JINGLE BELLS
Papai Noel, velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos (E cospe nos pobres)
Presenteia os ricos (E cospe nos pobres)
Mas nós vamos sequestrá-lo
E vamos matá-lo, porque
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal,
Desde criança, sempre tive bronca daquele cara gordo que aparece na noite de Natal. Não, o Faustão não, o tal do Papai Noel… Não concordava com a seleção que ele fazia na distribuição dos presentes.
O filho da dona Geralda, que fazia maldades o ano todo e batia na gente, ganhava um autorama da Estrela e o vizinho do outro lado da rua, o Marcelo, que era órfão de pai e tinha um irmão que usava muletas, ganhava uma bola de borracha… Eu acreditava que o velho dava melhores presentes para o filho da dona Geralda porque o marido dela trabalhava em um banco; e na ceia da casa dela, certamente, era servido pernil assado e vinho caro. Barrigudo interesseiro.

Eu, por minha vez, ganhava um jogo de tabuleiro ou um revólver de espoleta – talvez o Papai Noel gostasse um pouquinho do bolo salgado que minha mãe fazia… Depois dos 6 anos eu já sabia que eram meus pais quem compravam os presentes – mas que eu queria um autorama, ah, isso eu queria.
Meus filhos, desde bem pequenos, sabiam que ele era apenas mais um símbolo do Natal, e não o Bom Velhinho, o camarada que desce pela chaminé para deixar presentes debaixo da árvore, dentro das meias ou em cima das lareiras.
Eles acreditaram por um bom tempo em coelhinho da páscoa – por vários anos a mãe deles e eu marcávamos o caminho até o esconderijo dos ovos, carimbando o chão com creme dental pela casa, imitando patinhas de coelho, para que as crianças seguissem as pistas até encontrar os ovos de chocolate – mas o Papai Noel, decididamente, estava descartado.
As crianças lotam os correios de cartas, pensando que essas vão chegar ao polo norte e os duendes, gnomos, leprechauns – sei lá quem são aqueles homenzinhos de orelhas pontudas – vão abri-las e verificar nas anotações se elas foram bons meninos e meninas durante o ano para separar os presentes. E o Santa Claus fica lá de boa, passeando de camiseta branca e suspensórios pela fábrica de brinquedos, fiscalizando o trabalho dos nanicos orelhudos.
E, durante o ano todo, os pais se matam pra conseguir uma bicicleta, uma Barbie, um videogame para, no dia do Natal, as crianças agradecerem ao velhote: VIVA O PAPAI NOEL!!! Todo mundo trabalha e o pançudo ganha o crédito.
Não acreditava que as crianças que existiram antes que Papai Noel fosse criado tenham sido menos felizes dos que as de hoje, por isso, sempre fui um severo crítico à sua existência.
Mas, depois que amadureci, pensei um pouco melhor.
Já que todos estão felizes, ganhando seus presentes, e quem tem que xingar o Papai Noel mais cedo ou mais tarde fará isso por si mesmo, não quero mais me incomodar com ele – o negócio é seguir com a festa!
Certa noite nos encontramos em um Natal desses qualquer e fizemos as pazes, em frente à Casa Olga, e terminamos a noite num porre de dar gosto. Olha nós aí!

Quem sabe agora ele me traga o autorama??
.............................................
Nota do Autor
"Os Garotos Podres são uma banda de punk Rock formada em 1982, no ABC paulista.
A música do "Papai Noel", lançada em 1985, é uma crítica social ao capitalismo, não um ataque literal.
Em 2025, Décadas depois, essa música foi alvo de um inquérito policial. A denúncia alegava incentivo à violência e ofensa religiosa. A investigação não conseguiu provar que houve crime - apenas uma interpretação polêmica de uma obra artística. Sem elementos suficientes, o caso foi encerrado."
Classificação de conteúdo:
Publicado
Comentários