Quem vive de vídeo é de vidro (?!)
Há quem viva de vídeo como quem tenta provar que existe. Posta o café, o treino, a viagem, o sorriso, o corpo, a conquista, a rotina editada. Tudo parece cuidadosamente escolhido para dizer: "olhem como minha vida é interessante". Contudo, a pergunta não parece ser apenas o que a pessoa mostra, mas o que ela tenta esconder quando mostra tanto. Freud já nos ensinava que o sujeito nem sempre sabe tudo sobre o próprio desejo, e aquilo que aparece como excesso de exposição pode ser também uma defesa contra uma falta que incomoda.
A tela permite cortes, filtros, legendas, músicas e ângulos. A vida, não. A vida real tem silêncio depois da festa, tem boleto, tem insegurança, tem rejeição, tem cansaço, tem dias em que ninguém aplaude - Lacan nos lembra que o sujeito se forma também diante do olhar do outro. O problema é quando esse olhar vira moradia e a pessoa passa a existir menos pelo que sente e mais pelo que consegue performar. Vive para ser vista, mas não consigue se ver sem a câmera ligada.
Quem vive de vídeo é, de algum modo, de vidro. Parece brilhante, mas pode estar prestes a trincar, porque a imagem sustenta, mas também fragiliza e aprisiona. Quanto mais a pessoa precisa parecer feliz, desejada, bem resolvida e interessante, mais difícil se torna admitir a própria fragilidade. E o real, esse que escapa às nossas tentativas de controle, sempre retorna. Ele aparece na angústia, no vazio, na comparação, na solidão, no incômodo de desligar o celular e não saber o que fazer consigo mesmo.
Não se trata de condenar quem posta, porque todos nós, em alguma medida, desejamos ser vistos. A questão é outra: quando a vida vira edição permanente, o sujeito corre o risco de se perder no personagem que criou. A câmera pode registrar momentos, mas não substitui presença; o filtro pode suavizar o rosto, mas não cura a falta. E uma grande coragem de hoje é justamente essa: suportar a própria vida sem precisar transformá-la o tempo inteiro em espetáculo, pois no vídeo se corta a cena, mas, no real, é preciso sustentar o que aparece.
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