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A Mulher Que Nuca Veio

Já amei tantas vezes.
E sempre me perguntei:
por que parece o mesmo amor,
reencenado em corpos diferentes?

O arrepio, o vazio, o desejo
não nascem do instante.
Eles retornam,
como se respondessem a um chamado antigo,
uma voz anterior a mim mesmo.

E comecei a compreender.

Não amo cada mulher.
Amo uma só.
A mesma.
Aquela que nunca veio.

Ela é uma presença sem rosto,
um contorno gravado no fundo da memória,
talvez anterior à própria vida.
Não a conheço,
mas reconheço.

E cada vez que alguém cruza meu caminho
trazendo um detalhe dela,
um gesto,
um silêncio,
um olhar,
um cabelo que cai sobre os ombros como sombra,
é como se um espelho se acendesse dentro de mim.

Não é essa pessoa que amo.
É aquilo que, nela,
ressoa com o que já estava em mim.

Talvez amar seja isso:
um ato de reconhecimento.
A intuição de que existe alguém,
um ser único,
que nunca vimos,
mas que buscamos sem cessar
em cada rosto,
em cada encontro.

E quanto mais perto creio estar,
mais percebo que não se trata de chegar.
O amor não aponta para o outro,
aponta para o abismo em nós
que só se revela diante do reflexo.

Por isso sigo amando.
Não para possuir,
mas para lembrar.
Para não esquecer
que em algum lugar, real ou impossível,
existe o Um,
aquela unidade perdida
que, ao mesmo tempo,
me condena e me dá sentido.

ESCRITO POR Antines Difar 3 textos
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