Tema Acessibilidade

CALOI VERMELHA

Comecei a estudar a primeira série A (alfabetização) no Grupo Escolar Municipal Paraíba e a tia Mara foi a minha primeira professora – e a mulher era muito brava! Um dia achei um chiclete (mascado) abandonado debaixo da minha carteira e joguei-o debaixo da carteira da frente. A mulher viu e queria de todo jeito que eu pedisse desculpas para o aluno da frente, o que eu não fiz de jeito nenhum. Certamente mais por vergonha do que por orgulho. Assim, fiquei de castigo depois da aula. Todo mundo saiu mais cedo e ela, impiedosa, de vez em quando ia me alfinetar: – já ta pronto para pedir desculpas? Eu gritava que não e mandava ela embora; e continuava chorando. E eu fiquei lá chorando até minha mãe ir me buscar, algum tempo depois. Chorei muito. As crianças perdoam com facilidade mas, decididamente, certas coisas talvez nunca esqueçam.

As únicas lembranças que tenho dela é desse episódio e outro, em que ela batia numa caixa de papelão com uma colher de pau, enquanto ensaiávamos para o desfile de 7 de setembro de 1975. Pelo menos era uma professora entusiasmada e certamente tinha um lado bom que não consegui observar do alto dos meus 7 anos de idade.

No desfile de 7 de setembro as meninas usavam congas vermelhos, os meninos congas azuis, e a turminha que conduzia as bandeiras, congas brancos. Era o tempo da garrafinha de coca-cola de 200 ml, que custava 50 centavos de cruzeiro; do refrigerante Pepsi, Mineirinho, Crush e Grapete (que ficaram sumidos por muitos anos e voltaram depois, só para desaparecerem de novo), do Bingola Disney – personagens de Walt Disney no selo plástico das tampinhas de refrigerante, para colecionar. Do Futebol Cards, que eram figurinhas com estampas de jogadores de futebol; do Autorama, do revólver de espoleta e um monte de outras coisas maravilhosas.

Tomávamos sopa em pratinhos de alumínio sobre mesas colocadas no pátio da escola, pois ainda não havia o refeitório. O Kichute começou a destronar o Conga (os dois davam muito chulé) e os sapatos foram aos poucos sendo trocados pelos tênis. Podíamos observar a evolução do país no pátio da escola.

Na primeira série B a coisa foi diferente: a professora era a Tia Isabel. Linda, jovem, gostava de todos os alunos e, claro, todos os meninos eram apaixonados por ela. Quando ela ficou grávida creio que todos se decepcionaram um pouco mas, tudo bem – ela elogiava minhas borboletas de cartolina. Pediu que eu fizesse um monte para colar nas paredes da sala. De todos os tamanhos, todas as cores. Incentivou-me a fazer um caderno de poesias, que minha mãe encapou com papel camurça amarelo e recortou um Cebolinha para colar na capa, abaixo do título "Minhas Poesias".

Pois bem, o Rotary Club de Volta Redonda promovia um festival estudantil anual entre todas as escolas da cidade, uma competição para escolher as melhores turmas. Cada série, de cada, escola indicava três alunos para representá-la e esses alunos fariam uma prova de conhecimentos gerais para avaliação. A prova foi realizada no ginásio do clube Recreio do Trabalhador e os doze alunos da Escola Paraíba – três de cada série – 1ª,2ª 3ª e 4ª, foram para os testes juntamente aos outros representantes das escolas de toda a cidade, um mar de crianças. Minha equipe tinha ainda o Cláudio e a Elisete e, ao término da prova, presentearam cada um de nós com uma caneta metálica e muito sorvete. Já nos sentíamos recompensados com aquele objeto de luxo pelo tempo que ficávamos depois da aula estudando junto com a professora, a fim de realizar a tal avaliação, e pensávamos que tudo havia se encerrado ali.

Alguns dias depois, estava gripado e não fui à escola. Um aluno foi em casa me chamar e disse que a Tia Isabel queria falar comigo urgentemente. Ela me recebeu na porta da sala, me abraçou pulando, radiante, e disse: "- Nós ganhamos! Nós ganhamos!" – tínhamos tirado o primeiro lugar entre as primeiras séries da cidade. Isso nos rendeu um jantar na sede do Rotary Club – a primeira vez que utilizei garfo e faca – com a presença de alguns políticos da cidade. Não sei quem estava lá, pois a minha atenção estava voltada para doze bicicletas Caloi Berlineta, que estavam enfeitando a entrada do salão. Como éramos doze os agraciados, parecia uma conta lógica.

Depois de todo o blá-blá-blá dos políticos e dos membros do Rotary, serviram-nos o jantar (eu nem sabia o que estava comendo, mas estava muito bom) e chamaram os alunos um a um para irem à frente receber um pacotão – tinha livros, canetinhas, lápis de cor de 24 cores, brinquedos; e os cumprimentos.

Ao fim da cerimônia, disseram que poderíamos nos levantar e escolher nossas bicicletas. Foi aquele corre-corre de crianças pelo salão e eu escolhi uma linda bicicleta vermelha.

Agora a noite estava perfeita: nossa equipe, as bicicletas e a professora, voltando para casa de Kombi – a Kombi nos buscou e levou, tudo por conta do Rotary. Não sabia qual das duas era mais linda, se a professora ou a bicicleta - mas confesso uma caída para o lado da bicicleta… Tentem me entender: no Brasil do governo Geisel, em que se calçava conga, tomava sopa no pratinho de alumínio e ensaiava-se para o desfile de 7 de setembro ao som de batidas na caixa de papelão, não era todo menino de 8 anos que possuía uma bicicleta.

Com o tempo eu aprendi: a bicicleta se foi, furtada em uma noite de inverno, mas meu amor pela Tia Isabel permanece vivo até hoje.

Nota do Autor

"- Não estranhem a bicicleta verde na gravura – sou meio daltônico! Só percebi que era verde quando me alertaram. Fica como está…

- 40 anos depois consegui o contato da minha professora na Secretaria de Educação da cidade, mas essa é outra história.

– Ernesto Geisel foi o 29º presidente do Brasil, governando de 1974 a 1979 e é conhecido por iniciar o processo de abertura política no país.

- O nome da Tia Isabel não foi trocado."

ESCRITO POR Cássio Jr 5 textos
Attachment Image
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir e executar a obra, desde que atribua o devido crédito ao autor original. É proibido utilizá-la para fins comerciais ou criar obras derivadas.
±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor

Crônicas

TRAIÇÃO

Florismirno não queria aceitar que aquilo estivesse acontecendo consigo. Sem perceber as pessoas que passavam ao lado,... [Continue lendo.]
Publicado
Contos

JINGLE BELLS

Papai Noel, velho batutaRejeita os miseráveisEu quero matá-loAquele porco capitalista Presenteia os ricos (E cospe nos... [Continue lendo.]
Publicado