Quando o Faz de Conta Virou Ofício
No quartinho da bagunça funcionava uma empresa que ninguém registrou. Entre caixas antigas, ferramentas enferrujadas e pedaços de madeira acumulados ao longo dos anos, eu instalei meu primeiro escritório. Tinha quinze anos. A mesa era improvisada com uma tábua apoiada em suportes desiguais. A cadeira não girava, não tinha rodinhas, e às vezes rangia como se reclamasse da responsabilidade precoce que eu lhe impunha. Sobre a mesa, um copo plástico organizava canetas falhas. Papéis reaproveitados viravam relatórios. Eu os separava por assunto, criava prioridades, simulava carimbos, assinava decisões invisíveis. Havia método. Havia silêncio. Havia seriedade. Meu avô passava pela porta e perguntava: - Está trabalhando? Eu respondia, sem ironia: - Estou no escritório. E estava. Não era brincadeira dispersa. Eu brincava de responsabilidade. Criava demandas imaginárias para resolvê-las com rigor inventado. Estabelecia horários, organizava pilhas, corrigia erros que só eu via. Havia algo profundamente disciplinado naquele faz de conta. O mundo não sabia que ali havia ensaio. Enquanto a poeira se acumulava nas caixas ao redor, eu treinava postura. Enquanto a madeira ameaçava ceder sob o peso dos meus papéis inúteis, eu treinava organização. Enquanto ninguém prestava atenção, eu treinava foco. O escritório não existia no papel - mas existia em mim. Anos depois, ao entrar em uma sala real de trabalho, percebi que não estava começando do zero. A mesa firme, a cadeira giratória com rodinhas, o computador ligado, os processos organizados - nada daquilo me intimidava. Havia familiaridade. Desta vez, os documentos tinham valor legal. As planilhas exigiam precisão. As assinaturas produziam efeitos concretos. Não eram mais exercícios de imaginação; eram decisões com impacto real. Às vezes, antes de iniciar o expediente, quando a sala ainda está silenciosa, lembro do quartinho. Lembro do adolescente que tratava papéis sem valor como se fossem contratos importantes. Percebo que nunca foi fingimento vazio. Era preparação. Existe uma diferença sutil entre brincar e antecipar o próprio futuro. Enquanto muitos viam apenas um garoto sentado em uma mesa improvisada, eu estava construindo um modo de ser. O faz de conta foi meu laboratório. Quando o faz de conta virou ofício? Não houve um dia exato. Foi um processo silencioso. Cada tarde naquele quartinho foi um investimento invisível. Cada pilha de papéis organizados foi um tijolo na arquitetura de uma identidade profissional. A vitória não está apenas em ocupar uma sala de verdade. Está em reconhecer que eu a inventei antes de merecê-la.
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