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O CENTRO DO UNIVERSO TEM PROBLEMAS DE ÓRBITA

Quando alguém acredita que tudo deve girar ao redor de sua vontade, esquece uma lei básica da convivência: nenhum universo se sustenta quando todos querem ser o centro.

Certa vez, em uma sala de aula, a professora entregou a cada aluno uma pequena bola de isopor e pediu que representassem o sistema solar. Um menino, muito convencido de sua própria importância, pegou a maior bola, escreveu seu nome nela e disse: "Eu serei o Sol, porque tudo deve girar ao meu redor". A professora, com paciência científica, explicou que o Sol não é importante porque se acha importante, mas porque sustenta uma função dentro de um sistema. O menino ignorou a explicação, empurrou os planetas dos colegas para longe e colocou sua bola no centro da mesa. Minutos depois, ninguém mais participava da atividade. O sistema solar dele ficou perfeito em uma única coisa: estava completamente sozinho.

Essa pequena cena explica uma falha recorrente da espécie humana: a tendência absurda de confundir vontade com direito cósmico. Existem pessoas que acordam todos os dias convencidas de que seus desejos possuem valor de lei universal. Se querem algo, exigem. Se são contrariadas, acusam. Se erram, justificam. Se ferem alguém, reorganizam os fatos para parecerem vítimas. Do ponto de vista lógico, isso é um desastre. Do ponto de vista social, é pior: é uma tragédia com discurso de autoestima.

O problema não está em ter vontades. Vontade é um dado comum da existência humana, assim como a gravidade, a fome e a irritante mania das pessoas interromperem uma explicação antes que ela termine. O problema começa quando alguém não consegue administrar o próprio desejo e passa a tratá-lo como medida de todas as coisas. Nesse ponto, a convivência deixa de ser troca e vira laboratório de colisões. Um sujeito que não governa a própria vontade termina governado por ela, e isso não é liberdade; é apenas descontrole com boa iluminação.

Quem se considera sempre o mais lúcido da sala costuma ser o primeiro a tropeçar na própria vaidade. A inteligência real reconhece limites. A maturidade entende que nem toda vontade merece execução imediata. A convivência exige a habilidade sofisticada de perceber que o outro não é figurante da nossa biografia. Ele também deseja, sofre, pensa, escolhe, interpreta e reage. Quando alguém esquece isso, passa a viver como aquele menino da sala de aula: coloca o próprio nome no Sol e depois não entende por que os planetas foram embora.

No fim, a vida possui uma didática mais eficiente do que qualquer professor. Ela corrige sem pedir licença. Quem usa a astúcia para manipular pessoas acaba descobrindo que ninguém permanece enganado para sempre. Quem confunde arrogância com grandeza termina cercado de silêncio. Quem quer ser centro de tudo precisa suportar uma consequência óbvia: o centro é também o lugar mais exposto. E quando a queda acontece, a face da moeda finalmente aparece. Não como castigo místico, mas como resultado lógico: todo ego inflado, em algum momento, encontra a agulha da realidade.

ESCRITO POR Clemerson Silva 2 textos
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