LUZ, CÂMERA - AÇÃO!

Bruce Lee era legal.
Conseguia fazer com que minha turma toda, uns sete ou oito garotos na casa dos seus dez anos, saísse do cinema chhutando todas as latas de lixo e portas de aço que encontrasse pela frente. Cada um saía se sentindo um mestre das artes marciais, com força descomunal para chutar todo e qualquer objeto que fizesse barulho. Um dia quebramos um cano d'água e o dono da casa correu atrás da gente, xingando, mas nada seria capaz de nos alcançar. Não depois de termos assistido ao Bruce Lee.
Quer assistir um bom filme? Perfume de Mulher. Um drama de 1992, com atuações magníficas de Al Pacino e Chris O'Donnel. O tenente-coronel reformado Frank Slade (cego) contrata o jovem Charlie para acompanhá-lo durante um final de semana, a fim de experimentar mais uma vez aquilo que acreditava dar sentido à vida: hospedar-se num hotel de luxo, dançar o tango, dirigir uma Ferrari (Testarossa), passar um bom tempo com uma bela mulher. E o final é emocionante.
O que me chamou a atenção no filme foram as tiradas. Quando se encontram no restaurante, referindo-se a uma mulher, o cego Slade diz "- No dia que pararmos de olhar, morreremos..." e, em seguida, ao tirar Donna para dançar "- Ninguém erra no tango. Não é como na vida. Se errar, é só continuar a dançar." O filme fala de princípios, integridade, liderança. Também faz uma boa propaganda dos charutos Monte Cristo nº 1.
O primeiro filme que assisti ainda menino foi no cinema Alvorada. Estávamos Charlles (meu irmão), Vânia e eu – e ainda não sei como o porteiro nos deixou entrar porque o filme era proibido para menores de 12 anos (queimavam a Joana Darc no final). Pobre Joana. Depois de ter libertado a França do domínio Inglês, os próprios franceses a entregaram para a Inglaterra – como entender o jogo do poder?
Lutávamos ao lado de Bruce Lee, ríamos com Os Trapalhões, treinávamos junto com o Rock Balboa no meio da neve, levantando toras de madeira – YAAAAAA! Nós eramos invencíveis! Na saída passávamos pelo carinho de pipoca do Seu Antônio, "- Tem 'piruá' seu Antônio??? Ele pegava uma canequinha de alumínio pela alça e enfiava dentro de uma gaveta onde caíam as pipocas pequenas e os grãos não estourados e enchia as mãos da criançada com aquela joia preciosa. Servia tanto para comer quanto para jogarmos uns nos outros. E todos nós íamos felizes pra casa, fazendo guerrinha de pipocas, chutando nossas latas e quebrando nossos canos.
Depois que as fitas de vídeo invadiram as videolocadoras da cidade, o Bruce Lee já não parecia tão ágil, nem Os Trapalhões tão engraçados, nem o Rock Balboa tão forte… E pra piorar o cinema Alvorada faliu. Ficou fechado por um bom tempo e depois se transformou em loja de variedades (2 vezes), supermercado (3 vezes) e igreja evangélica (um monte de vezes). Uma noite dessas sonhei que era um cinema de novo, com grandes cartazes nos painéis de vidro ao lado da porta central, com o carrinho de pipocas do seu Antônio na entrada e crianças so redor. O sonho se desfez pela manhã, os tempos mudaram.
Mas ainda bem que chegaram os shoppings pra assistirmos a uma boa sessão de cinema, né? Ainda mais com aquele balde enorme de pipocas que se pode encher de novo gratuitamente. Só tenho pena dos garotos porque meninos são sempre meninos; e eles não podem mais fazer guerrinha de pipocas, chutar as latas de lixo nem quebrar alguns canos – existem muitos seguranças lá no shopping…
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