o riso virou resistência. A fé, que deveria unir, passou a dividir. Palavras bonitas se tornaram farpas, e o lar, antes refúgio, agora parecia um campo minado onde qualquer frase podia ferir.
A filha, pequena e sábia demais para a idade, percebia o peso no ar. Começou a temer os domingos - o dia em que os corações mais se contradiziam. Ela só queria paz, o tipo de paz que cabia na palma da mão dos pais quando se amavam.
Eles, cansados, começaram a entender que estavam adoecendo devagar - não por falta de amor, mas por excesso de ruído. Cada oração, cada silêncio, cada tentativa de "salvar o outro" era, na verdade, uma maneira inconsciente de se perderem.
Numa noite, sem gritos, apenas com olhares cansados, decidiram conversar. Pela primeira vez, não para convencer, mas para ouvir. Descobriram que o amor deles era maior que as paredes, maior que as palavras sagradas, maior até que o medo.
Decidiram que, se havia um Deus olhando por eles, Ele certamente preferia vê-los inteiros, ainda que distantes, a vê-los juntos, mas despedaçados.
E ali, entre o céu e o silêncio, compreenderam: o amor verdadeiro não precisa vencer a fé - ele apenas precisa aprender a coexistir com ela.
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