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Monologo: Um Relato Interno

Monólogo literário (em prosa)

Durante muito tempo, acreditei que certas dores eram escolhas.
Que havia, nelas, algum tipo de decisão mal tomada, alguma falha de caráter, alguma covardia diante da própria existência.

Hoje, ao cumprimentar pessoas e amigos por meio de abraços incompletos, começo a compreender o erro contido nesse pensamento. Um estado interno pesado e silencioso, que não grita, mas corrói. Algo que eu via nos outros e julgava à distância. Agora, estando dentro disso, sei por experiência própria que não é assim.

O que existe aqui é um cansaço profundo de estar vivo.
Um esgotamento que não se resolve com descanso.

Um mal-estar que não se explica facilmente, mas que se espalha por tudo. O dia perde o brilho. As horas se arrastam. A luz parece sempre insuficiente. A comida deixa de ter gosto - não por falta de tempero, mas porque o corpo já não se interessa em sentir prazer.

As conversas ao redor soam vazias, repetitivas, quase grotescas. As pessoas falam, riem, se movimentam, e tudo o que consigo perceber é o ruído das bocas se abrindo e fechando. Como se o mundo estivesse funcionando em uma frequência da qual fui excluído.

Há um peso constante no peito.
Uma sensação de deslocamento permanente.
Como se eu estivesse sempre alguns passos atrás da realidade.

Disfarçar torna-se exaustivo. Sustentar expressões, responder perguntas, fingir presença exige uma energia que já não tenho. As palavras passam a parecer inúteis, mal encaixadas, insuficientes para explicar o que acontece por dentro. E, depois de um tempo, até o desejo de explicar desaparece.

Nesse estado, certas decisões surgem com uma clareza perturbadora.
Não como impulso, mas como raciocínio.

Ideias que se apresentam como soluções simples para um desconforto que parece não ter fim. Neste momento, elas soam lúcidas, coerentes, quase reconfortantes. Como se encerrar tudo fosse apenas mais uma escolha diante de um cenário que perdeu o sentido.

Ainda assim, existe uma tristeza que se impõe acima de todas as outras.
Não é por mim.

É pelo fato de saber que, infelizmente, algumas pessoas se apegaram à minha existência. Amigos, família. E também amigos que deixaram de ser apenas amigos e se tornaram família. Pensar neles cria uma resistência silenciosa. Um obstáculo incômodo, porém real.

É essa tristeza - e somente ela - que ainda me impede de atravessar certos limites.
De transformar pensamentos em gestos definitivos.
De aceitar por completo a ideia de desaparecer como forma de aliviar essa dor constante.

Essa angústia que insiste em permanecer
mesmo quando tudo ao redor segue normalmente.

ESCRITO POR Antines Difar 3 textos
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