A TAQUICARDIA.
201012
Eu dormia feito um deus grego e, no sonho, eu acordei. Imediatamente, lembrei-me de que ainda de manhã minha mãe havia pedido para que eu confirmasse, na receita do médico, se determinado remédio - ela havia dito o nome - era o que o médico lhe recomendara tomar já no dia seguinte, início da semana.
Era madrugada, não demoraria para raiar o dia e eu sequer sabia a que horas o tratamento dela deveria começar. Por isso levantei da cama e fui escarafunchar as gavetas onde a coroa guarda medicamentos e receitas. Se fosse só isso, vá lá, mas havia tantas outras miudezas misturadas que causavam desgosto cumprir tão simples tarefa.
Como sou um sujeito organizado, aproveitei para fazer uma limpeza geral e, enquanto não encontrava a tal receita, descartei muita quinquilharia: fotos antigas, ponta de lápis, talher de plástico, caneta sem tinta, sacos de papel de presente, saquinhos de plástico, bolinhas de encher, frascos vazios. Separei receitas de culinária e vários papéis com número de telefone. Juntei numa caixa material de costura... Era muita bugiganga reunida!
O chão já estava encoberto quando ouvi o vozerio de um grupo de homens falando alto, vários ao mesmo tempo, à medida que desciam pela rua. Apurei os ouvidos e não consegui entender o teor da conversa; parecia que estavam brigando diante da minha residência. Larguei o que estava fazendo e, feito um raio, cruzei da copa, nos fundos, até a porta da sala, na frente da casa. Nesse pequeno trajeto passei a ouvir, misturado à falação já menos tumultuada, quase quieta, um som de serrote.
O pensamento foi imediato: "Estarão serrando o meu portão?", perguntei a mim mesmo. É estranho ter de admitir.
Devo acrescentar aqui um detalhe: no sonho, a frente do local onde moro era muito antiga, do meu tempo de criança. Naquela época, o muro era de meia altura e o portão que o acompanhava era de cedrinho, com a maior parte, a inferior, numa sequência de ripas na vertical fechando um quadrado grande. Já na parte superior, bem mais estreita horizontalmente, havia uma sequência de ripas cruzadas em X. Atualmente, o muro é alto e o portão tem outra configuração. Na sua armação de ipê, ele impede completamente a visão da rua.
Em hora tão avançada, já madrugada adentro, acreditei tratar-se de gente mal-intencionada, de bandidos mesmo, aqueles que causavam tamanha confusão. Diante da porta trancada, a taquicardia ameaçou travar meus movimentos, porque a gente não sabe com quem vai lidar ao abrir a porta e se há homens armados ou não. Esses pensamentos negativos somados aos meus acelerados batimentos cardíacos e a fadiga repentina dificultaram a minha capacidade de agir, mas não me impediram de girar a chave na fechadura. Liberei o caminho e invadi a escuridão com determinação.
Era um breu terrível e não se enxergava absolutamente nada. O barulho do serrote cessou imediatamente. Logo à frente, oriundas da minha calçada ou muito próximas dela, apenas algumas vozes continuaram dizendo coisas obscuras, incompreensíveis.
Gritei: "Quem está aí?" Quem quer que fossem eles, os que estavam do lado de fora me viam sem dificuldade; eu é que não os enxergava. Eu girava a chave, mas não conseguia abrir meu portão, do qual um deles havia acabado de remover uma ripa de cedrinho. Enquanto eu lutava com a fechadura e a dificuldade para respirar, continuei fazendo perguntas: "Quem está aí? Quem são vocês?"
Passei o braço por cima da armação de madeira e segurei pela camisa um rapaz do lado de fora; ele estava em pé, com as costas voltadas para o muro. Nessa hora, alguém acertou meu ombro com um pedaço de pau. Fiquei furioso e insisti com a chave. Consegui desbloquear o acesso e saí de peito aberto, disposto a encarar qualquer um.
Já na rua, constatei que as luzes dos postes clareavam tudo ao redor. Então foi possível ver, com surpresa, que eram jovens maltrapilhos e necessitados os que causavam aquele rebuliço. Ao perceberem o portão se abrir, correram em disparada para várias direções. Dois ou três se justificaram: "A gente corta essas madeiras e recolhe objetos nas ruas para vender e comprar o que comer. Nós somos muito pobres, nós não temos casa para morar."
Correndo velozes, dobraram nos cruzamentos até desaparecerem completamente de vista. Pensei: "Não tem jeito. Uma minoria se apropria do erário público por meio de salários infames, penduricalhos vultosos, aposentadoria com direito à integralidade e à paridade, ajuda de custo de toda ordem, dinheiro para fundo eleitoral, isenção de imposto de renda, corrupção, peculato... Tem mesmo que haver muita gente passando fome..." Nem terminei o raciocínio e despertei de vez.
Eis mais um de meus sonhos, daqueles que reúnem, na mente da gente, imagens, ideias e pensamentos que aparecem no decorrer do nosso sono. Grato por sua leitura leitor.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado
Atualizado

Comentários