Quando o Rádio Silenciou
★ 03/04/1941 † 02/08/2026
Querido pai, Lotário Emílio Kelm,
Hoje o senhor partiu. E o papel aguenta o peso do que a saudade, ainda tão recente, aperta no meu peito. Como escritora, sempre busquei as melhores palavras, mas hoje escrevo com o coração para trazer de volta o homem que o senhor foi desde o dia 3 de abril de 1941, filho de Albino Rodolfo Kelm e Eli Kelm, mas, acima de tudo, o homem que escolheu ser a nossa raiz.
O senhor nos ensinou que o amor é a nossa maior certeza. O senhor nos deu o seu sobrenome, a sua proteção e o seu coração desde o primeiro dia. Dali em diante, nunca existiu dúvida para mim ou para os meus irmãos. O senhor era o nosso pai, em cada pedaço de nós.
A sua vida foi puro trabalho, pai. O senhor não sabia o que era desculpa ou cansaço. Eu não estava lá para ver os primeiros anos, mas a mãe guardou na memória e sempre nos contava, com um misto de orgulho e espanto, que nem mesmo a cirurgia para tirar a vesícula segurou o senhor em casa. Em poucos dias, o senhor já estava no serviço. O trabalho era a sua religião, o seu jeito calado de dar dignidade para a família que escolheu amar.
O seu cuidado também se estendia nas horas de aperto. Preciso agradecer e reconhecer, do fundo da minha alma, todo o auxílio que o senhor sempre deu a mim e ao meu filho Matheus. Quando descobrimos o diabetes dele, foi no seu abraço e no seu apoio que encontrei forças. O senhor não mediu esforços para nos amparar, cuidando de nós com o mesmo zelo com que sempre regeu a sua vida. Esse amor de avô transbordava e deixou marcas profundas no coração de cada um dos seus netos: Raquel, Gabriel, Sharyn, Hadja, Hyago, Matheus, Lívia e Rhavy.
A sua inteligência estava nas coisas simples. Ainda escuto o som das palavras em alemão que o senhor ensinava a mim e ao meu irmão Leek e sinto o cheiro daquela cuca alemã de verdade. Aprendi direitinho: a cuca verdadeira tem que bater a gemada com paciência e usar banha, do jeito antigo. O senhor gostava do gosto simples da vida: do torresmo estalando, da chimia de figo passada no pão, do prato de carreteiro molhado que hoje eu sei fazer porque foi o senhor quem me ensinou. O senhor também me mostrou que um belo pedaço de matambre recheado assado é delicioso. Lembro que, quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, o senhor fazia churrasco em casa, também preparava uma bela caipirinha de limão, açúcar e Velho Barreiro, e eu sempre roubava um golinho. No dia a dia, o senhor gostava mesmo era daquele café com leite, mas tinha que ser bem mais café do que leite, forte como o senhor. E quando comia, era quase certo ver a sua boca sempre lambuzada de mostarda bem no cantinho. Na minha infância, o seu amor vinha logo cedo: a gente acordava cedinho e, enquanto eu e o meu irmão Leek assistíamos aos desenhos na TV, o senhor batia o ovo para molhar o pão e fritar na frigideira. Era o nosso banquete sagrado.
A nossa casa tinha música. Tinha a alegria dos Atuais saindo do rádio, as canções gaúchas que faziam o meu peito vibrar e o compasso feliz das bandinhas que o senhor tanto adorava e que espantavam qualquer tristeza.
Mas o tempo é bruto e começou a cobrar a conta. Quando o quadril falhou e a visão começou a sumir, o senhor teve que largar o serviço. E foi ali, parado, que a sua alma começou a adoecer. O homem que não parava precisou se esconder nas poucas coisas que restavam. Passou a cuidar das orquídeas e a esperar, na escuridão do quintal, pelo perfume da flor dama-da-noite. A sua única ligação com o mundo virou aquele rádio de pilha, colado no ouvido, sofrendo e torcendo baixinho com os jogos do seu Grêmio.
Depois, o silêncio engoliu tudo. O senhor foi parando de vez. Parou de caminhar, parou de enxergar, parou de falar e, por fim, parou de comer. Foi um adeus em pedaços. Um recolhimento nítido, como se o senhor estivesse fechando as janelas de si mesmo, enquanto nós assistíamos com o coração despedaçado. Ali, pai, vendo o senhor se apagar devagar, eu entendi o que é a pior dor do mundo: o momento exato em que um homem forte perde a vontade de viver porque o corpo cansado não consegue mais acompanhar a alma trabalhadora.
O senhor se trancou no seu mundo interno e partiu. Mas saiba, meu velho, que a porta ficou aberta em mim e em todos nós. Suas receitas, suas músicas, o idioma alemão e a sua força continuam correndo nas veias que nos unem. Aquele seu rádio de pilha agora silenciou por aqui, mas ganhará um lugar sagrado na minha cristaleira. Ele ficará guardado ali como a lembrança mais linda da sua voz e da sua presença. Uma vida inteira de amor. Cada vez que a flor dama-da-noite abrir no escuro ou que o rádio tocar uma bandinha no domingo, o universo inteiro dirá o seu nome.
O senhor vive em nós, Lotário.
Com todo o amor de seus filhos,
Tânia Regina Kelm, Elaine Cristina Kelm, Eduardo Kelm, Alexandro Kelm e Luciana Kelm.
P.S.: Pai, este é o nosso primeiro Dia dos Pais separados pelo silêncio. A sua ausência física dói e assusta, mas o rádio que silenciou na cabeceira da sua cama agora ecoa eterno nos nossos corações. Feliz Dia dos Pais onde quer que a sua alma trabalhadora esteja descansando. O senhor conseguiu: o seu amor virou a nossa eternidade.
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