TRAIÇÃO
Florismirno não queria aceitar que aquilo estivesse acontecendo consigo.
Sem perceber as pessoas que passavam ao lado, caminhou, passos firmes, para o recinto da esquina carregando, ou melhor, arrastando, um fragmento de tubo de PVC.
Tantos anos de dedicação e no final, aquela desfeita. Traição! Não vinha outra palavra na mente do Florismirno que não fosse essa. E as alegrias que juntos tiveram? A confiança depositada, sempre atrelada a uma fidelidade imparcial? Aquilo nenhum ser humano poderia suportar. Ainda mais com laços tão antigos. Já ia para mais de 30 anos de amor incondicional.
Chegou à esquina, adentrou o bar – lá dentro só se viam dois conhecidos já ébrios, alguns outros clientes sonolentos, muitas garrafas de pinga e alguns mosquitos no papel papa-moscas.– Passa a régua aí, seu Juvenério! – ordenou. Olhou o copo americano cheio até a boca e virou de uma só vez.
Os dois bebuns se entreolharam abestalhados. Que haveria acontecido? Florismirno não era de beber cachaça. Fosse uma cerveja no aniversário do caçula, um vinhozinho na noite de Natal ou Ano Novo, ainda vá lá – mas pinga em pleno domingo à noite? Ainda mais sabendo que no dia seguinte teria que enfrentar uma maratona diária de dez horas de trabalho pesado.
Mais uma vez ouviu-se a voz do Florismirno.
Diferentemente do primeiro, o segundo copo foi goela abaixo devagarzinho, degustado aos goles mansos.– Ingratidão! Soltou um farrapo de pensamento– Ingratos! Repetiu, agora alta voz.
Que haveria se passado? Dona Maridélia teria aprontado alguma com o pobre infeliz, usando como cúmplice algum antigo amigo e ele quebrado o tubo de PVC no lombo dos dois? Não, Dona Maridélia não era disso – diziam até que era meio crente – e com seus quase cem quilos distribuídos em porções desiguais ao longo de seus um metro e sessenta seria necessário alguém com muita disposição para cortejá-la.
Seu Juvenério voltou ao barril e lotou pela terceira vez o copo americano que viajou suavemente para os lábios de Florismirno, mas que não chegou a ser consumido por completo: quando a baba escorreu pelo lado esquerdo da boca, sua cabeça desceu velozmente até chocar-se contra o balcão – Poc!!! Derramou acidentalmente a pinga e resmungou alguma coisa incompreensível.
A pequena plateia especulava: teria Florismirno ganhado alguma herança e os parentes de Minas Gerais garfado tudo? Ou talvez acertado os treze pontos da loteca e seu caçula jogado fora o bilhete? O mais certo é que não saberiam de nada até o outro dia pela manhã quando, quem sabe, Florismirno quisesse dar alguma explicação para aquele vexame todo.
Passada uma rápida eternidade ergueu-se (não se sabe como) e tentou vencer a distância que separava o balcão da porta que dava para a rua. Só tentou, pois no terceiro passo sua cabeça pendeu desconsertadamente para a esquerda – peso da baba talvez, que teimava em continuar escorrendo – a perna direita tonteou sobre a esquerda, os braços abertos tal bailarina do Municipal tentando abraçar o espaço. Ouviu-se um "AAHHH" seguido de um baque surdo - "TUM"! – Florismirno esparramado no chão do boteco, antes de chegar à calçada.
Os transeuntes miravam o infeliz, enquanto seus dois amigos colocaram-no sentado no degrau da porta. Entra um, sai outro, aos poucos foi se esvaziando o boteco e Florismirno continuava ali, a recuperar-se do pileque. Até que findo o último freguês, seu Juvenério o cutucou – não era problema seu se alguém quisesse afogar as mágoas na cachaça, mas a uma da manhã já era hora de fechar o "istabelecimento".
Florismirno ergueu-se aos resmungões, pegou seu caco de tubo de PVC – restos de uma bandeira alvinegra – e saiu trocando as pernas, seguindo o ritmo da cachaça.
Voltou. Levantou o dedo indicador e gaguejou, com a boca mole:– O Botafogo "num" podia fazer isso comigo…
Fez meia volta e sumiu na escuridão de Realengo no exato momento em que, longe dali, a última lâmpada do Maracanã se apagava.
Nota do Autor
"O Campeonato Carioca de Futebolde 1971 foi a 73.ª edição da principal competição do futebol do Rio de Janeiro. O Fluminense conquistou o título após bater o Botafogo, no dia 27 de junho, perante mais de 160.000 torcedores presentes.
Com a vantagem do empate, o Botafogo jogou na retranca, deixando apenas Zequinha e Nilson para os contra-ataques.
No segundo tempo, o Fluminense voltou com Flávio no lugar de Didi e com isso, deu mais agressividade ao ataque tricolor. Aos 43 minutos, Marco Antônio e o goleiro Ubirajara se chocaram, tendo a bola sobrado para Lula, que fez o gol, com insistentes reclamações dos botafoguenses. O árbitro confirmou o gol e a Torcida Tricolor comemorou ruidosamente a vitória, ante a decepção dos botafoguenses.
Crônicainspirada na coluna "Avesso da Vida".
Mais de 15.000 crônicas foram publicadas pelo jornalista Léo Montenegro durante 37 anos ininterruptos, de 1965 a 2003, na coluna 'Avesso da Vida', do segundo caderno do Jornal "O Dia" (com exceção de segundas feiras que, segundo ele, era "Dia Nacional da Ressaca").
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