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ALGODÃO DOCE PRA VOCÊS

Havia vida inteligente por trás dos programas infantis. Na década de 70 os programas infantis educativos reinavam absolutos: A Vila Sésamo, Shazam e Xerife, Globinho, Sítio do Picapau Amarelo… O governo militar não nos trouxe apenas surra de cacetete, repressão e censura, como querem nos fazer acreditar atualmente.

Nos anos 80 entrou em ascensão o modelo "loira de botas" – belas apresentadoras de pernas de fora, ditando moda para vender produtos e padronizando comportamentos artificiais para nossas crianças. Mas alguns programas educativos ainda lutavam para permanecer, principalmente na TVE, e um ou outro perdido pelas grandes transmissoras que, aos poucos, foram abandonados, pois não eram "lucrativos", não vendiam sandálias de plástico injetado.

Embora não fosse mais tão criança assim, eu gostava muito de um desses programas: Daniel Azulay e a Turma do Lambe-Lambe (TV Bandeirantes e TV Educativa). No seu programa, Daniel ensinava a desenhar e a fazer artesanato com sucata (cartela de ovo, pote de Danoninho, caixinhas de fósforos, etc). Tinha o quadro do pincel mágico que deixava as crianças encantadas, e grandes bonecos dos personagens da Turma do Lambe-lambe, que contracenavam ensinando vários princípios importantes como amizade e companheirismo. Os personagens eram muito toscos, é verdade, mas traziam para nossas casas situações comuns de criança, e não a violência barata dos desenhos japoneses que invadiram a tela nos anos seguintes.

Mas o que mais me divertia era uma expressão que o Daniel usava. Ele dizia : – Bom dia, meus amiguinhos e televizinhos!!! Os televizinhos eram aqueles vizinhos que vinham pegar carona na TV da casa do amigo, porque o aparelho ainda não era um artigo tão comum como é atualmente. Eu já era um televizinho na década de 70, o que prova minha teoria de que esse espécime já existia antes do Daniel Azulay apresentar seu programa.

Na casa da minha avó havia uma TV daquelas grandes, de caixa de madeira, com o seletor rotativo que fazia aquele barulhão: troc, troc troc, quando trocávamos de canal. Também não era preciso mudar muito de canal pois na nossa região só havia uns 3 ou 4. Ela ficava em cima de um móvel de madeira maciça, numa posição elevada, visível para todos que estivessem na sala. A TV era em preto e branco mas, na frente do tubo de imagem, minha avó instalou uma sobre tela de acrílico toda colorida – mas translúcida – para dar a impressão de cores nas imagens e, normalmente, encontrava-se uma bucha de Bombril pendurada na antena.

Naquela rua havia mais 2 televisores, um na casa do "Seu" José Arnaldo e outra na casa do "Seu" Donato; mas a garotada escolhia a casa da minha avó para se reunir e eu também estava lá. A sala ficava apinhada de pequenos televizinhos das mais diferentes idades e juntos assistíamos "Os Batutinhas", "Tom e Jerry", "Topo Giggio", "A Pantera Cor-de-Rosa", "Popeye" e outros desenhos e seriados. Também assistíamos novelas, todos juntos, embolados naquela sala. Num dia muito frio, um mar de cobertores cobria as crianças – no chão, no sofá, pra tudo que é canto – e eu me lembro que a Luciana, uma mocinha de uns 13 anos, cobriu sua cabeça e a minha com o cobertor e me deu um selinho na boca. Não foi algo que se possa chamar exatamente de um beijo romântico, mas eu tinha 9 anos e achei aquilo o máximo!!!

Embora nos anos seguintes também tivéssemos ótimos programas como Bambalalão, Castelo Rá Tim Bum, TV Colosso, X Tudo e outros, hoje estamos no novo milênio, na era digital, e os aparelhos saiam de cima dos móveis e vieram para a palma de nossas mãos. As TVs de tubo foram substituídas por telas de celulares e as crianças não se juntam mais com os amigos na sala da casa da avó, se juntam com estranhos espalhados ao redor do mundo, que podem residir na casa vizinha ou morar do outro lado do planeta. As crianças desde cedo têm sido incentivadas por seus pais a parecerem e se portarem como adultos e, diferentemente de anos atrás, hoje em dia, quanto mais conhecida pelo público, mais solitária essa criança é.

E a inocência do cobertor se transformou em senhas e algorítmicos.

Cabe um alerta: tomem cuidado com os cobertores digitais! Se há 40 anos atrás, assistindo Os Batutinhas, uma garota utilizou um cobertor para me dar um beijo na boca, imagine o que pode acontecer hoje em dia.

Que saudades do Daniel Azulay.

ESCRITO POR Cássio Jr 4 textos
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